E para segunda re-edição recorri a Milan Kundera com o seu clássico "A insustentável leveza do ser". E porque é realmente sobre existência ou tipo de existência(s) que importa reflectir, deixo-vos o excerto que se segue. As questões (que podem ser, por sua vez, ainda mais desdobradas) que me ocorrem, para já levantar, são: qual o (real) peso da vida? Será este decidido por nós? Será essa pesagem da nossa inteira responsabilidades ou outros factores são, para si, absolutamente determinantes? Qual a melhor opção: uma existência levemente suportável ou uma exitência mais pesada? Uma existência com o facilitismo da leveza ou uma existência com um peso responsabilizador? Que existência? Qual a sua efectiva definição? Poderá haver uma definição?
É natural que quem quer "elevar-se" sempre mais, um dia, acabe por ter vertigens. O que são vertigens? Medo de cair? Mas então porque é que temos vertigens num miradoiro protegido com um parapeito? As vertigens não são o medo de cair. É a voz do vazio por debaixo de nós que nos enfeitiça e atrai, o desejo de cair do qual, logo a seguir, nos protegemos com pavor. (...)
Poderia dizer que ter vertigens é embriagarmo-nos com a nossa própria fraqueza. Temos consciência da nossa fraqueza, mas, em vez de resistir-lhe, queremos abandonar-nos a ela. Embriagamo-nos com a nossa própria fraqueza, queremos ficar ainda mais fracos, cair por terra em plena rua à frente de toda a gente, ficar por terra, ainda mais abaixo do que a terra.
(Milan Kundera- A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER. Fotografias de Misha Gordin)
Será que gostamos assim tanto de sentir o peso da vida? Ao ponto de nos "enterrarmos" nela?Depende do conceito de vida, não? Ou se calhar, depende do que fazemos com ela (a vida). Não sei. Ainda estou a descobrir se gosto de viver, ou não. Tenho dias que sim, mas tenho outros que nem por isso...
Bjs
Whitesatin:
a pesagem é/será directamente proporcional ao projecto de vida que delinearmos para nós próprios. Evidentemente que este projecto será também directamente relacionado com aquilo que entendermos por vida e como lhe dar consistência.
Sentir o peso da vida não é entendido por mim como negativo se isso não nos atolar em obstáculos, impossibilidades e sofrimentos. Entendo dever existir um certo grau de dosagem. Não creio, por isso, ser interessante ou viável vivermos numa leveza tal que se torna insustentável.
Quanto ao nosso enquadramento diário na vida, que é a nossa (na relação que esta estabelece com os outros e com o meio em geral), é certamente variável, quer devido a estados de espírito (factores de ordem psico-emocional), quer devido a estados corporais (factores de ordem física ou orgânica), quer devido a estímulos do meio (factores de ordem exógena). Face a tudo isto: adaptemo-nos, reajustemo-nos e procuremos impulsionarmo-nos para a frente o melhor possível. Se o possível não for tanto assim e, portanto, insatisfatório, mantenhamos a vontade de dar a volta à página, no âmbito daquelas que forem as nossas possibilidades.
Beijo grande :)
Afixado por: Sandra em abril 16, 2005 08:28 PMLeveza ou peso? Uma das dúvidas que carregamos na vida: umas vezes precisamos mesmo desse peso e no entanto em outras alturas a leveza é fundamental para conseguirmos sobreviver.
Temos por isso que conseguir obter a liberdade e o engenho que nos permite adaptar o peso e a leveza à nossa vida em cada momento.
Kundera é excepcional!
Claro que sim, Jotakapa, claro que sim. O que para mim está em causa relativamente à pesagem é o equilíbrio. A leveza só o pode ser bem e saudavelmente se não significar desresponsabilização, deixar andar, abandalhamento, esvaziamento da substância da vida. Claro que sim, que ela é necessária e muito bem vinda, naqueles que são os seus momentos, numa vida que tenha um peso equilibrado para ter um sentido e uma prestação efectivas. Não andamos cá por andar e o mundo não é algo de etéreo onde, simplesmento, vamos permanecendo. Temos, como pessoas e como cidadãos que ter a noção de que há caminhos para cumprir. Ora isso não pode ser desprovido de nada. Como, claro, não o pode ser, a dose de recompensa.
Como dizes e muito bem é uma questão de engenho. Sim, de engenho. E cada vez mais. Hoje, conseguir o equilíbrio é quase, tb, uma arte.
Beijo :)
Afixado por: Sandra em abril 16, 2005 09:34 PMSandra, sugiro que publiques algum excerto referente ao amor entre Teresa e Karenin. Para mim são as personagens mais importantes e interessantes do livro, e a história de amor entre ser humano e animal a mais plausível. Tomas é apenas a vaidade de Kundera a tentar intrometer-se no livro. Não sei, é só uma sugestão. Jokas**
Afixado por: Andreia C. Faria em abril 16, 2005 09:34 PMSandra, cá está a palavra-chave mágica que pode muito bem ser o segredo da vida: Equilíbrio. Em todas as áreas da vida, o essencial é manter o equilíbrio. Obrigada. Bjinhos
Afixado por: whitesatin em abril 16, 2005 10:31 PMExtracto de um livro que adorei ler e releio de quando em vez. Muito pertinentes as questões que pões na introdução .. mas de difícil resposta! Um beijo e bom Domingo.
P.S. Tenho andado afastada mas tou de volta. Aproveito para alertar para a alteração do endereço do Shrine.
Afixado por: Pink em abril 17, 2005 01:35 AMAndreia: garanto-te que vou ter em conta a tua sugestão. E procurarei concretizá-la da melhor forma possível. Muito obrigada.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em abril 17, 2005 09:02 AMWhitesatin:
é exactamente isso. É exactamente isso. E a aprendizagem para o viver, sentir e pôr em prática é constante.
Mas acredito que é possível, se nos empenharmos.
Beijo grande :)
Afixado por: Sandra em abril 17, 2005 09:09 AMPink:
de facto estamos perante um livro de grande qualidade. Também gostei bastante do filme. Tenho-o, aliás, em dvd.
Quanto ao link: eu sei.
Beijokas :)
Afixado por: Sandra em abril 17, 2005 09:11 AMas questões que levantas assolam-me o pensamento muito frequentemente e muito frequentemente, claro está, me encontro em pensamentos confusos à procura de respostas, à procura do tal equilíbrio aqui discutido e que me permita de alguma forma, encontrar-me.
Kundera e a "insustentável leveza do ser" foram sem dúvida uma optima escolha aliada às duas fotos que compõem o conjunto.
beijos
Afixado por: Noguinhas em abril 17, 2005 11:59 PMNoguinhas:
também a mim me assolam. E tanto assim é que as transponho para aqui. E também eu procuro as respostas: em cada dia que passa, perante cada situação, tudo, num reflectir e num desafio constante de (e para) mim.
Beijokas :)
Afixado por: Sandra em abril 18, 2005 07:08 AM