abril 18, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (2)

O PAI DO SANDRO

O pai do Sandro disse, Temos de olhar de frente para a realidade, o rapazinho não é inteligente. Pusemos no mundo um filho estúpido. Não consigo mesmo perceber como foi que isso aconteceu, mas é assim mesmo. Assim dizendo, caminhava a passos lentos no seu escritório, aflorando com a ponta dos dedos os belos livros da sua biblioteca, parando entre uma lombada e outra para um pensamento mais ruminado. E a mulher não pensou sequer em contradizê-lo, porque, se ele o dizia, não podia deixar de ser verdade, e no fundo do coração quase assumia todas as culpas, porque as palavras são claras como uma conta de somar. Engoliu em seco um par de vezes e depois saiu da sala.
Sandro correu para a cozinha, para junto da avó, que estava a arranjar dois quilos de espinafres, debaixo de um esguincho de água fria. Aproximou-se dela, apoiando a cabeça no avental sobre a saliência de uma bela anca antiga. Avó, eu sou estúpido? Teve de fechar a torneira e mandou-lhe repetir a pergunta. Mas que raio de história vem a ser essa história? Quem é que te meteu isso na cabeça? Aqui ninguém é estúpido!
(...)
Ao menos, come! disse o pai. Pelo menos faz isso como uma pessoa normal. Ficas todo emporcalhado como quando eras bebé! E assim dizendo atirou-lhe o guardanapo à cara, mas a criança não o apanhou a tempo e deixou-o cair no prato. Mas que raio de história vem a ser esta história? disse a avó. Deixem a criança comer com os seus vagares, não se ponham a discutir sobre aquilo de que gosta e que lhe agrada. Come devagarinho, não faz mal nenhum. Fica todo lambuzado, disse o pai. Está a entornar a sopa toda. Em seguida levantou-se de chofre, apoiando os nós dos dedos na mesa com tanta força que as mãos ficaram brancas. Já perdi o apetite! disse irritado. E voltando-se para o filho disse, Vemo-nos de seguida, espero-te no escritório, tenho uma bela surpresa para ti.
(...)
Disse, Não notas nada? Claro, tu nunca notas nada, sempre distraído, sempre nas nuvens. Olha. Assim dizendo, alongou o braço esquerdo com o indicador apontado e com a mão direita agarrou-lhe a cabeça, como num torno. (...) E o pescoço girou, contraído, enquanto a força do empurrão o atirou para a frente, contra a parede.
Olha bem, disse ele. Mandei emoldurar esta maravilha de trabalho, a tua composição. Na tua idade, uma nota destas, quando todos os outros só têm dez e dez com louvor. Tu, a miséria de um suficiente. Outro dia, fui falar com a tua professora, disse-me que és lento, sem vontade, nunca prestas atenção, sempre pronto à conversa com os companheiros, e pior do que tudo disse que estás sempre, mas sempre, incontrolavelmente a rir. Chegou a altura de mudar as coisas. O teu trabalho emoldurado, e repara bem, não no teu quarto, mas no meu escritório, para teres a consciência de que eu estou sempre, mas sempre, a admirar a tua obra-prima. Que isto te sirva de contínua repreensão e de advertência. (...) Este trabalho será colocado noutro sítio no dia em que trouxeres outro melhor para tomar o lugar deste, e assim por diante, até ao dia em que haja um melhoramento de que duvido muito, mas em que tenho muita esperança. Pergunto o que terás tu herdado da minha inteligência. Nada.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Publicado por void em abril 18, 2005 08:18 PM
Comentários

A violência psicológica. Tantas vezes desconsiderada, e muito mais ignorada. E que, no entanto, pode ser tão ou mais traumática que a violência física. Destruir uma alma não será um crime tão hediondo como destruir um corpo?

Afixado por: whitesatin em abril 20, 2005 12:13 AM