abril 15, 2005

REFLEXÕES EM TORNO (DA IDEIA DE) DO SOFRIMENTO

Somos os únicos responsáveis por qualquer desgraça que nos aconteça.
Sofrer de nada serve.
Sofrer limita a eficácia espiritual.
Sofrer é sempre culpa nossa.
Sofrer é uma fraqueza.
Há pelo menos uma objecção: se não tivesse sofrido, não teria escrito estas belas frases.

Os caracteres que se deixam abater por um nada são os mais aptos para suportar grandes golpes. Estão mais à vontade numa atmosfera de tragédia do que os enérgicos. Esgotam rapidamente a reserva de sofrimento e continuam o caminho.
Habituar-se a considerar cada arranhadela como uma desgraça, tira força ao golpe de uma grande e verdadeira desventura.
Sucede uma desgraça:
"o optimista valentão" sofre atrozmente,
"o tipo a quem tudo corre mal" sofre assim-assim,
"o pessimista integral" alegra-se com a confirmação.
Para não sofrer, é preciso convencermo-nos de que tudo é sofrimento. (...)
Para não sofrer, é preciso sofrer. Quer dizer: é preciso aceitar o sofrimento.
Mas "aceitar o sofrimento" significa conhecer uma alquimia por meio da qual a lama se transforma em ouro. Não é possível "aceitá-lo" e basta. Os pretextos serão (I) que nos tornamos melhores, (II) que conquistamos Deus, (III) que d'Ele extrairemos poesia (o mais difícil), (IV) que temos de pagar um imposto como toda a gente paga.
Mas quando se trata do sofrimento supremo, a morte, os pretextos I e III caem: restam a conquista de Deus ou o destino comum.

A ofensa mais atroz que se pode fazer a um homem é negar-lhe que sofra.


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Edição: Relógio D'Água, 2004. Fotografias de Misha Gordin)

Publicado por void em abril 15, 2005 06:36 AM
Comentários

E com esta acho que nos retiras todas as palavras possíveis, pois que no texto está já TUDO escrito!

Cesare Pavese... "top dos tops"

Estas tuas escolhas, que acabam por ser "estes teus textos" são magníficos e tomara eu ter ainda mais tempo para te ler melhor, juro que sim, é magnífico e dizem-me imenso! Eu sei que já disse isto uma série de vezes, mas é que é mesmo assim, é verdade!

O excerto que no meu caso se verifica ao contrário e que eu não sou "o optimista valentão" mas sofro atrozmente, apesar de sofrer over and over again... a parte boa é que quando amo, amo o dobro do atroz (se assim o posso definir), amo de uma forma que chego a duvidar que alguém no Mundo ame como eu, com a mesma força, só que quando sofro... oh Deus... quando sofro...

Afixado por: Noguinhas em abril 15, 2005 11:47 AM

Noguinhas:
que estes textos dos outros, que são "meus", como dizes, te continuem a chegar sempre com o mesmo impacto que demonstras aqui - e mais uma vez -. É muito importante para mim sentir isso, na medida em que, quando imprimimos amor ao que fazemos, ter feed-back positivo é extraordinariamente bom. Sejam quais forem os temas em causa, é bom sentir como se reflectem nos outros.
Quanto a esse provocado: que permita fazer retrospectivas e eventualmente chegar a conclusões. Que permita, da mesma forma, ajudar a abrir caminhos, a vislumbrar percursos e a fazer opções. Quanto ao sofrimento: não creio que ao longo da nossa vida seja incontornável. Numa altura e por um motivo ou por alguém que seja, ele virá ao nosso encontro. Não creio que, a médio e longo prazo, tal seja negativo apesar das consequências num tempo mais imediato. O importante é ir sabendo extrair lições e, em função delas, seguir em frente. Pode demorar mais ou menos. Por vezes o tempo pode parecer eterno. Mas se a nossa vontade não morrer, se conseguirmos, apesar de tudo que ela não morra, a superação vai-se dar. E muito importante: que seja sem ressentimentos. É importante que façamos constantes exercícios de reconciliação com o passado. Isto é, inequivocamente, uma forma de nos elevarmos (com o sentido mais lato que isto possa ter, em particular, no âmbito de irmos sabendo lidar com as problemáticas, naquele que é o ajustamento das nossas emoções e sentimentos).

