março 31, 2005

O ADULTÉRIO

A mulher hesita entre o adultério e uma conversa.
Percebo: na mesa fala baixo e sorri muito
para um homem que não é o seu marido.
Mas ainda há tempo. Por enquanto nada foi feito.
Os pensamentos, felizmente, são reversíveis.
A mulher ao sair do café
poderá ser atropelada: um embate violento, vamos supor.
Poderá, então, quem sabe, permanecer seis meses no hospital,
com o marido ao lado, e revistas;
todos os dias no horário permitido.
E, se tal acontecer, esta mulher não será adúltera.
O homem que não é o seu marido tem um fato escuro,
uma gravata cinzenta atravessada por uma subtil linha branca.
Está contente consigo próprio, é evidente, e com a gravata.
Vejo-os sair do café. Despedem-se. Faço uma pausa,
suspendo os meus projectos, e observo-a a
atravessar a rua para o outro lado.
Um carro passa a grande velocidade,
mas ela já se encontra no passeio, protegida.
Do outro lado diz adeus ao homem de fato escuro,
sorri muito, abana a mão com um movimento excitado.
Ela desaparece por um lado, ele pelo outro.
Encontrar-se-ão de novo: isso é certo. Num outro dia.
Num sítio menos óbvio.
De regresso a mim penso no que é o destino,
e no que é o tempo,
e sei, tenho uma certeza clara: aquela mulher vai sofrer.


(Gonçalo M. Tavares- "1". Edição: Relógio D'Água. Fotografia de Philippe Pache)

Publicado por void em março 31, 2005 06:54 AM
Comentários

E será que o sofrimento dela é possível de evitar? Sofre por resistir à tentação, sofre por calar os seus desejos, sofre por violar os compromissos, sofre por deixar de viver o que lhe apetece, sofre pela dúvida, sofre por ter estado em dúvida, sofre por ter perdido tempo na dúvida, sofre por ter decidido tão cedo... sofre sempre... mas também tem coisas boas em cada uma das acções que decida tomar.
A decisão é sua, a responsabilidade também, o sofrimente será seu bem como o que de bom viver e sentir que viveu... qualquer que seja a decisão.

Afixado por: jotakapa em março 31, 2005 12:14 PM

Muito interessante este texto, garanto que daria um bom tema para discussão. Ainda assim atrevo-me a subverter um pouco o tema aqui abordado e transpô-lo para outro - Infedilidade.

Quase todos nós temos ideias equivocadas sobre fidelidade. Existem pessoas que nunca traíram, no entanto não suportam o(a) parceiro(a). Não somos donos de ninguém e às vezes nem de nós mesmos, mas a ideia de posse existe em quase todos os relacionamentos estáveis. De uma maneira geral, numa relação estável as cobranças de fidelidade são normais e aceitas. O medo de ficar sozinho é tão grande que é difícil encontrar quem não se submeta.

Em muitas sociedades, o casamento tem sido considerado a melhor forma de garantir alimento e segurança, defesa contra agressores externos, e garantia de descendência.

Existe ainda o papel da outra, da amante, que não é tão fácil quanto se imagina.

Temos sempre em mente uma pessoa, vulgar, sem valores e aproveitadora e não um ser humano comum que sente dores e sangra vermelho, como todos nós. É sempre vista como transgressora, pois na maioria das vezes, mexe com a imaculada família, desfaz lares. É alguém que vive em estado de espera... Dos filhos crescerem, da matriz se curar, enfim, de algo que na verdade muito raramente vai acontecer.

É alguém que sofre, pois o companheiro não opta por uma relação estável com ela. Alguém que tem dia e hora marcada para amar.

Num triângulo sobra sempre uma ponta, em geral é a amante.

Nesse ponto, sou completamente a favor das prostitutas.

Elas não estão envolvidas emocionalmente, basta que lhes paguem. As cartas estão na mesa e as expectativas não são frustradas, pois cada um sabe bem o que quer e o outro pode dar. As regras são claras e ninguém é enganado. A pessoa não é cobrada em nada e não deve nenhum telefonema no dia seguinte. São pagas para irem embora e não para ficarem. Podem finalmente relaxar, abrindo mão do poder, ou vice-versa. Aliás, pensar que se tem o poder sobre algo, ou alguém, é um excelente afrodisíaco.

beijinho carinhoso

Afixado por: Marta em março 31, 2005 03:18 PM

{ ...

nesta falta de tempo [ reclamada ]
deixo-te:

beijos*mil
mil*beijos
(sou)
e nestes mil
(beijos)
de mil em mil
(desejos)
dou
© .8.

... }

Afixado por: .8. em março 31, 2005 05:48 PM

A falta de tempo não me deixa comentar como o mereces.Deixo apenas um forte beijo.
ps: mais um óptimo texto para variar..

Afixado por: Contador de Histórias em março 31, 2005 06:17 PM

para quem se interessa pelas novidades literárias vem aqui:

http://www.icicom.up.pt/blog/muitaletra/

Afixado por: divulgação em abril 1, 2005 01:34 PM

Bom fim-de-semana.

Afixado por: Ofeliazinha em abril 1, 2005 02:32 PM