março 28, 2005

A MORTE ANUNCIADA DE UM PALHAÇO POBRE

Atendendo à edição de "Satanás" até ao dia de ontem, transita para hoje a apresentação de mais um texto da Paula. E ei-lo que se segue! Tão brilhante como aqueles até agora aqui trazidos. E mais uma vez: um pretexto para a reflexão. Sobre nós. Sobre o Homem. Sobre o que andamos por aqui a fazer. Sobre o que queremos, preferimos ou não queremos. Sobre as nossas opções. As opções de vida conscientes ou inconscientes. Mas sobre as opções. Sobre os enganos. Sobre o que poderá ser mais fácil. Sobre o que, para nós, pode ser enganadoramente mais fácil. Porque queremos assim. Porque sim.

Meninos e meninas, senhores e senhoras, admirável público: O maior espectáculo do mundo vai começar...

Hoje há circo, pintam-se as grades (se há dinheiro para a tinta, então mãos à obra), ergue-se a tenda oval com uma lona cuidada, pois é ela que dá vida ao espectáculo (uma lona nova e bonita, atrai com certeza mais público). A gente do circo levanta-se bem cedo. Como tudo na vida, é preciso saber fazer de tudo um pouco. Como o dinheiro não abunda, não é possível pagar aos pintores, aos electricistas e aos serralheiros. Ao invés, utiliza-se a matéria de que são feitas as verdades: a improvisação.

Já é quase noite, e já se varrem as bancadas, já se limpam as cadeiras e já se recolhe o lixo de outros circos que por ali passaram. Arreia-se o pano da roda, alimentam-se os leões, escovam-se as crinas dos cavalos, e enterram-se as fezes dos animais para evitar as moscas e as doenças. A noite aproxima-se, e o cheiro do algodão doce já encanta as crianças. “Boa noite, senhoras e senhores! Boa noite, meninos e meninas! É com uma grande alegria que este Circo apresenta um grande espectáculo. E começando a sua apresentação, os irmãos Pompidu, num verdadeiro jogo de malabarismos!”

Os ilusionistas, trapezistas, acrobatas, equilibristas, contorcionistas, domadores, elefantes, ursos, cobras, tigres, cavalos, estão prontos à entrada da tenda. Mas, por agora, aí vem ele...a alma do circo! Um circo que não tem um bom palhaço, não pode ser um bom circo. Gritem e batam palmas, acompanhem os pagodes, os tambores, as trombetas, que aqui vem o Palhaço Pobre...


O Palhaço Pobre entra em cena, sorriso fixo, pensamento algures. A sua caracterização pesada e grotesca, por ele construída na perfeição, impressiona sempre os espectadores, como seja o cúmulo do contra-senso. Ele entra num dos anéis da pista e senta-se à espera da carícia da crina do cavalo, mas é um coice que o atira ao chão. A primeira gargalhada da noite é-lhe devida, pois começa para este palhaço a reprodução de um drama de iniciação e de martírio. As pessoas observam-no curiosas e temidas, sobrepostas em filas e filas de rostos, aos quais o projector lambe ávido, um a um, como uma língua em busca de um dente perdido. Sob o rufar surdo do tambor e sobre a fanfarra das trombetas, o palhaço sobe o escadote em direcção ao nada, como se procurasse a saída celestial de qualquer tragédia monumental. O público ri ainda, porque sabe, ao contrário do palhaço, que a escada conduz ao nada, ao abismo, ao precipício. Lá em cima, este sorri ao público, desequilibra-se, e cai sobre a rede que atravessa todas as pistas do circo. Nova gargalhada surte entre os espectadores. Quando desce ao chão de areia, um silvo agudo de um violino acompanha o seu triste pesar de ter querido ir a todo o lado, e não ter chegado a lado nenhum. Após o sinal da primeira tristeza, voltam a soar as rufadas do tambor, e volta o cabriolar das suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente inspirados, perseguem-no entre as suas expirais de êxtase como corcéis grudados à plataforma de um carrocel tomado de loucura. Porém, nesta noite, o riso dos espectadores parece-lhe afoito, torpe e miserável. Não são risos cristalinos que este ouve, mas um riso camuflado de mofas e assobios, detritos e outros projécteis de maior solidez. A face do palhaço, tão bem apagada dentro da maquilhagem, torna-se sorumbática. O riso surge-lhe cada vez mais irritante aos ouvidos, até que se torna insuportável. O Palhaço Pobre sai de cena. O público, todavia, espera impacientemente que este regresse, envolto numa áurea impaciente, desconfiada, azeda, aplaudindo sicromáticamente a música numa irada explosão de escárnio. O palhaço não regressa pela primeira vez.

