Na minha primeira re-edição de hoje deixo-vos Inês Pedrosa com a obra "Fazes-me falta". Quanto ao excerto: mais um pretexto para pensarmos sobre nós, naquela que é a relação entre a existência e a tranquilidade que em si se pode genuinamente viver, ou... nem tanto. Proposta em termos de fotografia: uma possibilidade com um grande potencial para ser absolutamente alterada. Alterada em função daquilo que cada um julgar ou sentir como mais apropriado ou como mais consentâneo com esta ou aquela realidade existencial. E aqui os cenários podem ser muitos, também, em função de passados, presentes e futuros. Ou então, em função de uma simples opção estética.
Só vivendo sobre a mudança se podia evitar a dor, só contornando a monstruosa perfeição do tempo se podia vencê-lo. Assim pensava, e enganei-me, porque o tempo não é pensável. Concentrei-me em deixar de ser para poder ser tudo, em esquecer para dominar a existência. Eu sou o tempo; sou nada, o nada veloz e imóvel que molda o corpo do tempo. Deixar de ser é ainda acatar as regras implacáveis do ser. Estou esgotado do correr contra a dor, contra a memória, contra a infância, contra o amor e o ódio. Criei uma meta de tranquilidade que se afasta tanto mais quanto mais corro para ele. Não há paz no instante, e eu vivo de instante para instante. Começo a temer que a paz se alimente do sangue da paixão de que abjurei.
(Inês Pedrosa- FAZES-ME FALTA. Fotografias de Philippe Pache)
Publicado por void em abril 23, 2005 07:45 AMFiquei impressionada com esta narração, na fifura da morta. Impressionou-me muito este livro.
Abraço ;-)
Afixado por: Menina_marota em abril 23, 2005 10:31 PM