
Para executar a tarefa, frei Gil alcançou erguer do nada, com a ajuda de antigos paroquianos e de padres amigos e respectivos rebanhos, uma rede de recolha de informação sobre aqueles que estivessem necessitados da ajuda da filantrópica agremiação de socorro vital, sendo que, reconhecidos e apoiando o objectivo da instituição, os informates serviam também de financiadores da piedosa operação, quotizando-se no sentido de garantir um fundo financeiro que permitisse enfrentar sem hesitações ou fatais demoras os casos mais desesperados. Assim se custeavam os gastos com consultas psiquiátricas e se providenciavam adiantamentos líquidos que evitassem casos de suicídio por motivos económicos, sendo que aqueles que viessem a ser salvos da tentação inescapável se comprometiam a ressarcir a obra do frei Gil dos custos da operação. Por outro lado, os amigos da instituição, não se limitando a descobrir aqueles que estivessem necessitados da intervenção da associação, tratavam ainda de criar uma rede de amizades que permitisse a existência de uma bolsa informal de empregos, nos quais os potenciais suicidas se poderiam manter ocupados no decurso da fase inicial da terapia.
Tudo corria bem, portanto, e, deste modo, frei Gil começou a salvar suicidas da morte quase certa, primeiro um, depois outro, depois dez, depois cem, até que o fenómeno passou a correr de boca em boca e se transformou em notícia dos jornais e reportagem na televisão. A hierarquia da Igreja, tocada por este exemplo cristão de abnegação, reagiu com cautela e desconfiança, a princípio, louvando, ainda assim, a atitude de frei Gil. O caso, porém, foi atingindo proporções tais que o cardeal acabou por convidar a imprensa para presenciar a recepção do salva-suicidas na sede do patriarcado, registando-se uma trovoada de flashes no momento em que os dois homens de Deus apertaram as mãos e selaram o reencontro com um sentido abraço, após o qual se retiraram para uma breve conferência, da qual saiu o anúncio solene de que a Igreja passaria, doravante, a apoiar informalmente o meritório trabalho de frei Gil, cedendo para o efeito instalações devolutas que pudessem servir de base à instituição. Enquanto o anúncio se produzia, frei Gil sorria, o cardeal sorria também, tendo este terminado a sua curta e ponderada intervenção com um rasgo de oratória que os jornais, no dia seguinte, reproduziram integralmente: "Tivesse frei Gil vivido alguns séculos antes e mesmo a alma de Judas poderia ter sido salva, devolvendo ao caminho justo um homem que dele se tinha perdido e deixado sem função funesta a árvore a que o discípulo, em má hora, lançou a corda com que se enforcou".
Foi tal o sucesso de frei Gil e tão retumbante o efeito da sua acção que muitos suicidas passaram a procurar a obra de livre vontade, abrigando-se sob os seus desígnios e procurando ajuda especializada mal a ideia da morte lhes atravessava o espírito à laia de possível escape para este ou aquele problema, uma ou outra aflição mais aguda. A todos o padre recebia com igual parcimónia, aconselhando e analisando os males que atormentavam os candidatos a suicidas, encaminhando-os de acordo com a natureza das suas maleitas e vigiando-os até certo que o bem estar se mantinha e que a fatal ideia os havia definitivamente abandonado.
(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)