Ofereço-vos, hoje, o primeiro texto para Teatro de um... Poeta, que é também Teólogo, Padre, Professor... Trago-vos um texto para Teatro que se encontra desde o passado dia 24- e até 24 de Abril- em cena no Teatro Taborda (Lisboa), com as representações de Alhelí Guerrero, Pedro Martinez, John Romão e encenação de Marcos Barbosa. Trago-vos "Perdoar Helena" de José Tolentino Mendonça.
Originário da Madeira o autor tem, no presente, 39 anos e viu publicada muito recentemente, pela editora Assírio e Alvim, a sua tese de Doutoramento "A construção de Jesus".
No campo da Poesia, José Tolentino Mendonça vê os seus trabalhos editados desde 1990 com o livro "Os dias contados", seguindo-se "Longe não sabia" (1997), "A que distância deixaste o coração" (1998) "Baldios" (1999) e "De igual para igual" (2001). Saído há poucos dias para o mercado, também ao nível da Poesia, "A estrada branca" cujos alguns poemas serão editados aqui no Abismo já no dia de amanhã.
"Perdoar Helena" é, como já disse, o primeito texto para Teatro do autor, sendo a actuação em cena resultante da dramaturgia de Jacinto Lucas Pires, autor do qual já apresentei excerto de uma peça. A representação foi fruto de uma produção conjunta da Companhia O. lilástico e dos Artistas Unidos.
Em termos de conteúdo, é um trabalho que nos fala e/ou faz reflectir, no âmbito de uma viagem pela produção grega antiga/clássica e pelo mundo da própria produção dramática, sobre o Perdão, a Culpa (ou, inversamente, a Culpa e o Perdão), a Responsabilidade, o Destino pessoal, sendo que por isto mesmo, aborda problemáticas relacionadas com o Homem e com o Mundo onde se insere. Por motivos evidentes, e de forma muito particular, é uma peça cujo conteúdo é muito voltado para o Interior. Para o nosso interior. Para o interior do ser humano. Um interior e uma voltagem, evidentemente, imensamento relacionados com a acção, com posturas e posicionamentos, com formas de ser e de estar.
Um texto (e uma peça) que no dizer de José Tolentino Mendonça:
1. É/foi um risco- "Porque é um modo diverso de lidar com a palavra. É passar da solidão em sentido estrito, a que obriga a poesia, para a ideia de companhia, de outras presenças, e pensar que aquelas palavras partirão à procura de uma voz, de um rosto, de um corpo. Os poemas também partem, mas não sabemos à procura de quê."
2. Tem imanente a vertente do ensaio, construindo-se sob a forma de diálogo-"Para mim, a ideia de diálogo é sempre de um caminho comum. A palavra nunca é um fim em si própria. É uma busca, um endereço, uma pergunta, uma seta atirada mais longe. O que procurei no teatro foi que se pudesse pressentir que as palavras servem para fazer um caminho e que determinadas palavras e silêncios nos levam para mais longe, dentro de um certo pensamento. A escrita nunca é, para mim, um exercício de auto-contemplação. As palavras servem para fazer coisas e para tornar outras mais misteriosas, ou mais lúcidas, ou mais obscuras. As palavras têm sempre uma dimensão de transformação. E, no teatro, mais do que a exploração dos pequenos incidentes de uma cena ou de um encontro, tem que haver, como em toda a arte, uma iniciação à vida do espírito. Ou seja, partindo do que é visível, imanente, vivenciado, o teatro pode levar-nos às grandes questões: o que fazemos aqui? para onde caminhamos? chegamos a alguma parte? São esses meios mais fundos da alma humana que me interessa explorar na escrita."
[Citações extraídas da entrevista dada por José Tolentino Mendonça ao "JL" (Jornal de Letras) e publicada no número de 16-29 de Março de 2005, p. 16-17]
Quanto ao excerto da peça:

1. Aqui estamos, escolhidos, ao que parece, pela tecedeira.
2. Pela tecedeira?
1. É assim que surge nomeada na Ilíada. Helena tece as batalhas de Gregos e Troianos... batalhas que ela teria provocado... (enfático) e como é desmedida sua tapeçaria!