Na sua caravana, o palhaço retira a máscara e ganha a forma de homem. É bonito, mas velho, com rugas que lhe sugam os olhos e a boca. Tem uma cara melodiosa, triste e sonâmbula. Aquela cara não tem vida. O palhaço pensa, enquanto lava a face, que as focas, independentemente do que sejam obrigadas a fazer, são sempre focas; o cavalo, um cavalo; a mesa, uma mesa. No entanto, ele, embora permanecendo um homem, é obrigado a tornar-se em algo mais: tem de assumir os poderes de um ser excepcional, dotado de um excepcional talento, tem de fazer rir as pessoas. Porquê? Sem a máscara, sem o nariz postiço, sem os sapatos, sem a roupa larga e desmedida, ele resume-se a um vagabundo, desconhecido. Ninguém o reconhece, flutua anonimamente entre os milhares a quem ensina a rir por cada cidade que passa. Lágrimas percorrem a sua face, uma face lavada, suja e limpa ao mesmo tempo. O palhaço, enquanto palhaço ri, mas enquanto homem, chora. “És por acaso um palhaço?”, pergunta-se a si próprio, e observa-se no espelho. “Sim, és um palhaço, e ages como te deves comportar. O público paga e quer rir. É apenas isso que ele sabe fazer.” É então que ele percebe que o mundo sem palhaços nunca ri, nunca agita os braços. O público ri com o palhaço, numa luta permanente para conseguir suster as lágrimas. A sua actuação nada mais é, diz para consigo, do que uma alegria criada pela súbita interrupção da rotina de uma vida inteira. E assim, o palhaço percebe finalmente, que o público ri porque há muito, muito tempo, que não conhece a felicidade. A descoberta deixa-o tão agitado que arde de impaciência por voltar à pista e agradecer ao público por este os fazer feliz. Um palhaço nunca chora, apenas ri.

Enquanto o palhaço veste a camisa de flanela para se deitar e dormir, ouve uma vendedora ambulante, fatigada do negócio, que canta:


É n´alegria do Circo
Que se descobre a alegria da Vida
Pois o mundo vive sob uma tenda de linho
Sem saber que o Circo é Vida,
E que a Vida é um Circo.

Pouco depois já dorme. É um sono pesado, no qual se abre o pano de um sonho de um humilde cenário de teatro. Uma trupe de saltimbancos percorre uma estrada, onde a relva é de plástico, e os arbustos de cartão pintado. A lentidão e o ranger das rodas empoleiradas de uma carroça trazem os prisioneiros de um circo decadente e sem vida. Os palhaços choram, sentados naquele pedaço de madeira ambulante, como envoltos numa armadilha do destino, enquanto as rodas de madeira da carroça chapinham as poças d’água. O povo que os espera, zomba e humilha a trupe de saltimbancos, atira-lhes pedras, ovos e lama. A estes mendigos travestidos de palhaços só lhes resta a sua peregrinação eterna. Esta é a miséria da alma, a limitação da condição humana. Um dos palhaços é ridicularizado pelo povo zombeteiro por carregar sobre si, o peso das desgraças humanas. Ele traz sobre o seu torso, o escárnio dos que abusam, dos que matam, dos que fazem sofrer, e isso faz dele um palhaço sem alma. Tal facto provoca risos a partir da sua própria decomposição espiritual.

