abril 25, 2005

O MISTÉRIO DA SENHORA X

Edito hoje o primeiro de um total de três contos da autoria de Manuel Jorge Marmelo, a serem apresentados aqui no Abismo, ao longo desta semana.
Cada conto, aliás, com uma mensagem relevante inerente que objectivo seja por vós entendida e suficientemente estimulante para deixarem registada opinião. Seja como for, e mesmo que isso não aconteça, o principal é que os contos surjam aqui, que vocês os leiam e os compreendam/assimilem ao nível do mais explícito mas também ao nível de tudo aquilo que de implícito tiverem.
Relativamente ao escritor: nasceu em 1971 na cidade do Porto e é jornalista desde 1989. O seu primeiro livro publicado data de 1996, inaugurando a colecção "Campo de Estreia", da editora Campo das Letras. Desde essa data tem publicado textos e contos em diversas publicações e antologias quer em Portugal, quer no Brasil, quer em França.
Mas... passemos ao conto.

Josefina Aparicio Iglesias não era uma mulher particularmente bonita ou elegante - as fotografias mostram-na rechonchuda e com um rosto banal - , mas logrou, apesar da ausência de encantos visíveis, transformar-se na obsessão de dois homens: o seu marido e Eric Kessels, um publicitário holandês que dedicou três anos da sua vida a encontrar-lhe o rastro. Descobriu-o, afinal, em Barcelona, a mesma cidade onde comprou seiscentos diapositivos criteriosamente catalogados, com a data e o local, mostrando o rosto dela. Sempre o rosto dela, anafado e quase inexpressivo, posando como uma má actriz diante de montanhas e igrejas góticas, paisagens primaveris e suaves curvas de rios calmos. Foi também em Barcelona que Eric Kessels soube que Josefina está morta, irremediavelmente morta, e que, por isso, jamais conseguirá conhecê-la, saber quem foi e porque é o único motivo humano entre as inúmeras fotografias de que se achou proprietário.
Para que se desenganem aqueles que esperam ler a seguir uma história de contornos ao gosto do romance negro, diga-se já que esta é uma história povoada apenas por sentimentos nobres e corteses e outras banalidades fora de uso. Começou quando Kessels comprou, há três anos atrás, uma colecção de diapositivos numa feira catalã de artigos em segunda mão. Ali estavam quase seiscentas imagens, nas quais se repetia a aparição de uma mulher anónima, posando de fato de banho em Camp de Mar, na neve de Andorra ou enquadrada pelos picos rochosos de Monserrat - mas sempre em Espanha. A partir desse dia, o publicitário não mais descansou, perseverando quase desatinado na demanda daquela mulher misteriosa - a "senhora X", como passou a ser chamada assim que os jornais descobriram a fantasiosa história do holandês que corria Barcelona de uma ponta à outra perguntando a quem passasse se, por acaso, identificava a mulher das fotografias.

Como que tomado por uma febre benévola, que lhe estampava na cara um sorriso idiota, porém satisfeito, Kessels visitou no último Verão todos os locais mostrados pelas fotografias e, em Fevereiro, expôs parte das imagens numa galeria de Barcelona, lançando simultaneamente um livro dedicado a esta busca. Chamou a ambos "In Almost Every Picture" (literalmente "em quase todas as fotografias") e ficou à espera que a mulher aparecesse até ao último dia da mostra. Queria simplesmente conhecê-la e devolver-lhe os "slides".
- Pensei muito nesta mulher e em quanto o marido devia adorá-la para lhe ter tirado todas estas fotografias. Não tinham filhos, pois passam os anos e eles continuam a viajar sozinhos, aparecendo apenas ela nas imagens. Creio que a história deles deve ter sido muito triste - , disse Kessels ao diário espanhol "El País", no dia da inauguração da exposição. Mas a história pode ter sido igualmente feliz, apaixonada, intensa - a história de duas pessoas que se amaram sempre, até ao fim, sem necessitarem que um filho comum viesse confirmar aquilo que já sabiam: que eram um do outro até que a morte os separasse.
O holandês estava, porém, longe de imaginar até que ponto se achavam acertadas as conjecturas que elaborou a partir das imagens. Graças a uma reportagem exibida num canal catalão de televisão, Christina Julonch soube da demanda de Kessels e reconheceu a mulher das fotografias.
Era, afinal, uma antiga colega de trabalho da sua mãe, Carmen Lleal, de 82 anos, ex-funcionária, como Josefina, da Companhia Telefónica. Esta pôs-se em contacto com antigas colegas que também se recordavam de Josefina, foram todos ver a exposição e assim se soube que a "senhora X" nasceu em 1925, tendo falecido de cancro, como o marido, um médico com casa na Costa Brava. Não tinham, de facto, filhos e o único irmão de Josefina está também morto, igualmente vitimado pelo cancro.