2. Helena... Helena...
1. "Para que nos dias futuros/ - explica ela a Heitor- os homens que vão nascer nos tomem em seus cantos".
2. "... surgiu, vinda do seu quarto perfumado e de altos tectos, /Helena, semelhante a Artémis, a deusa da roca dourada/ Pôs-lhe Adastra uma cadeira finamente trabalhada, /Trouxe Alcipe uma alfombra da mais macia lã..."
1. Fios pálidos, fios febris, invisíveis... atraindo a criação para o seu fundo mais fundo. Helena ainda não deixou de tecer.
2. A sua beleza soltava imprevisíveis desastres... assemelhava-se ela à inocente borboleta subindo a sebe dos loureiros, deslumbrante... mas a janela em que ela tocar ruirá, irremediável... a casa que ela atravessar será em breve ocupada pelas chamas, o ombro em que ela docemente pousar será, sem piedade, sacrificado.
1. Não foi ela.
2. As cidades são hoje arrasadas pelos desígnios do petróleo... que aspecto de beleza tem o crude? uma mancha venal, oleosa... Mas a desgraça que o belo ateia, essa desgraça não é mais desculpável...
1. Não... repito que não foi ela.
2. Não foi ela? (irónico) Então era alguém muito parecido. Gente tão diversa na tradição a identifica!
1. Mas é que tens razão... era alguém muito parecido... mesmo... Era um clone.
2. Um clone? Não zombe de mim.
1. Pronto, um eidolon, um simulacro, se quiseres.
2. Que bizarro! E isso é... Eurípedes?!
1. Sim, é o que ele defende justamente em Helena. E já antes dele Estesícoro tratara essa versão do mito. A Helena verdadeira nunca esteve em Tróia. Paris arrastou para lá um fantasma, um ser nuvoloso que se dissiparia no ar, deixando, porém, atrás de si um lastro da mais espessa desventura... Helena é a fidelíssima esposa que Menelau vai resgatar aos intentos do Senhor do Egipto... Toda a perturbação aconteceu por causa de um artifício... um simulacro que os deuses criaram. Pobre filha de Leda.
2. Quase uma década durou a guerra de Tróia... tudo por um engano... pode lá ser!
1. Mas o mundo já conheceu alguma guerra que não fosse fundada no engano? Os soldados desconhecidos cujos túmulos nós veneramos, os vencidos de todas as quarelas, os cortejos dos heróis-mortos...
(...)
2. É que não entendo... E à medida que fala, mais obscuro se torna, mais escondido. Eu esforço-me... digo a mim mesmo isto e aquilo... Mas não entendo...
1. Mas que coisa não entendes?
2. Aquela noite... aquela noite em que cancelou a representação de Helena... aquela noite em que abandonou o teatro... aquela noite em que teve medo...
1. Mas quem te disse que eu tive medo?
2. Porque fugiu... sei que teve medo porque fugiu... a arfar... acossado... Viu que tudo é uma ilusão e ficou paralisado.
1. (gritando) Que sabes tu do medo, que queres dizer? De que me acusas?
2. É tudo um amontoado... a mesma torrente: o sublime, o banal, o grotesco... Nenhuma palavra, nenhuma pedra é inatingível. Desde que nascemos estão as condições reunidas para se levantar o medo... um pânico terrífico... Por isso há um momento qualquer em que se sai a correr com as mãos acima do peito... a nossa voz já não é voz... o nosso olhar são dois poços minúsculos... o incomensurável é apenas um murmúrio, o respirar da escuridão...
(...)
2. (recobrando) É estranho. O que eu sinto agora é que estamos sempre a um passo, quer nos dirijamos para um lado ou para outro... quer se trate da vida ou da morte. E a isso não se pode fugir... Por mais branda que sopre a brisa, por mais branda... a noite penteia as glicínias com o seu ponte aguçado.
1. (pausa) Sabes o povo berbere... os nómadas...
