
Sei isto: a minha energia está canalizada
Para a palavra fazer, gosto da ideia da construção
E o que dela existe nos movimentos normais.
Agrada-me a palavra engenharia e o que ela
Representa: não saias de um sítio sem deixares algo
Atrás de ti. Dirijo-me apenas às coisas que me excitam
Positivamente e me levam a fazer outras coisas, dirijo-me
Às pessoas de que gosto, nunca às de que não gosto;
Sempre me pareceu insensato que se pare,
Nem que por um momento, de admirar, há
Sempre actos e coisas que nos ajudam
neste cálculo infernal da distância entre o dia de hoje
e a nossa morte. E qualquer pessoa dar um passo que seja
em direcção ao que não aprecia, para insultar, ou derrubar,
parece-me brutal perda de tempo, uma falha grave
no órgão de admirar o mundo
(deves combater uma ou duas vezes na vida,
se combateres duzentas vezes
é porque os combates são fracos).
Não sei pois como viver. O que li e vi
Serve-me apenas para ser mais lúcido, não
Para ser melhor pessoa. Adquiri esta regra (ou nasci com ela):
- e é talvez uma moral -
mover-me apenas em direcção ao que gosto.
Se o prédio alto, escuro, feio
me impede de ver o sol, não fico a insultá-lo, não
moverei um dedo para o deitar abaixo:
contorno sim os edifícios necessários
até chegar ao espaço de onde possa receber aquilo que
quero. Se chegar lá de noite, montarei acampamento.
(Gonçalo M. Tavares- 1. Edição: Relógio D'Água, 2004. Fotografia de Misha Gordin)
Excelente escolha, Sandra. este poema é optimista e contem uma filosofia de vida de que, mesmo que a desejemos seguir, nos esquecemos a maior parte das vezes. É bom relembrá-la.
Afixado por: Andreia C. Faria em abril 14, 2005 05:13 PMoptimista é certo, mas tem qualquer coisa de escuro este texto. E acho q n e so a foto*
Afixado por: Ana em abril 14, 2005 06:14 PMSim, Andreia é verdade, no entanto não podemos esquecer que por vezes não conseguimos escapar às coisas, pessoas ou energias negativas que vêm ao nosso encontro. A nossa posição não pode, pois, ser estática. Optimismo sim, mas consciente e com noção das realidades e das possibilidades de confronto. Depois, a necessária - realista- adaptação, dentro do optimismo possível/realista. Há que ter o cuidado em não transformar o optimismo em "deixa andar", no abandanhamento, na não percepção efectiva dos problemas/realidades, assim como da sua verdadeira dimensão/profundidade. Não vejo interesse ou ganho maior para a nossa maturidade como pessoas sermos uma espécie de "Cândido" volteriano.
Mas sim, o poema do Gonçalo tem essa mensagem positiva inerente, mas...
(continuo no comentário que deixo à Ana)
Beijokas :)
Afixado por: Sandra em abril 14, 2005 06:23 PMMuito bem, Ana, captaste a ideia que esteve por detrás da edição desta fotografia. De facto, procurei introduzir reticências ao conteúdo mais evidente. Para além do que já comentei a propósito do que disse a Andreia, a foto procurou dar a ideia de obsessão, sobretudo tendo em conta a expressão do olhar. O excesso de optimismo pode ser uma obsessão... um optimismo imaturo pode originar um estilo de vida obsessivo. Julgo que é ai que reside o tal lado escuro. O tal lado onde o pessimismo pode transformar-se no seu contrário e, por isso mesmo, tornar-se pouco benéfico para o indivíduo que (dessa maneira) o veste ou adopta.
Beijinho :)
Afixado por: Sandra em abril 14, 2005 06:28 PMoptimas selecções como é normal por estes lados
:-)
achei a imagem algo desconcertante (no bom sentido) mas uma óptima fotografia!
Afixado por: Noguinhas em abril 14, 2005 06:32 PMNoguinhas:
Se há coisa que me dá particular prazer ao postar, em particular, na conjugação texto-imagem é, por vezes, ser desconcertante relativamente aos dois tipos de linguagem e mensagens inerentes. Nem sempre (um nº razoável de vezes) me regulo pelo que é evidente em termos de conjugações. Gosto de utilizar a imagem não só como complemento do texto mas tb como o seu contrário em termos de transmissão de ideias. Foi (um pouco) isso que aconteceu aqui. Pretendi, pois, registar uma mensagem paralela, uma mensagem não tão evidente no texto, não tão imediata.
oK, dá para perceber o meu raciocínio e como funciono? No fundo, o que pretendo é ir um pouco mais além do que um suposto simplismo.
Beijo :)
P.S- Os meus comentários anteriores servem de complemento a este.
Afixado por: Sandra em abril 14, 2005 06:47 PMCreio que quando "te" li percebi o objectivo, o contrasenso que provocas e que não são só "um molho" de coisas bonitas e/ou bem escritas, que acabam por nos fazer pensar e absorver de uma forma mais profunda o que partilhas conosco.
A obsessão e a forma como absorvemos o mundo que nos é exterior são temas que me interessam particularmente, sou uma apaixonada por coisas que parece que passam ao lado de imensas pessoas (que inclusivé fazem parte da minha vida) e revejo-me sempre um pouco nestes textos que publicas.
(espero conseguir publicar alguma coisa... ultimamente não consigo comentar quase nada)
Beijo :-)
Afixado por: Noguinhas em abril 14, 2005 07:05 PMExcelente texto. O teu raciocínio está correctíssimo. Consegues sempre colocar o "equilíbrio" no sítio certo, no momento certo. Bjinhos
Afixado por: whitesatin em abril 14, 2005 09:58 PMSó posso agradecer as tuas palavras, Whitesatin.
Beijokas :)
Afixado por: Sandra em abril 14, 2005 10:24 PMSandra, quando referi o lado positivo e optimista do texto tive em conta uma leitura muito pessoal. Sendo eu por natureza pessimista e dada a ir de encontro às coisas que me fazem mal, que não me fazem feliz (como costumo dizer, guardo muitas vezes para mim a merda dos outros) peguei nas palavras de Gonçalo M. Tavares pelo ponto em que poderia equilibrar a minha personalidade enquanto leitora do texto. Percebi, desde logo pela fotografia, a ambiguidade, a duplicidade que todas as filosofias de vida têm e que quiseste transmitir com este post. Beijoka*
bunito...q 100 noção isso
vai c f....