abril 26, 2005

CLUBE DA BOA MORTE (1)

Pelo seu maior tamanho comparativamente ao texto editado ontem, começo por apresentar o primeiro post respeitante ao conto "Clube da boa morte", da autoria de Manuel Jorge Marmelo. Um conto que incide não só sobre a problemática do suicídio naquela que é/pode ser a sua abordagem mais ampla, mas também, sobre a do direito ao suicídio, em particular, na vertente da sua qualidade.
Pelo interesse e sempre pertinência do que está em causa, conto com a vossa especial companhia e acompanhamento. Ainda mais pela relevância das temáticas no âmbito das sociedades contemporâneas e dos/pelos debates já iniciados em seu torno e ainda não concluídos, nem em perspectivas de o serem.

Enforcamento, tiro na boca, remédio para os ratos, sufoco com saco de plástico enfiado na cabeça, tiro na têmpora, forca improvisada, salto de ponte, corrida rápida e mergulho diante de locomotiva que siga em boa velocidade, ingestão de soda cáustica, envenenamento por gás butano do fogão da cozinha, caminhada lenta mar adentro, automóvel em ponto morto na garagem, dose excessiva de comprimidos, corte profundo dos pulsos dentro de uma banheira previamente abastecida de água tépida, pulo do alto do edifício de vários andares, condução em velocidade excessiva na contra-mão de auto-estrada com grande movimento de veículos pesados de mercadorias, envenenamento, introdução da cabeça no micro-ondas, eutanásia clinicamente assistida, asfixia com almofada, administração intravenosa de substâncias significativamente tóxicas - são quase infindáveis as possibilidades à escolha de um suicida metódico, concluiu frei Gil, cansado já de anotar nas folhas do seu caderninho as alternativas que séculos de evolução da espécie tinham colocado à disposição do homem, parecendo quase que a cada nova etapa tecnológica da humanidade corresponde sempre pelo menos uma nova forma de autoliquidação. Como se ao ser humano não tivesse bastado ser o único animal de criação capaz de se matar por puro ditado do livre arbítrio, tendo ainda perseverado em fazê-lo de modo criativo, original e progressista, transformando a própria morte numa manifestação cultural, uma prerrogativa da espécie, algo tão corriqueiro como vestir-se desta ou daquela maneira, alimentar-se com um ou outro alimento, fumar ou não fumar, dar vida a um novo ser ou recusá-la com o recurso a métodos contraceptivos. De tal modo, anotou frei Gil, que "o tresloucado suicida (ou não) nega não só cabimento à penalização legal que a lei impõe ao que se mata - castigo que só se aplica, paradoxalmente, ao que falha e que jamais será cumprido por aquele que efectivamente leve avante a sua intenção -, como ainda rediculariza com algum escândalo uma das mais bem intencionadas ordens da religião católica, segundo a qual só Deus tem o poder de conceder a vida e de atribuir a morte. O suicida não se limita, portanto, a morrer - atreve-se a zombar de Deus".
Graves pensamentos ocorriam, portanto a frei Gil enquanto se entretinha na demorada (e algo penosa) tarefa de ponderar as inúmeras formas de morte por opção que o homem foi capaz de inventar para roubar ao acaso ou à doença o privilégio de impor o último suspiro a uma vida. É trabalho incómodo, já se vê, capaz de fazer estremecer os fundamentos em que assenta a vida de um homem de Deus, mas frei Gil necessita que este levantamento seja feito, e com urgência, pois disto depende o sucesso da tarefa a que entusiasticamente se entregou, largando a batina com o intuito de tentar salvar as carcaças humanas, depois de, sem grande sucesso, suspeita, se ter esforçado na cantilena que devia conduzir ao resgate das almas respectivas. Em poucos meses de trabalho, o ex-padre ficara na posse de todas as estatísticas relativas ao assunto: a evolução anual do número de mortes por suicídio, os períodos de maior concentração de ocorrências, a sua distribuição geográfica e a incidência por idades e sexo, concluindo ainda que as causas que conduzem o suicida à fatal decisão podem resumir-se a três grandes classes: patológica, sentimental e financeira. Deste modo, igualmente ocorreu a frei Gil que aquele que traz em vista pôr precipitadamente fim à vida pode ser tratado de acordo com a natureza da sua decisão, providenciando assistência médica a uns, conselhos sentimentais a outros e emprego e dinheiro aos demais. E, com isto, atirou-se à tarefa de salvar vidas, procurando nas ruas de cidades e vilas sinais que, nos olhos dos passantes ou na sua forma de caminhar, pudessem indicar que aquele homem ou esta mulher estão necessitados de ajuda urgente. Depressa se apercebeu, porém, da existência de uma quarta categoria da doença, provocada por uma espécie de aborrecimento absoluto e falta de perspectivas existenciais, sendo esta a de mais difícil tratamento - simplesmente porque, escreveu frei Gil no seu caderninho de anotações, "os padecentes desta variante não reconhecem sequer a pulsão que os atormenta, nem exibem sinais de alarme significativos, mortificando-se antes com bebedeiras e drogas, matando-se lenta mas seguramente; às vezes, sucede que, sem aviso prévio, decidem apressar o sim e se matam".

(Manuel Jorge Marmelo- "Clube da boa morte", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em abril 26, 2005 07:00 AM
Comentários

Eu paseio ,e depois vi o teu blog,e tantos sonhos que me vieram em memoria,tantas desiluçôes,tantas tristêsas,mas pourtanto tinha tudo salvo o amor, tinha sido escolhido como prêsa por pagar o que qualquér d'um d'outro tinha feito de mal.Ainda hoje pago porque um inocente apareceu,onde eu numca pensei.QUARENTA DOIS ANOS,a divida é enorme,extremamente pesada..mesmo o suicido:quando abres os olhos e vês que ainda és vivante.Terrevil podes crêr,principalmente quando é um agente da policia que te diz...vôçê queria se suicidar.

Afixado por: manuel em abril 26, 2005 06:52 PM

Um assunto demasiado real, que agora não consigo comentar :(
Só sei que uma pessoa em desespero é capaz de tudo. Consciente ou inconscientemente.
Bj

Afixado por: whitesatin em abril 26, 2005 09:39 PM

A verdade é que os de nós que não são suicidas nem sofrem de abirrecimento absoluto são de uma estupidez que admiro.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:47 AM

A verdade é que os de nós que não são suicidas nem sofrem de aborrecimento absoluto são de uma estupidez que admiro.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:47 AM

A verdade é que os de nós que não são suicidas nem sofrem de aborrecimento absoluto são de uma estupidez que admiro.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:47 AM

A verdade é que os de nós que não são suicidas nem sofrem de aborrecimento absoluto são de uma estupidez que admiro.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:47 AM

A verdade é que os de nós que não são suicidas nem sofrem de aborrecimento absoluto são de uma estupidez que admiro.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:47 AM

Desculpa, primeiro não tava a conseguir comentar, dp entupi-te a caixa de comentários sem querer.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 27, 2005 11:49 AM