abril 27, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (3)

Metódico e modesto mesmo diante do ofuscamento do êxito, frei Gil não deixava jamais de fazer anotações e de cotejar estatísticas, estranhando, todavia, que ao exponencial aumento do número de atendidos não correspondesse equivalente redução do número de suicidas bem sucedidos. Esta cifra, teimosa, só muito a custo se ia reduzindo, e tão lentamente que era difícil, sem prejuízo da certeza, garantir que tal abrandamento se ficasse devia à intervenção da instituição e não a outro motivo qualquer. A este propósito, o padre escreveu no caderninho: "Apesar do crescimento dos casos em que passamos a ser procurados pelos potenciais suicidas, continuam a chegar em ritmo constante as informações dos fiéis e amigos espalhados pelo país, indicando-nos um sem número de pessoas que manifestam sinais de alarme suicida. O que actualmente mais nos traz preocupados é precisamente o facto de se registar entre estes que nos são indicados pela via original a maior taxa de insucesso da obra. Ou seja: aqueles que procuram a nossa ajuda, buscando uma última esperança, parecem vir já decididos a não morrer. Entre os outros, e malgrado a nossa acção preventiva, são muitos os casos em que os suicidas acabam mesmo por se matar".
Esta conclusão não fez, porém, esmorecer o ânimo de frei Gil, bem pelo contrário, pois parecia óbvio que a existência da instituição estava plenamente justificada pela obra já realizada, sendo igualmente importante essa função que ultimamente vinha adquirindo, servindo de último recurso aos não totalmente desesperados. Todavia, no caderninho constavam anotações que pareciam indicar que a principal dificuldade em lidar com os suicidas-suicidas (por oposição aos potenciais suicidas que procuravam a instituição de moto próprio) residia no facto de nem todos serem passíveis de uma abordagem tão esquemática como aquela que o padre tinha originalmente engendrado, pois muitos eram os casos em que não havia aconselhamento, acompanhamento médico, dinheiro e emprego que pudessem evitar o trágico desenlace, por estarem os suicidas já demasiado firmes nas suas decisões. Por isso, esclareço agora, frei Gil necessita de uma lista das várias formas viáveis de suicídio, tão exaustiva quanto possível, pretendendo o padre pôr à prova uma ideia que lhe ocorreu há alguns dias, segundo a qual, detectados os casos sem retrocesso, o tratamento deverá consistir em baralhar a opção tomada, sugerindo-se diferentes formas de colocar termo à vida. "Se, por exemplo, o suicida pretender matar-se à pistola, com um tiro na nuca, devemos tentar fazê-lo ver que, no seu caso, haveria vantagem em eleger uma fórmula alternativa, como o envenenamento ou a queda em altura. E, enfatizando veementemente os benefícios destas hipóteses, há-de ser possível semear na mente do suicida uma raiz de dúvida e indecisão, a partir da qual seja possível resgatá-lo", escreveu frei Gil no caderninho - que servirá, aliás, de base à escrita de um manual de salvamento de suicidas que permita generalizar o método e conceda a outros, depois de si e em cada um dos quatro cantos do mundo, a possibilidade de se dedicarem à tarefa de atender ao seu semelhante na hora em que ele mais necessitado está.


(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em abril 27, 2005 06:46 AM
Comentários

Afinal, vcs sao contra ou a facvor do suicidio???????

Afixado por: Alessandra em maio 24, 2005 06:25 AM