Desfeito o mistério, uma agência de publicidade de Barcelona que colaborou no projecto de Kessels está agora a efectuar uma investigação aprofundada sobre as origens de Josefina. Afinal, o sonho do holandês continua por concretizar: não conheceu a "senhora X" e não encontrou ainda nenhum familiar que possa receber os "slides". A menos que se aceite que a busca de algo seja um fim em si mesmo, a obsessão que norteou os últimos anos do publicitário terá chegado ao fim sem que dela se extraia qualquer sentido, nenhuma utilidade. É apenas uma história triste, amoral e sem um final feliz. Ou sem final nenhum.


(Manuel Jorge Marmelo- "O mistério da senhora X", in O SILÊNCIO DE UM HOMEM SÓ. Edição: Campo das Letras, 2004. Fotografias de Urs Kahler)

Publicado por void em abril 25, 2005 08:26 AM
Comentários

{ … hoje só te deixo uma flor [um cravo] [] porque a[ti];a[qui] me cravo [sinto] © in[culto] … }

Afixado por: in[culto] em abril 25, 2005 03:12 PM

Pois para mim é das histórias mais lindas que podias ter publicado aqui. Um excelente exemplo do Amor incondicional e intemporal, no seu mais simples sentido de perfeição. Adorei ;) Um beijo grande

Afixado por: whitesatin em abril 25, 2005 03:58 PM

Um belo exemplo de complementariedade. Tal como as palavras rimam com as imagens que aqui colocaste.

Temos dito

Mercador e Grizo

Afixado por: Alfinete de peito em abril 25, 2005 04:28 PM

in[culto]: lindo, especial e diferente, como sempre :)
Retribuo-te um outro cravo neste dia que tanta importância teve para Portugal há 31 anos atrás e que hoje, com aplicações renovadas, continua a ter.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 25, 2005 05:23 PM

Whitesatin:
os textos tornam-se mais bonitos, ou ainda mais bonitos ou mais significativos se por nós forem particularmente sentidos, chegando-nos ou tocando-nos de alguma forma especial. Vejo que isso aconteceu. Só posso ficar feliz.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em abril 25, 2005 05:25 PM

Mercador e Grizo:
obrigada pelas palavras. Volta sempre!

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 25, 2005 05:26 PM

Excelentes escolhas, Sandra. E como sempre, extrema sensibilidade ao conjugar texto e imagem.

Beijo

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 25, 2005 06:02 PM

Ó pra eu toda vaidosa, Andreia ;)

Bigada pelas palavras e pelo estímulo que elas me dão.

Afixado por: Sandra em abril 25, 2005 06:46 PM

Conto interessante, de leitura agradável e corrida, com um enredo .. nem sei como o classificar! "Estranho", "inédito", "original", "desconcertante" ??? Gostei, de qualquer modo!

Nota: gostei da mensagem que deixaste lá no Shrine. Obrigada e um beijo.

Afixado por: Pink em abril 25, 2005 10:38 PM

olá, encontrei o teu blog por acaso e queria dizer-te que adorei,mesmo.
deixo-te 31 cravos,tantos quanto vale a liberdade.
prometo voltar.
riquita

Afixado por: riquita em abril 26, 2005 12:16 AM

Pink: eventualmente o conto será um pouco de tudo isso, não?
Quanto ao que comentei no teu cantinho: foi, inequivocamente, o que o poema me suscitou.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 26, 2005 08:52 AM

riquita:
obrigada pela tua visita e, claro, pelos cravos.
Volta sempre!

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em abril 26, 2005 08:53 AM