Dando cumprimento ao que foi ontem anunciado edito, com este post, alguns poemas de José Tolentino Mendonça, constantes na sua mais recente obra de poesia chegada ao mercado: "A estrada branca". Um livro... um conjunto de poemas que sublinham as preocupações espirituais/de interioridade do autor. Que se debruçam sobre percursos a fazer, sobre interrogações constantes que são necessárias, sobre buscas. Que apontam para recomeços, reiniciações, para experiências importantes ou mesmo imprescindíveis.
No primeiro poema que apresento -"O poema"- o autor faz bastante bem uma espécie de síntese do que é para si a Poesia, sendo que esta permite perceber o que se segue depois em termos de conteúdos, quer aqui quer na totalidade da sua obra poetica. Não vou, pois, fazer mais aprofundamentos teóricos. Opto por vos deixar entrar nos poemas e senti-los à vossa maneira. Neste caso, julgo mesmo ser o melhor, ainda mais depois do que já apresentei no post de ontem.

O POEMA
O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visíveis, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há poema verdadeiro que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para lá daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.
A ESTRADA BRANCA
Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

O PASSO DO ANJO
Pelas escarpas, nos atalhos de areia e erva
em matas sombrias onde as faias se renovam
os animais já não vigiam
já ninguém os persegue
a chuva desenha círculos perfeitos
nos poços dos aldeões
como nos charcos
o restolhar de prata da folhagem
previne do passo do anjo, na escuridão
PLUMAS
Através da terra o amor
torna-nos estranhos à terra
liga-nos a uma divina linhagem
com seu tormento inapagável
suas velocidades enormes
O amor vive na ponta dos cabelos
O amor, ditam os frios do coração, é ruinoso
qualquer momento em chamas
denunciará a imprecisa inquietação que nos toma
Os inocentes que se amam dizem
teu corpo está a nevar
tua alma é uma flor
um prado tranquilo sua noite
Os inocentes que se amam
por seu tormento elevam-se
como plumas
num chapéu de passeio

VIA DEL GOVERNO VECCHIO
Se me trouxeres uma outra luz te explicarei
como se torna um amor imoderado
tão parecido ao anjo que nem nos é dado vislumbrar
a verdadeira passividade não é a do esquecimento
mas a mortal velocidade do desejo
que ninguém suporia a hora alguma
há um segredo comum àqueles desconhecidos
que esbarram um no outro por puro acaso
um olhar branco, um rosto que se volta
e depois no mundo nunca mais se encontram
Eu por mim nunca sei
se estou irremiavelmente longe ou demasiado perto de Deus
às vezes pergunto-me quantas vezes o corvo deverá
bater as suas asas negras
entre o meu corpo e o seu
(José Tolentino Mendonça- A ESTRADA BRANCA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografias de José Marafona)