abril 18, 2005

OS PAIS DOS OUTROS (1)

Até à próxima quarta-feira Romana Petri e o seu livro "Os pais dos outros" vão estar aqui, em destaque, com a apresentação de excertos de alguns dos 12 contos que compõem a obra. Contos que se debruçam sobre as relações entre pais e filhos, focalizando a violência das mesmas e as consequências que dai resultam para as famílias, em geral e para as crianças e jovens, em particular.
Uma obra que faz a dicotomia entre a cobardia, a violência, o desrespeito de uns e o sofrimento, o silêncio, os traumas, as angústias de outros sem, no entanto, fechar a porta que dá acesso à esperança para os descendentes dos filhos violentados nas vertentes física e psicológica.
Quanto à autora: Romana Petri nasceu e vive em Roma. É tradutora, crítica literária e escreve regularmente para os jornais "L'Unitá" e "Messaggero di Roma". Iniciou a sua carreira literária em 1990. "Os pais dos outros" acabou de chegar ao mercado nacional pela chancela da editora Cavalo de Ferro.
Inicio este conjunto de edições com a publicação integral do primeiro conto da obra. Porque é o seu arranque. Porque lhe dá um fio condutor. Porque...
Sublinho: as edições não dispensam, de todo, a leitura integral dos contos e do livro que integram. As razões são evidentes. A maior delas: por melhores que sejam as escolhas, não deixam de ser amputações e existem problemas/realidades do quotidiano cujo recuperar justifica, em pleno, conhecimento do que é o original. Neste caso e pelo que está em causa, isso é absolutamente fundamental.

O MEU PAI

O meu pai era grandioso, justo, e de uma corpuratura imensa. Um dia, uma mulher definiu-o um gigante eurítmico. Era bonito e corajoso como o herói de um romance de aventuras e a sua coragem era uma coragem verdadeira, a coragem de quem vence o medo pelo sentido de justiça e deseja endireitar o que de torto encontra na vida. Mas era também forte por natureza, cada murro seu era um atestado de óbito. Vi-o lutar contra sete e sair sem uma beliscadura.
Comigo foi de uma docura maternal, um pai-mãe que, por vezes, me parecia também um pouco meu filho. Era louro e tinha os olhos verdes, da mesma cor do lago Trasimeno nos dias de ligeira neblina. Era diferente de qualquer outro homem porque conhecia a profunda tristeza sem motivo, os longos suspiros melancólicos, a imprecisão de saber-se lá que destino.
Nas noites de Verão, gostava de olhar para as estrelas e de ouvir cantar os grilos e de imitar para mim, quando eu era menina, o seu lamento. As poucas vezes que me respondeu fê-lo apenas com a força das suas palavras. Pegava-me ao colo ou então sentava-me em cima de uma mesa e falava comigo com um tom de voz forte e persuasivo. Dizia-me coisas sensatas, às vezes também furibundas, porque aquela era a sua maneira de viver a vida: a sensatez dos males extremos e dos extremos remédios. Recordo-me de sempre o ter entendido muito bem e de ter sempre feito bom uso dos seus conselhos. Entendíamo-nos porque tínhamos o mesmo latejar da carne interior, a consciência recíproca de em alguma outra vida anterior ele ter estado no meu ventre e eu no dele. Éramos amigos e entre nós não havia segredos porque gostávamos de falar das súbitas alterações de humor, daquilo que pode deixar-nos tristes e logo a seguir alegres, da grandeza das inúmeras vozes que sentíamos dentro da alma. E assim, dizia-me, Podemos desejar ao mesmo tempo a morte e o renascimento. E eu respondia-lhe que tinha razão, que era assim a vida. Gostava de lhe beijar os olhos porque tinha as pálpebras mórbidas e sempre um pouco quentes. Em contrapartida, ele gostava de me ensinar algum golpe de luta livre dizendo que poderia vir a ter necessidade disso, um dia em que ele não estivesse presente para me defender; ou então, de me falar de Homero, porque gostava muito daquele verso que diz: "Os deuses tramam e executam a perdição dos mortais a fim de que as gerações que nascem tenham alguma coisa para cantar." E quando estava em paz consigo mesmo e não queria castigar o mundo, repetia sempre outro verso do mesmo poeta: "Ulisses trazia em si de todos os mortais o coração."
Era diferente de todos os outros homens porque conhecia a grande alegria, a súbita revolta do sofrimento, o optimismo despropositado. E então, enchia-se, todo ele era um projecto de futuro e fazia o verso longo e agudo do vento dos campos. Dizia, Sou um pedaço de terra, puro fermento. E eu pensava, Oxalá te nasçam flores no peito o mais tarde possível, meu adorado.
Este, porém, era o meu pai, não os pais dos outros.


