abril 19, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (3)

O PAI DO GUALTIERO

O pai do Gualtiero era um indivíduo maldoso e rude. Chamava ao filho Diamantino, mas queria dizer dementino e, como o significado das palavras reside sempre na entoação, o truque servia apenas para se defender, porque o destinatário sempre o entendeu como ele o entendia. Por necessidade, o pequeno costumava chamar-lhe padre caro sabendo bem não poder acabar a frase, mas reservando-se o prazer de a terminar em pensamento acrescentando ao afectuoso adjectivo a terminação gna*.
Dementino e pai carogna eram verdadeiros inimigos, que se dedicavam um ódio eterno, e aquele ódio, como qualquer outro ódio da vida, teve o seu início numa data precisa e, para sermos absolutamente exactos, numa hora exacta.
Na noite de 28 de Maio de 1959, o pai de Gualtiero regressou de uma longa viagem, deviam ser duas ou talvez duas horas e meia da manhã, e como no dia seguinte tinha de voltar a partir para outra viagem ao fim do mundo, em vez de ir dormir deu-lhe na veneta de se pôr à procura de um certo par de sapatos que lhe seriam úteis no sítio para onde ia.
Havia já uma hora que andava à procura, quando a mulher disse, Deve ter sido o Gualtierozinho. Sabes, desde há algum tempo deve sentir muito a tua falta e como compensação enfia os pezinhos nos teus sapatorros e anda com eles pela casa fora, todo contente a fingir que és tu.
O pai grunhiu de fúria. Quer dizer, eu para ele sou objecto de escárnio. Sente a minha falta, uma ova! O que ele tem é falta de autoridade paterna.
E às três e um quarto um ponto irrompe pelo quarto do filho, que tinha acabado de fazer havia pouco os quatro anos, arranca-o do sono pelos pés e começa a fazê-lo voltear no ar, de tal maneira que a criança acordou sentindo o impacto do vento que as voltas produziam e o coração saltando-lhe pela boca. Se não morreu com a cabeça esfacelada contra qualquer aresta da mobília, foi talvez graças a algum santo que não o permitiu. Mas, se quisermos ter pena dos seus sofrimentos temos de dizer que teria sido melhor para ele ter morrido sem saber como na escuridão daquela noite levado por aquele vórtice desconhecido, porque ficando vivo acabou por perceber a razão e durante oito dias ficou de cama, com uma febre altíssima provocada pelo terror e por convulsões que fizeram dele uma coisa desgraçada e tremente.
Quando readquiriu o uso da fala, disse, Ele queria-me matar. E de nada valeram as palavras da mãe, que tentava explicar, Isso não é verdade, ele gosta de ti, sabes como ele é, é muito nervoso, farta-se de trabalhar e nunca descansa. Mas foram palavras lançadas ao vento e o vento levou-as consigo.
A partir daquele dia foi o terror, bastava ouvir o ruído das chaves da fechadura, o bater das portas do elevador e Gualtiero corria pelo corredor fora e ia fechar-se no seu quartinho. Sai, que é a tia Patrícia, gritava-lhe de longe a voz da mãe, e então Gualtiero punha de fora primeiro a cabeça de passarinho e depois as perninhas com os joelhos ainda a tremer. Mas outras vezes bem podia esperar, que a voz tranquilizadora não chegava da entrada, e Gualtiero começava a balbuciar em pensamento, dirigia-se aos seres espaciais de que tanto se falava, suplicava que o raptassem, de tal maneira que mais tarde quando já era um rapazinho a sua canção preferida era E.T, leva-me contigo.

* (pai asqueroso)

(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de William Ropp)

Publicado por void em abril 19, 2005 06:40 AM
Comentários

Em uma palavra: excelente. Em outra: felicitações. Abraços...

Afixado por: Antonio Carlos em abril 19, 2005 12:25 PM

Sandra já perdi a conta das vezes que tentei comentar e não consigo aceder ao sistema :(
Ontem estive por aqui a ler mais de 1h. Como sempre as tuas escolhas são fantásticas. Gostei imenso da Boda Mexicana, ainda não li. Dorian Gray, claro uma das obras de Oscar Wilde preferidas. Tens que ver se arranjar um 2 sistema de comentários. Beijinho grandeee

Afixado por: micas em abril 19, 2005 08:46 PM

António Carlos:

muito obrigada. As tuas palavras são extremamente estimulantes. Volta sempre!

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 19, 2005 09:27 PM

Micas:

quanto aos comentários- eu sei, tb tenho tido essas dificuldades, ao nível das respostas. Mas isto passa.
Quanto ao resto: bigadas pela dedicação ;)
Relativamente a "A Boda Mexicana", é uma obra muito boa. Nos comentários que deixei e nos posts isso ficou bem claro. Quanto à qualidade de Oscar Wilde: deveras, deveras :)

Beijokas muito grandes para ti também :)

Afixado por: Sandra em abril 19, 2005 09:30 PM