abril 20, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (5)

O PAI DO NICOLA

(...)

Trinta anos mais tarde, disse um dia Nicola a seu filho Sérgio, a quem chamavam Simba pela sua beleza leonina:
"Simba, desobedeceste ao pai e o que é pior, puseste em perigo a vida do teu primo que ainda não fez cinco anos."
"Papá, a cancela estava aberta e a bola foi parar ao outro lado da rua, eu estava lançado na corrida e nem sei porque gritei corre! e ele veio atrás de mim, e aquele corre! estava a dizê-lo para mim mesmo, não queria que ele viesse atrás de mim, nem sequer dei por isso. Só o vi quando cheguei ao outro lado da rua."
"Podiam ser atropelados. Desiludiste-me muito, Simba."
"Papá, eu estava a correr, tinha que ganhar o jogo, queria agarrar a bola e marcar o golo da vitória. Nem sequer pensei na rua, queria apenas ser corajoso, como tu."
"Mas eu sou corajoso apenas quando o é necessário ser."
"Mas tu nunca tens medo, não é verdade, papá?"
"Medo eu tenho, como todos os mortais, e a verdade falando, hoje um medo ingente eu concebi."
"Tiveste? E tiveste medo de quê?
"Um medo horrível de para sempre te perder."
"Oh, papá querido, deixa-me abraçar-te. E agora que estamos abraçados, diz-me uma coisa. Porque é que te puseste a falar de uma forma tão estranha?"
"Porque esta é a linguagem da justitia, que deve ser antiquada e farfalhuda, e ao mesmo tempo seriíssima, autoritária, nunca modernizada e muito próxima de como se falava nos tempos antigos."
"O quê?"
"Não tenhas medo, meu pequenino, porque a minha justiça é a justitia daqueles que nunca batem nos filhos e apenas falam, e falam amorosamente, e só amam para se fazerem amar, e exigem respeito para darem respeito e tudo fazem por desejo de harmonia e ternura. Pensa bem em tudo o que te disse e tem sempre confiança em mim e nunca tenhas medo de mim, porque ter medo do próprio pai é uma coisa muito triste e não há motivos para isso. E agora, vai, meu filho, volta às tuas brincadeiras e à tua despreocupação."
"Amigos para sempre, não é, papá?"
"Amigos para sempre."
"E estaremos sempre juntos?"
"Simba, deixa que te diga uma coisa que um dia, quando tinha a tua idade, ouvi dizer enquanto jogava ao berlinde, sozinho, junto de um banco da Piazza Napoli. Um pai bondoso falava carinhosamente ao filho numa bela tarde de fim de Verão e eu, para suavizar a minha melancolia, pus-me a ouvi-lo como que encantado. Deixa que te repita as suas palavras: Simba, olha para as estrelas, os pais bondosos do passado olham-nos lá de cima para nos proteger, porque os seus filhos nunca se esquecerão deles e nunca deixarão de os amar. E assim, quando um dia te sentires sozinho, olha para as estrelas e podes ter a certeza de que também eu ali estarei."


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


E é com o olhar nas estrelas que me despeço na companhia desta obra. Despeço-me com um cenário de esperança, com um cenário de possibilidade da mudança e com um cenário de inequívoco Amor. Espero que os excertos editados tenham despertado o vosso interesse e vos tenham sensibilizado ainda mais para a(s) problemática(s) em questão. Mais uma vez: leiam o livro na íntegra. Vale muito, muito, muito a pena. Um grande abraço para todos :)

Publicado por void em abril 20, 2005 07:23 AM
Comentários

Esperança, sim, sempre :)
Bjinho

Afixado por: whitesatin em abril 20, 2005 01:17 PM

Não tenhas a menor dúvida. Uma vida sem ela é muito escura e não é, absolutamente isso, que deve existir/prevalecer. Uma vida sem esperança entristece-nos e estagna-nos.
Para todas as crianças: que lhes seja possibilitada a felicidade, naquela que é a vivência plena da sua idade e que lhes sejam garantidos todos, mas todos os seus direitos. Sabendo nós que isso não se cumpre numa percentagem demasiado elevada, não fechemos os olhos nem deixemos de acreditar que é possível, começando nós próprios por contribuir para isso, sempre que (nos) for possível.
Crianças saudáveis e felizes são os homens e as mulheres diferentes do amanhã.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em abril 20, 2005 01:36 PM

Sandra, nem de propósito, o Dn de hoje tem uma entrevista com a autora do livro. Deixo-te o link: http://dn.sapo.pt/2005/04/20/artes/na_literatura_o_e_sempre_menor_na_vi.html

beijinho*

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 20, 2005 11:51 PM

Os pais dos outros
esperança

fantástica a tua selecção de excertos.
efectivamente não há, nem pode haver luz sem esperança e cabe a cada um de nós mostrar um pouquinho dessa luz aos olhos de uma criança, é um dos meus objectivos de vida, fazer uma criança feliz, ainda que por momentos, oferecer-lhe um sorriso.

Beijinhos

Afixado por: Noguinhas em abril 21, 2005 12:19 AM

Andreia, agradeço-te imenso. Vou ler a entrevista com muita atenção.

Beijo :)

Afixado por: Sandra em abril 21, 2005 07:25 AM

Neste caso, Noguinhas: tendo como ponto de partida os excertos, façamos da esperança, também, uma "condição" para a vida de cada um de nós. É que, se por exemplo, assim for, será muito mais fácil as crianças receberem algo de positivo da nossa parte. E mais: com tempo e com um sentir imenso.

Jokas :)

Afixado por: Sandra em abril 21, 2005 07:27 AM