abril 16, 2005

CRIATURA COMPLEXAMENTE MULTIFORME

A minha primeira re-edição, hoje, provém de uma obra que gostei particularmente: "O retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde. Recordo que quando a li era sempre mais a vontade de continuar. E era-o porque me vi confrontada com um texto imensamente profundo no que respeita à forma como o Homem pode ir construindo aquela que é a sua condição. Dorian Gray foi um tipo exemplar para dar esta ideia naquilo que de mais ou muitíssimo negativo pode haver. Um elogio à aparência em detrimento do valor do carácter e de uma personalidade aceitável em termos (mínimos) de existência e convivenciais, foi o que o autor tão bem nos soube trazer, com tão particular personagem.
Quanto ao fim da mesma: uma tragédia irremediável? Um fim que sublinha ainda mais a mensagem inerente à obra? Um fim conveniente?
Julgo que caberá a cada um daqueles que lê tomar a sua posição e, inclusive, face aos seus próprios valores, decidir.

Os cânones da boa sociedade são, ou deveriam ser, os mesmos que da arte. A forma é-lhe absolutamente essencial. Deveria ter a dignidade duma cerimónia, bem como a sua irrealidade, e deveria combinar o carácter insincero duma peça romântica com o engenho e a beleza que tornam essas peças deliciosas para nós. A insinceridade é assim uma coisa terrível? Penso que não. É simplesmente um método pelo qual nós podemos multiplicar as nossas personalidades.
Era essa, de certo modo, a opinião de Dorian Gray. Admirava-se da superficialidade da psicologia daqueles que concebem o Eu no homem como uma coisa simples, permanente, duma só essência, e em que se pode confiar. Para ele, pelo contrário, o homem era um ser com miríades de vidas e miríades de sensações, uma criatura complexamente multiforme, que trazia dentro de si estranhos legados de pensamento e paixão, cuja própria carne estava infeccionada das monstruosas doenças dos mortos.


(Oscar Wilde- O RETRATO DE DORIAN GRAY. Fotografias de Misha Gordin)


Publicado por void em abril 16, 2005 08:13 AM
Comentários

E não somos todos nós (o ser humano) uns "Dorian Grays"? Somos pois. Não existe ser mais complexo que o ser humano. Até assusta. bjs

Afixado por: whitesatin em abril 16, 2005 07:01 PM

Julgo que sim, Whitesatin, julgo que há pessoas que são verdadeiros e efectivos Dorian Gray, mesmo que não tenham materializada a pintura de um quadro de si. Mas também as há diferentes. Felizmente! Agora, este é um plano. Outro plano situa-se no âmbito das potencialidades. E aqui, tudo é possível. E tudo é possível atendendo à complexidade que é o Homem, atendendo aos espaços e às propensões para a dualidade que há em si... atendendo aos opostos e à dialéctica que lhe são (intimamente) inerentes. Basta tão só, por exemplo, uma alteração de contextos, de cenários, de estímulos. E sim, pode assustar. Muito!

Outro beijo grande ;)

Afixado por: Sandra em abril 16, 2005 08:42 PM

Concordo. A nossa capacidade de adaptação e de transformação é assombrosa. Mas, também, se assim não fosse, não seriamos tão interessantes. :) Bj

Afixado por: whitesatin em abril 16, 2005 10:38 PM