2. Sim...
1. Estão demasiado ligados à ideia da viagem... sair pelo mundo e tornar à mesma casa, na mesma rua, no mesmo bairro de Ítaca, de Nova Iorque... O nomadismo não é uma viagem assim...
1. O nomadismo é uma viagem sem fim...
2. E...
(...)
1. Há um meridiano que todas as vidas cruzam, quer se pense a sua rotação como mortal ou infinita...
2. Também não sei se ouvi falar.
1. Ouviste... digo-te que ouviste... Há um momento em que o coração parece que estanca perante o espaço em branco. Não aconteceu nada, nada parece ter mudado, mas a página branca, a parede branca, a estrada branca assomam como um obstáculo maior que todas as nossas possibilidades...
2. Penso que sigo...
1. Os que viajam, voltam para trás... regressam à sua rua, aos seus tectos amados, aos olhos de Penépole... Os nómadas...
2. E os nómadas?
1. Os berberes dizem que os nómadas desposam o vazio... falam das núpcias com o vazio...
2. Não compreendo.
1. Mas queres compreender?
2. Juro que quero... Mas...
1. Mas... o quê?
2. Quando a verdade se revela, não é para que seja gritada? Não são os grous, de que tanto fala, gritadores dos céus? O seu canto implantado de modo febril na abóbada celeste, tão tempestuoso que quase corta a respiração, não atesta o seu canto a persistência grandiosa da vida?
1. A verdade revela-se para que entres nela. Isto unicamente.
(...)
1. Nem te dás bem conta, não sabes explicar, mas há um dia em que começas. Vais caminhando dentro da tua casa, às voltas, até te perderes. Há um dia, há uma hora exacta em que te deslocas dentro desse mundo que construíste e és um estranho. Por que está isto aqui? Donde terá chegado aquilo?; Quem são estes que se repetem nas fotografias?; Quem juntou tantos livros em meu redor?- perguntas muitas vezes. Mas não tens segurança sobre coisa alguma. Os outros procuram-te, mas não te vêem. Marcam o teu número, com insistência, mas o telefone não toca. Ou se te chamam do princípio da alameda, se uma multidão inteira grita o teu nome já não ouves. Terás medo? Dizes para ti próprio: "Esta incrível paz será o medo?" Vais percebendo, meditando no teu caso, que aquele pouco que hoje ainda te habita estará também a ponto de abandonar-te. És tomado, então, de uma pressa inumana, de um afã... tentas resistir, encontrar um atalho entre o cerco que te fazem as árvores, as trepadeiras, as magras flores do padro, as lianas... Procuras fixar, escrever esse escasso conhecimento que resta. A minúcia, se ainda for capaz da minúcia, pensas, isso será, talvez, uma saída. Marcas então com etiquetas os objectos, um por um, como quem se entrega a um criterioso e interminável inventário, desenhas a carvão setas enormes ao longo de todas as paredes, gravas um mapa de emergência em cada porta, estás já extenuado, vacilante, passou sobre o mundo muito tempo, quando, por fim, apontas o teu próprio nome e o costuras no casaco, para o que der e vier... E sentas-te à espera. Tu não podes saber, mas aquilo que escreveste já não faz parte de nenhuma língua. Em nenhuma língua dos homens aqueles teus traços, todos juntos, poderão algum dia ser reconhecidos como uma palavra sequer. O silêncio conserva em ti os lábios bem fechados. E, no meio desse, como um clarão. Caçador, sê a tua própria presa... isto recordas.
(...)
(José Tolentino Mendonça- PERDOAR HELENA. Edição: Assírio e Alvim. Fotografia: resultante da representação dos actores supra-referenciados)
Olá menina, voltei :P
Continuas a ter aqui coisas fantásticas!!!
Mtos beijinhos,
Cacau
Afixado por: Cacau em março 29, 2005 10:16 PMMuito que ler por aqui .... interesante como sempre e eu fugida com pouco tempo para "navegar" pelos blogs favoritos! Prometo voltar com mais tempo. Já agora ... esperoi que actuializes io endereço do Shrine of Hypnos, pois mudamos de poiso! Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em março 30, 2005 01:02 AM