E nesta sexta-feira três poemas de Daniel Faria (1971-1999). Um poeta cuja morte antecipou, em muito, a continuação da sua capacidade criativa. Uma capacidade criativa que, contudo, pode ser mais do que provada a partir da/com a obra deixada. E o que ficou é por demais significativo para não ser divulgado, para não ser feito sentir, para não ser feito pensar, para não ser feito usufruir, naquele que é o resultado da produção poética. Para que isto aconteça vou, mais uma vez aqui no Abismo, deixar uns poemas. Três exemplares do muito que nos pode chegar dentro.
ENTREI NA SOMBRA COMO ALGUÉM QUE VIA

Entrei na sombra como alguém que via
Entrei devagar no ritmo de um salmo
E havia luz
Era uma luz como uma árvore quando cresce
E estando em flor era um dia inteiro
Entrei com a sombra pela cintura como algo conquistado
Com o sangue a escorrer-me para os pés. Mas mesmo
Que não sangrasse eu entrava em triunfo
Inteiramente vencido.
Entrei para um laço sem saída porque era um nó aberto
E tinha os pés regados pelo sangue que dá vida
Tinha umas sandálias de sangue para caminhar livre
Entrei em morte sucessiva no que vive
Era a luz de uma árvore quando cresce
E se ensombra para não ficar sozinha
CONSERTO A PALAVRA COM TODOS OS SENTIDOS EM SILÊNCIO

Conserto a palavra com todos os sentidos em silêncio
Restauro-a
Dou-lhe um som para que ela fale por dentro
Ilumino-a
Ela é um candeeiro sobre a minha mesa
Reunida numa forma comparada à lâmpada
A um zumbido calado momentaneamente em exame
Ela não se come como as palavras inteiras
Mas devora-se a si mesma e restauro-a
A partir do vómito
Volto devagar a colocá-la na fome
Perco-a e recupero-a como o tempo da tristeza
Como um homem nadando para trás
E sou uma energia para ela
E ilumino-a
FALO DAQUILO QUE VEJO, EMBORA POSSAS PENSAR QUE SOU CEGO

Falo daquilo que vejo, embora possas pensar que sou cego
seguindo as mãos - sim, toco as palavras nas suas superfícies
e utensílios.
A primeira palavra que os olhos viram, agora que a recordo,
parecia uma imagem - sim, um som desenhado como um fóssil
(falo de fóssil, mesmo
que ele demore muito a aparecer no que digo),
um som do tamanho de um azulejo: agora que me lembro que era uma palavra
que brilhava nos meus olhos ao vê-la
(ver uma palavra era uma planta muito diferente,
um oxigénio muito difícil de se respirar).
Sim, agora vejo que falo, embora possas pensar que sigo pelo tacto a escrita.
Sim, eu leio e decifro. E agora sei que oiço as coisas devagar.
(Daniel Faria- POESIA. Edição: Quasi Edições, 2003. Fotografias de Naushér Banaji)
Belissimas imagens. Obrigada pelas palavras lá no Ofeliazinha.
Afixado por: Ofeliazinha em abril 22, 2005 10:57 AMimagens que a propósito, dizem muita coisa...espetacular, sem dúvida...
Afixado por: Lohlita em abril 22, 2005 11:45 AMBravo. Um acto muito louvável. São sem dúvida textos muito intensos, muito profundos. Valem a pena ser divulgados. Não conhecia o poeta, e gostei muito do que li. Beijinhos.
Afixado por: whitesatin em abril 22, 2005 08:21 PMOfeliazinha: sim, belas imagens. Quanto ao que comentei lá no teu canto: foi merecido, pelo trabalho que realizaste.
Beijokas e bom fim-de semana :)
Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 09:08 PMLohlita:
obrigada pela tua visita. Volta sempre.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 09:10 PMWhitesatin:
as tuas palavras são sempre especiais.
Beijo grande :)
Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 09:12 PMDaniel Faria, vulgo poeta de Baltar, Paredes, Norte, um diamante a explorar........ (Se é que é o mesmo)
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. Não serei hipócrita Sandra: na realidade, a sua curta obra e pensamento é-me banal. Mas isto é apenas a minha opinião.
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Bjo.
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