Os palhaços entram na pista. A maquilhagem que pesa sobre eles funciona como uma espécie de máscara que, com as suas cores e formas artificiais, insurge-se como um escudo do mundo, uma forma de esquecer os antigos traumas, transformando o público (seres reais) em autênticas personagens. O mundo esconde-se de si mesmo na cara desta trupe. Tudo permanece na mesma, apenas porque já nada ali se passa. A cúpula desapareceu, os andaimes da tenda caíram. Em vez das habituais bancadas circulares, erguem-se ali, em declive, suave e direitas ao céu, autênticas paredes de pessoas. Não se ouvem gargalhadas, apenas simples murmúrios. Estão ali dependuradas, suspensas num espaço insondável, estas enormes multidões de espectros, cada um e todos crucificados. Os palhaços tentam fugir da arena, mas qualquer que seja a direcção da fuga, as saídas aparecem-lhes bloqueadas. Em desespero de causa, um dos palhaços lança-se sobre um escadote, começa a subi-lo febrilmente, e sobe, sobe até lhe faltar o fôlego. Ao ver os gemidos e os soluços da incontável multidão que os abafa, este desmaia e cai para trás no vazio. O público começa a rir, um riso reprimido de início, crescendo depois gradualmente para um riso oceânico. O palhaço caído recupera a consciência, e, é nesse momento exacto em que reconhece a existência de milhares de espelhos à sua volta, que este se apercebe que os espectadores não se riem da sua queda, mas de si mesmos. Estes palhaços não estão na pista para criar ilusões de felicidade no público de olhar triste, mas para soltar a raiva cega da sua própria humilhação. O público ri-se do mal infligido e sofrido por ele mesmo. O palhaço raciona com tal rapidez que na breve e última fracção do seu sonho, vê reconstruir-se em si todo o espectáculo da sua vida. É a própria revelação que se afunda com ele, pois sabe agora ter havido um instante em que tudo lhe é esclarecido. É altura de acordar.

No dia seguinte, emocionalmente exausto pelas devastações do sonho, decide ficar na caravana. Senta-se diante do espelho, estudando o rosto. Tem por hábito, antes de aplicar a tinta, contemplar-se durante um longo espaço de tempo. É a maneira de se preparar para a representação. O sonho, embora já esquecido pela luz da manhã, deixou nele um gosto azedo sobre a natureza humana. Se sempre se apoiara na ideia de que o ideal da felicidade é ser ela mesma contagiante, a possibilidade de que a torpeza do espírito pudesse estar ela mesma aliada ao riso desafogado, causava-lhe náuseas. Para ele o mundo é triste, mas real, feio, mas belo. Um mundo louco, cheio de contradições, como uma criança mimada. A sua função no mundo reside em emprestar-lhe a ele, o que a vida teima em retirar-lhe - a alegria. O mundo não pode ele próprio fazer parte do espectáculo. Pesa-lhe demasiado sobre a alma, saber que a humanidade seja feita de malabarismos, de trapézios. Ao mesmo tempo, que reflecte, senta-se a olhar para o seu rosto amargurado e de repente põe-se a apagar a imagem e a impor uma nova, aquela que ninguém conhece, mas que em toda a parte é tomada como sua: O Palhaço Pobre enquanto Homem. Mas, o verdadeiro de si, ninguém conhece, nem mesmo os amigos, pois as constantes representações fizeram dele um homem só. Assim, ali sentado, invadido pelas recordações de milhares de outras noites diante do espelho, começa a compreender que a sua vida separada de tudo, esta vida que egoísticamente defende como sua propriedade exclusiva, é a vida de todos. Um Palhaço só se serve a si mesmo como espelho do mundo. A boca larga e disforme, a lágrima presa no canto do olho, a distinção entre o pobre e o rico, é exactamente o quadro pintado de forma grotesca do que é na verdade a humanidade: - um riso, um coice e uma escada dirigida ao nada, apenas isso. “Por isso, é preciso demonstrar ao mundo que esta secreta existência que supostamente preserva a sua identidade, de forma alguma é vida, nada é de facto, nem mesmo a sombra de uma vida. O público precisa de se aperceber que no outro lado do seu espelho, não vive um palhaço, mas um homem, como eles mesmos, fazendo as mesmas coisas absurdas, insignificantes, necessárias que tantos outros fazem. Só assim, o mundo poderá encontrar a esperança, a felicidade e a plenitude dos dias. Esta noite não vai aparecer como Palhaço Pobre, mas como o homem que nunca ninguém ouviu falar. Estranho como todos vêm ao circo à procura de si próprios, mas basta um pouco de tinta gordurosa, um nariz falso, uns trapos carnavalescos para uma pessoa se transformar em ninguém. É o que nós somos – ninguém. E, ao mesmo tempo, toda a gente. “Não é a mim que eles aplaudem, mas a eles próprios. Aprendo agora, que, sermos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos, aquele último número mais perigoso que exige o rufar absurdo do tambor – deixarmos de ser o que não somos, para aprendermos a ser o que não queremos ser. “ O palhaço pensa então, em encarnar, não a pele do Palhaço Pobre, mas o próprio público. Levanta-se e, ao sair, olha-se no espelho, capta um débil simulacro de sorriso deslizando nos seus lábios. Fecha a porta sem ruído e, em bicos de pés, dirige-se para a tenda do Circo.