(Romana Petri- OS PAIS DOS OUTROS. Edição: Cavalo de Ferro, 2005. Fotografia de Carlos Morales-Mengotti)


Para quem gosta, tenha interesse em estar presente e o acesso não seja difícil, registo que a obra, com a presença da autora, vai ser lançada Quarta-feira, às 18.30h, na livraria Italiana de Lisboa (Rua do Salitre, 166 B), o mesmo se verificando no dia seguinte, em horário idêntico, na FNAC-Colombo (também na capital), com igual participação da escritora.

Publicado por void em abril 18, 2005 06:39 AM
Comentários

O tema é bastanate interessante, até por que actualmente trabalho com esse publico alvo.

Afixado por: Lilia em abril 18, 2005 04:34 PM

O teu comentário não me admira, Lilia. De facto, a tua actividade presente permite-te viver muito de perto a realidade de crianças negligenciadas e mal tratadas de muitas formas. Mas esse teu interesse não é só derivado ao tempo presente, pois não?
Quanto ao tema em si: muitíssimo importante ter sempre presente. É uma realidade, no âmbito, da violência familiar, que não pode ser desconsiderada e a autora aborda-a de forma muito interessante com exemplos variados e ricos. Dai eu apelar para a leitura integral dos contos.
De registar sobre a problemática: jamais as portas para a recuperação dos envolvidos deve ser fechada. As crianças e os jovens têm o direito à dignidade e de ver os seus direitos respeitados. Têm o direito a uma vida feliz e a serem amados e devidamente integrados na sociedade. Quanto aos mais directos agressores, devem ser chamados à responsabilidade. E, note-se, nem tudo está confinado às classes sociais mais pobres. Há que ter uma perspectiva de actuação ampla e bastante alargada com as adaptações devidas às situações. E os intervenientes são/têm que ser vários.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em abril 18, 2005 07:25 PM

As nossas crianças são o nosso futuro. Um tema de extrema importância, que deve ser abordado sempre, sempre. Não nos cansemos de denunciar os crimes. É (mais uma) guerra interminável da qual não podemos fugir porque nos afecta directamente. A mim afecta muitíssimo, e tu sabes o quanto.
Parabéns pelo tema :)
Bjinhos

Afixado por: whitesatin em abril 18, 2005 08:59 PM

Whitesatin:
quero que saibas que a força deste teu comentário justifica, também, todo este trabalho em torno do tema que estou a fazer. E estimula-me ainda mais. A energia vinda desse lado aumenta, em mim, as forças para concretizar objectivos e aprofundar práticas em relação àqueles que são inequivocamente o futuro.
Este tema e os problemas envolvidos serão aprofundados. Isso é, desde já uma garantia. Porque é preciso. Porque é urgente.

Beijo grande :)

Afixado por: Sandra em abril 19, 2005 07:32 AM

Sou professora e fiquei muito interessada neste comentário; pois tudo que tu comenta eu vejo na prática pelos olhos dos alunos. Parabéns!
A partir daqui desenvolverei um projeto pedagógico a respeito da violência com meus alunos de 3ªsérie fundamental.
Beijos:-)

Afixado por: zanandria em maio 26, 2005 05:16 PM

Sou professora e fiquei muito interessada neste comentário; pois tudo que tu comenta eu vejo na prática pelos olhos dos alunos. Parabéns!
A partir daqui desenvolverei um projeto pedagógico a respeito da violência com meus alunos de 3ªsérie fundamental.
Beijos:-)

Afixado por: zanandria em maio 26, 2005 05:16 PM