
Temos, pois, a longa lista que há-de servir de base ao tratamento dos irredutíveis: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto de edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas... Frei Gil escreve e vai relendo, procurando lembrar-se de algum modo de suicídio que antes lhe tivesse escapado. Risca "asfixia com almofada", por lhe parecer agora ser este um método mais próprio ao assassinato, mas não deixa, ainda assim, de notar que são inúmeras as formas que o homem engendrou para pôr termo à própria vida, parecendo-lhe que não bastou à humanidade ser capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo perseverado também em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie. E, pensando isto, dá por si a questionar-se sobre a real bondade da sua actividade. Escreve: "Meus Deus! Estarei realmente a salvar estas pessoas? Ou apenas impedindo que definitivamente se libertem do fardo que é viver?".
É esta dúvida que o corrói nos últimos dias. Com ela se deita e com ela desperta, habitando-o ainda durante o sono, figurada em sonhos terríveis, mais pavorosos a cada noite que passa. Acha-se, nestes pesadelos, transformado no próprio juiz ao qual cabe decidir que vai este para o Paraíso e aqueloutro para o Inferno; ou num barqueiro que impede a última travessia das almas penitentes; ou num homem alado que cruza os céus da cidade impedindo que tombem no chão aqueles que se lançam do alto dos edifícios, agarrando-os no ar, mas sendo arrastado com os corpos dos suicidas, ou então, permitindo que estes se lhe escapem, terminando por esborrachar-se no chão, entre gritos e dedos que o apontam a ele, frei Gil, como responsável por aquela morte. Acorda a berrar, com a boca seca e o leito revolto, transpirado. Ergue-se do sono e, uma e outra vez, repassa a lista das formas de suicídio: enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica... E, enfim, decide: doravante, a obra não se limitará a salvar os suicidas, prestando também assistência, como numa novela de Robert Louis Stevenson, a todos aqueles que tenham decidido suicidar-se e se achem sem coragem para realizar o intento. Volta a página e escreve: "Clube da boa morte (assunto de acesso restrito; o patriarca não pode saber disto)". E, parando um instante para pensar, inicia uma nova lista, desta vez dedicada a métodos de homicídio rápido e relativamente indolor:
Asfixia com almofada, envenenamento, corte da veia jugular, tiro na nuca, atropelamento com veículo pesado de mercadorias, refeição de peixe-balão, picada de cobra venenosa, decapitação, injecção letal...
Pára. Relê. E risca "refeição de peixe-bãlão" e "picada de cobra venenosa" por não estar certo de que, deste modo, o suicida morrerá sem dor. Relativamente.
(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)
Com este post dou por concluída a edição do conto. Espero que tenha despertado o vosso interesse, levando-vos, da mesma forma, a reflectir mais profunda e amplamente sobre a temática em questão: o suicídio.