abril 21, 2005

INSTANTES DE POESIA: JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

Deixo-vos, aqui, três poemas de um autor que considero bastante: José Agostinho Baptista (n. 1948, Funchal). Um poeta que mexe muito com a minha sensibilidade pela forma como conjuga as palavras e os versos, naquela que é a construção total de cada poema. Um provável neo-romântico, num designar/identificar que o próprio questiona.


COMO PODERÁS ENTENDER?

lembro-me sobretudo desses dias.

depois do sol tu vinhas.

eram belas as túnicas de argel e as velhas botas espanholas
que te dera o último amante.

ele gritava
give me some truth give some truth
e tu rias rias como em noites de festas pagãs.

hoje
sentado neste bar quinhentista e fluvial de um país
sonâmbulo
vejo
os pequenos barcos do rio que se dirigem para oeste
enquanto os marinheiros do passado há muitas
horas bebem aguardente.

tu
perdida nas vertiginosas danças bárbaras como
antigamente
como poderás entender esses lugares de paixão
onde me sento e bebo
ouvindo as histórias da época prodigiosa?


DESTE LADO ONDE

outrora foi aqui uma casa,
neste lado onde, nos anos da destruição, as mulheres sós
cantaram com voz doce,
o pão das primaveres breves.

outrora aqui foi a casa e uma terra de paixão,
quando era a ceifa,
neste lado onde, num outubro de silêncio, regressámos
para morrer,
malditos e quase nus;

era um lugar de fascínio este, verde e terrível nos
invernos violentos,
quando os exércitos regressavam dos continentes
desolados, depois do extermínio.

quem canta agora, à volta da casa que havia,
quase na margem sem nome,
quem canta entre as árvores estéreis,
onde a vida se despede?

mais além começa a estrada,
a que se alonga através da poeira vermelha,
a estrada que vai para longe,
onde nunca chegaremos.

já partiram um dia as embarcações guerreiras, as mulheres do trigo em
setembro
os viajantes enlouquecidos.

há muito que o vento deixou de varrer a encosta,
inclinando as vinhas, as urzes, os frutos e a solidão do
caminhante do meio-dia;

era então o vento seco, nem sempre frio, o vento estrangeiro
que não vinha do norte, mas do sul,
algures na planície antiga.

outrora aqui foi a casa, o vale sereno de antes da destruição,
quando todos partiram para as incendiadas terras do mundo
enquanto, deste lado, numa estação de silêncio, os homens
que fomos,
vencidos e calmos,
regressamos para morrer.


E AS CASAS SÃO BRANCAS LOUCAMENTE BRANCAS

lembro-me das horas sobre o mar
do surdo rumor do casco dos navios
da tua boca colada à paixão dos mapas primitivos.

entretanto o teu corpo corre devagar para o litoral
e as casas por detrás dos cabelos são brancas
loucamente brancas.

no princípio eram as paredes
e havia o teu riso altíssimo encostado aos dias que
morriam nas paredes.

quem destruiu tudo isso?
quem matou as aves nos ramos da tua loucura?

oiço este rio que corre longe de mim longe de tudo
este corcel galopando pelos países -

quem canta esta noite?

entretanto tu atravessas a minha poesia com espadas de
neve
e falas de casas como quem fala do surdo rumor do casco
dos navios -

quem canta esta noite?

e o teu corpo vai correndo devagar para o litoral
e as casas por detrás dos teus cabelos são brancas
loucamente brancas.


(José Agostinho Baptista- BIOGRAFIA. Edição: Assírio & Alvim, 2000. Os poemas editados foram extraídos do livro "Deste lado onde", um daqueles que compõe a obra referenciada. Fotografias de José Marafona)

Publicado por void em abril 21, 2005 07:07 AM
Comentários

Não conhecia esta poesia e gostei. Assim como dos Pais dos outros. Assim que puder compro :)

Afixado por: Betty em abril 21, 2005 12:08 PM

Um poeta que te recomendo e uma obra muito boa.
Obrigada pela tua visita, Betty.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 21, 2005 12:52 PM

Grato pela partilha. Já tinha ouvido falar do poeta, mas nunca tinha lido nada de sua autoria. Despertou vontade de ler mais e em papel.
Beijinhos
*A

Afixado por: Alexandre em abril 21, 2005 09:29 PM

Não tens que agradecer, Alexandre. O que aqui está (e tudo o que edito) é muitíssimo o resultado das espontaneidades do meu sentir, isto obviamente, sem esquecer as fotos. E por o ser, espero que tu e todos os outros apreciadores aqui do Abismo, consigam captar a força que procuro passar (energeticamente falando).
O poeta é muito bom. A sua obra é "deliciosa". Lida, em papel, então, ainda melhor. Sabes porquê? Pelo cheirinho que dele imana. Eheheh...

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em abril 21, 2005 10:15 PM

Engraçado, ao ler os textos, veio-me à lembrança a minha infância passada no campo. Aquela época em que me misturava com a natureza de uma forma tão inocente e alegre, em que plantava árvores em tudo o que era caminho não explorado no meio da serra. Obrigada por mais esta partilha. Bjinhos

Afixado por: whitesatin em abril 21, 2005 11:00 PM

{ ... !!!!!!! em [sombra de] duvida, e já te tinha dito antes, este espaço é do melhor que tenho visto [ :: bravo! – por todo este teu trabalho de investigação e promoção :: cultura :: ] !!!!!!! © exactu ... }{ beijos* }

Afixado por: exactu em abril 22, 2005 12:00 AM

{ ... !!!!!!! SEM [sombra(s) de] duvida !!!!!!! ... }

Afixado por: exactu em abril 22, 2005 12:02 AM

espontâneo, espontaneidade

Afixado por: ... em abril 22, 2005 12:27 AM

... (@aeiou)
thanks pela chamada de atenção. Já corrigi. Eheheh... de facto, ontem já não estava a dar "duas para a caixa". Enfim, coisas que acontecem. Fiquei a saber, contudo, que tu estás atento ;)

Volta mais vezes.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 06:53 AM

Sem dúvida, whitesatin, que a poesia de José Agostinho Baptista permite muito isso: o avivar das nossas memórias em direcção às raízes mais profundas de nós. Existem poemas que, nessa vertente, são um marco, em particular aqueles que o poeta direcciona os seus versos (e os seus sentimentos) para as suas origens: a Madeira.

Beijo grande :))))))

Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 06:57 AM

exactu:
sempre igual a ti próprio, que é como quem diz, sempre igual ao Ricardo. Eheheh... É pá. obrigada pela força do elogio e pela ausência de dúvidas.

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em abril 22, 2005 06:59 AM