Enquanto caminha a passos largos em direcção do enorme recinto de lona, cantarolando baixinho, a ideia que momentos antes se apoderou dele, começa a tomar forma, cada vez mais distintamente. “Em vez de risos e aplausos receberás sorrisos. Pequenos sorrisos de satisfação – e é tudo. Mas é justamente o próprio tudo...mais do que alguém pode pedir. Ao colocares um espelho em frente do público, aliviarás as pessoas dos seus fardos. Isso torná-las-á felizes, mas a ti tornar-te-á ainda mais feliz.” Mal pode esperar pela entrada em cena, tão desejoso está de pôr o seu plano em execução. “Esta noite, darei um espectáculo como nunca se viu. Morrerá o Palhaço Pobre, para nascer um novo ser...um ser humano.”

E agora, senhoras e senhores; meninos e meninas! Para o vosso prazer e entretenimento, este Circo tem a honra de apresentar...o Palhaço Pobre!

Alguém envolto numa capa, entra com uma furiosa impaciência sob o foco do projector, acompanhado pelos guinchos do violino. A partir do momento em que os seus pés afloram a areia e a serradura da pista, deixa cair a capa (não premeditara qualquer acto, muito menos o ensaiara). Naquela pista, encontra-se um homem, nu, indefeso, velho, enrugado nas faces, peles descaídas, calvo, simples, erguendo sobre si um ar sonâmbulo. O público, porém, não ri e nem sequer sorri. A pouco e pouco, murmúrios vão quedando-se sobre as bancadas até formarem um grito selvagem uniforme. O público não gosta. Gritos, lama, pedras, urgem em direcção do palhaço transformado em homem. Bem pequena é a compreensão do público! Bem pequena é a compreensão de qualquer um quando o nosso destino está em jogo. É nesta raiva que o homem, se apercebe que ser palhaço é ser o peão no xadrez do destino. Na pista, a vida não passa de um mudo espectáculo feito de cambalhotas, bofetadas, pontapés – um nunca acabar de fintas e contra-ataques. O idolatrado palhaço! O bem-amado palhaço cujo privilégio especial consiste em reviver os erros, as loucuras, as idiotices, todas as incompreensões que afligem a espécie humana. Ele cometeu o erro de avançar para dentro do espelho, em vez de torneá-lo. “Meu Deus, e pensar que um homem pode armar tais ratoeiras a si próprio! Hoje muito feliz, amanhã miserável! Que idiota”. Porém, o público não para de querer agredir o homem, como se quisesse partir o espelho de si próprio. O palhaço convertido em homem, tenta sair da pista, mas por todo o lado vê o povo enraivecido. Ao ver o escadote, lança-se sobre ele, subindo freneticamente, e sem fôlego. Não demora muito a que este seja tomado por um estado de cansaço. Vê um anjo caminhar para ele – é o anjo da libertação. Vai lançar-se-lhe nos braços, quando uma nuvem escura o desequilibra e o derruba. Sem rede, e sem um gemido sequer, o homem e o palhaço caem, ambos, no chão de areia e serradura. Ouve-se uma prolongada explosão de risos. Os espectadores berram, batem os pés, assobiando. Ao ver o público a rir e a aplaudir, o mestre-de-cerimónias grita:

Senhoras e senhores! Meninos e meninas! Como é tradição neste Circo, o espectáculo tem de continuar! Que venham agora os ilusionistas...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em março 28, 2005 06:53 AM
Comentários

EXCELENTE!

Antes de ter ido de férias (caso raro, mas aconteceu!) dediquei algum tempo a ler as coisas aqui no VOID... o que mais me surpreendeu foi os textos "desta" Paula. Imprimi uma data deles (fantasiei teatralmente com eles, posso dizê-lo), li-os a todos, são fascinantes... "Esta" Paula porque nunca ouvi falar nela nem na obra que tens citado... mas indiscutívelmente, acho brilhante!

Dá-me imenso prazer lê-lo!

Podias dar-me informações sobre ela e sobre a obra?

Beijinho!
Eu vou aparecendo de vez em quando!

NN

Afixado por: NN em março 28, 2005 10:28 AM