abril 17, 2005

O QUE SENTIMOS COMO REALMENTE NOSSO?

Iniciada no dia de hoje a edição de textos da autoria do Luís Coutinho, responsável pelo blog "Escrevo enquanto chove lá fora", será uma garantia aqui no Abismo durante os próximos domingos. Textos de cariz muito intimista onde temáticas como o amor, o afastamento, o abandono, a saudade, as lembranças, os registos de vidas, têm um lugar de grande relevo e onde o autor procura imprimir a sua marca.
Quer eu quer o Luís contamos com a vossa presença ao longo destes domingos, por forma a que, em conjunto, entremos num universo onde o autor, nos bastidores da criação, inspirado por músicas e canções, vai dando largas ao que existe dentro de si, num exteriorizar de mensagens de fácil captação por todos nós, atendendo à normalidade do que está em causa e que serve de objecto para a produção textual.

O que sentimos como realmente nosso? O nosso nome? A comida do prato? A roupa que vestimos? Um carro? Uma casa?
Não será tudo isso apenas posse efémera consoante a importância que lhe atribuímos, que nos atribuí enquanto possuidores? Podemos possuir alguém? Podemos possuir as suas memórias, lembranças e sentimentos? Não sei, apenas sei que posso abraçar alguém que gosto se esse alguém fizer parte das minhas memórias.
Fui ver-te a casa, não estavas só mas tudo estava em silêncio, a multidão estava muda para sempre, e tu no meio de todos eles igualmente mudo e frio. A tua foto. Um sorriso perdido algures num dia que veio muito antes de ontem, um olhar esquecido entre tantos outros olhares igualmente esquecidos, igualmente mudos, igualmente frios. O vaso de flores artificiais sobre o mármore da tua lápide, cheia de folhas secas das árvores despidas que rodeiam a tua casa. Coloco o vaso direito, dou um jeito nas flores de plástico, foi a tia que as comprou no aniversário da tua morte, disse que eram muito mais práticas e sujavam menos, além disso duravam mais. Duravam mais, duravam o quanto podiam, submetidas ao sol, vento, chuva e tudo o mais, resistiam o quanto pudessem tal como tu resististe enquanto pudestes, enquanto quisestes...Quanto tempo passou? 12 anos? Não esqueço...
Quarta-Feira à tarde. Toque de saída, hora de almoço, fim de aulas, alguém, algumas palavras, o meu nome, o teu nome.... morreu.
Algo me perturba nesta tua casa, não me perturba o silêncio, não me perturba o cheiro das flores das outra campas a apodrecer, perturbam-me sim os olhares vazios das fotos, imersos em esquecimento e quietude, numa decomposição progressiva de matéria.
Casa, avó, mãe, ar pesado. Custa-me respirar, o carro do meu pai está à porta, não tinha ido ele trabalhar de madrugada?
- O que aconteceu ao avô? -um abraço, lágrimas-iamos vê-lo hoje ao hospital...
Sinto frio. A tua campa está fria, tu já não és. Como será a morte? Fria?
Nunca foste de muitas palavras, nem de muitos gestos de afecto. Tinhas uma forma peculiar de ser, imerso em ti mesmo, na tua rotina de tascas e amigos de copos, porém sempre foste a chave mestra da família.
O Natal. A mesa corrida, cheia de coisas boas. O cheiro dos assados, os pequenos petiscos, as filhozes, o manjar o arroz doçe, os meus tios, os meus primos, os meus pais, sorrisos pela noite fora, momentos felizes em calor das braseiras debaixo da mesa. Tudo me parece longe, tudo ficou longe, tudo se desvaneceu, quando te foste embora.
Quero lembrar-me, quero esquecer-me, esquecer-me da última vez que te vi, num quarto de paredes nuas, esquecido no meio de outros tantos, entre garrafas de oxigénio e balões de soro. O teu olhar pesado, como censurando os nossos olhares de preocupação. Estavas agressivo, como se os teus olhos nos falassem dizendo:
- Não tenham pena de mim porra!- não chegámos a despedir-nos.
As gasosas, e as mãos que me enchias de amendoins, a tua Vespa e nós dois à cata de figos em figueiras alheias, o teu canivete suíço que ainda hoje guardo na gaveta do meu quarto.
É estranho, lembrar-me de ti, e sentir como se estivesses aqui a meu lado enquanto escrevo, como se me tocasses no ombro e me fizesses recordar mais qualquer do nosso tempo juntos, como se ainda andasses por aqui com a tua boina e o teu passo mudo, que ninguém adivinhava.
Nunca falámos muito pois não? Eu era muito pequeno, tu falavas pouco, fazias das palavras tesouros preciosos que mal gastavas. Nunca dissémos o que pensávamos um ao outro, o que queriamos um do outro.
Chove agora, a tua campa fria em mármore branco lavada a gotas de água, lágrimas de um céu fechado, como foi sempre o eu silêncio. Sorrio enquanto tento encontrar os teus olhos vivos, que diziam as palavras que teimavas em esconder, que talvez fosse tua vontade dizê-las mas nunca soubeste como. Teimam os meus olhos em humedecer-se, foge-me uma lágrima mais teimosa que eu, não queria que me visses chorar...não queria chorar agora, não enquanto falo de ti, não enquanto me lembro de ti, não quero chorar-te.
Vejo o meu pai, os meus tios, a minha avó, todos em soluços e choros. O meu pai. Nunca te tinha visto chorar, nunca te tinha visto fraco, de olhos inchados a fumar compulsivamente, o teu pai a teu lado, frio, sem voz, mudo, quieto no momento e para sempre. Família e amigos, despedidas, lágrimas e tu já longe em qualquer parte que não ali, em qualquer canto que não aquele, em qualquer corpo que não aquele, frio e mudo, quieto....longe, onde?
A tua última casa. Será que é mesmo a tua última casa? Os meus tios e os meus pais abraçados,não vejo a minha avó... será que o que pomos nesta casa és tu? Não apenas um corpo que se irá decompor, apodrecer, misturar-se na terra e água, esquecer-se de si mesmo?....
Sei o que gostava de te ter dito na nossa despedida se ela tivesse existido, no entanto não to disse e guardo para mim como tu guardavas as tuas palavras como um bem tão precioso. Talvez to diga ainda se um dia nos encontrarmos por ai, quando nos cruzarmos onde quer que estejas, quando ambos formos memórias em alguém que gostou de nós e teima em não querer esquecer os nossos sorrisos.


(Luís Coutinho- ESCREVO ENQUANTO CHOVE LÁ FORA. Fotografia de Michael McCarthy)


Publicado por void em abril 17, 2005 08:42 AM
Comentários

Este texto fez-me lembrar de algo que escrevi há uns tempos atrás:
In the end
all that remains
are the fragments
of lost dreams
left in the mist
of my memory.
Nada nos pertence, nem nós pertencemos a ninguém.
A única coisa verdadeiramente nossa é a nossa memória.

Texto lindo. Cheio de sentimento. Apesar da amargura que senti nas palavras do autor, sinto-me feliz porque me fez lembrar do meu avô. Do qual tenho as melhores recordações, que me fazem sempre sorrir.

Beijinhos :)

Afixado por: whitesatin em abril 17, 2005 08:39 PM