Beijo grande.

Afixado por: Sandra em abril 15, 2005 06:54 PM

Desconcertantes as imagens. A 1ª então...é tremenda. Nem precisei do texto para reconhecer a dor. No entanto tens aqui (mais um) texto fantástico. Ao lê-lo confirmei a minha ideia de que qualquer dor é suportável. Com o tempo e com a experiência acabamos por aprender a lidar com o sofrimento. Obrigada por estes 2 excelentes textos. Bjinhos

Afixado por: whitesatin em abril 15, 2005 07:38 PM

Whitesatin:
o post é composto por 3 textos. Cada um deles corresponde a um dia determinado num diário. São textos particularmente significativos sobre algo muito importante - o sofrimento- porque imensamente inerente à vida do Homem. E quanto mais não seja por isso temos que ter sempre presente a sua possibilidade e ir, relativamente a si, aprendendo/melhorando a nossa forma de relacionamento.
Quanto às fotografias: um absoluto reforço do conteúdo dos textos e daquilo que no seu âmbito está em causa... no período anterior à superação e à passagem à fase seguinte, ou seja, a reconciliação do indivíduo com o que de positivo lhe pode chegar e/ou ele pode conseguir.

Beijinho :)

Afixado por: Sandra em abril 15, 2005 07:57 PM

Desculpa, não me fiz entender bem. Eu estava-me a referir ao post de hoje e ao de ontem quando falei em textos.
E sim, compreendi a ideia de que o sofrimento é inerente ao Homem. E que o objectivo é aprender a aceitar a dor e a perdoar, porque só assim ela se tornará mais suportável. É uma aprendizagem contínua (como tudo o resto, right?). Bjs

Afixado por: whitesatin em abril 15, 2005 10:07 PM

"Sofrer é sempre culpa nossa."
Porque será que, simultaneamente, concordo totalmente com a ideia e por outro lado, discordo o conceito de "sempre (ser) culpa nossa"? Será que não podemos modificar o nosso fado/destino, Sandra? Será que a dor (seja ela física ou emocional) é ditame de outros? Porque é que não consigo (e de momento realmente não o consigo) ditar os meus próprios medos, receios, dores, sofrimentos, ilusões, sentimentos?? Perdoa-me, isto é mais um desabafo do que um comment.
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Beijo..
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Afixado por: Miguel em abril 16, 2005 01:21 AM

Sem dúvida, whitesatin, sem dúvida. O teu comentário é importante - bastante - para reforçar essa ideia.
Quanto aos textos, ok, ok ;)

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em abril 16, 2005 08:51 AM

Miguel:
não tenho absolutamente nada para te perdoar, na medida em que não fizeste nada de errado ou interdito. Aliás, o teu comentário e questões que colocas são muito pertinentes. Julgo que a questão do sofrimento é por demais complexa para extremarmos posições. Não creio existirem leis reguladoras para uma situação onde o sofrimento existe, em particular porque os indivíduos são múltiplos e únicos, porque os contextos são/podem ser imensos, porque há histórias de percursos, porque os meios são variáveis. Há uma série de aspectos que têm que ser tidos em conta para se poder "avaliar". Agora é, claro, que perante uma situação de sofrimento temos de nos posicionar, temos que fazer escolhas, opções, decidir. Mesmo que o imediatismo dos resultados positivos não surjam no imediato, a nossa vontade é absolutamente fundamental. Agora: que vontade?
Destino... ok... julgo que temos uma palavra a dizer. Temos responsabilidades. Não podemos nem devemos a elas fugir.

Beijo grande, amigo :)

Afixado por: Sandra em abril 16, 2005 08:58 AM