
O PAI DA FRANCESCA
O pai da Francesca desde rapaz que era um brutamontes, daqueles que vieram ao mundo só para deitar tudo abaixo.
Se tivesses passado por tudo o que eu passei, disse-me Francesca, um dia em que passeávamos à beira do rio, compreenderias por que motivo vivo sozinha. Ao vê-lo agora parece normal, e mais, agora que está velho quase provoca ternura, e é isso que revolta, não te parece? Ai está uma vantagem reservada apenas aos homens, quando envelhecem toda a gente diz, coitadinho, voltou a ser uma criança. Nunca se ouve dizer uma coisa assim para uma mulher, pelo contrário.
(...)
Sete anos feitos havia três dias, após umas febres que duraram duas semanas. Levanto-me da cama três centímetros mais alta, quase nem consigo aguentar-me em pé. Caminho ao longo do corredor com a boneca nova nos braços, cambaleando devido à fraqueza, e a boneca cai-me dos braços e fico imobilizada a olhar para ela, não sei o que me passou pela cabeça, não me recordo. Ele sai da casa de banho e encontra-me ali, especada, diz, Apanha-a. Mas eu era como se não ouvisse nada, continuo nos meus pensamentos sem recordação, e como não faço o que ele manda, dá-me um murro e caio ao chão, sentindo o calor do sangue que me escorre do nariz. O medo dentro de uma casa faz coisas estranhas, minha mãe nem sequer chamou o médico, percebes? Lava-a com água fria e mete-a na cama. Uma criança de sete anos com um murro daqueles pode até morrer.
E depois, bruscamente, ficava alegre, mudava de humor como a cobra muda de pele.
(...)
Não, não te dou tempo de dizeres nada, vou contar-te outra. Escolho uma do baralho, ao acaso. Doze anos, atraso-me um pouco em frente da escola com uma amiga. Ele sabia de cor o meu horário, o senhor arquitecto, quase engenheiro, tinha uma cabeça extraordinária para tudo o que fossem números. Vê-me na rua quando voltava para casa de automóvel, e grita-me, Com que então, já temos aqui uma putazinha? Guina o volante e sobe o passeio, como num filme americano e... começa a perseguir-me, estás a ver, persegue-me como se quisesse atropelar-me. A minha salvação foi enfiar por um portão, subo umas escadas. Ele sai do carro, vem atrás de mim. Não sei quantos andares, não os contei, sei que a dado momento sinto-me encurralada e começo a gritar. Uma mulher abre uma porta, parecia mesmo a rapariguinha perseguida pelo louco criminoso. Sou o pai dela, grita ele, é minha filha. Que devia eu dizer? Disse:- Mentira, nunca vi este homem na minha vida. A mulher deixa-me entrar, como se faz com os gatos, abrindo apenas uma nesga da porta. Assim que fechou a porta, declaro, Sim era meu pai, mas não é normal, não é bom da cabeça, as aranhas e os vermes comeram-lhe os miolos durante a noite. Então, a mulher disse, Se é mesmo teu pai, não me quero intrometer. E da mesma maneira que me tinha deixado entrar obrigou-me a sair, e eu desci as escadas devagarinho, cada degrau um perigo vencido, já imaginava vê-lo saltar das paredes, sob a forma de uma larva, de um insecto gigantesco que me ia engolir. Mas não aconteceu nada, cheguei à escuridão do vestíbulo, que estava em paz, só se ouvia o ruído da rua.
(...)
Voltei a casa, onde o encontrei sentado à mesa, a comer. Não se passou nada até à sobremesa, até ao descascar mecânico de uma laranja, como se fosse uma maçã, (...), até chegar ao âmago, até que o fruto pingava o sumo louro. Assim que acabou de comer, a laranja explodiu, transformou-se em polvo com mil tentáculos, e cada tentáculo uma boca, e cada boca me sugava o sangue e deu-me tanta pancada que eu, libertando um braço, abri a janela e comecei a gritar (...).
(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)
Horrível. Terrível. Como é possível sobreviver em constante terror? Este texto doeu-me.
Afixado por: whitesatin em abril 20, 2005 12:22 AM