
O padre Ernesto, que esteve a rezar cerca de meia hora, levanta-se, benze-se e abre a porta do quarto para se dirigir ao escritório da casa sacerdotal. Irene, a jovem encarregada da limpeza e da cozinha, diz-lhe no corredor:
- A dona Esther já está à sua espera no escritório.
- Obrigado, Irene - responde o padre, apressando o passo e, por alguns instantes, os seus olhos detêm-se no corpo esbelto e voluptuoso da jovem.
Efectivamente, na salinha que faz as vezes de escritório, está uma mulher volumosa, de uns quarenta anos, vestida de preto e com os olhos injectados de sangue. Levanta-se para o cumprimentar.
- Boa tarde, padre.
- Boa tarde, filha, senta-te.
O sacerdote instala-se numa confortável poltrona diante dela, abre os braços e diz numa voz afectuosa e amigável:
- Bom, diz-me em que te posso ajudar.
A voz da mulher é apagada, ténue, muito fraca, revelando uma enorme fadiga e longas noites de insónia.
(...)
- Estou desesperada, padre, já não aguento mais.
- O que se passa?
Ela abre a carteira, tira um lenço creme e limpa as lágrimas.
- Aviso-o de que não quero que ninguém fique a saber disto, padre, não quero um escândalo, nem que a minha casa se transforme num foco de bisbilhotices e mexericos.
- O que me contares não sairá destas quatro paredes.
- Não quero andar por aí nas bocas do mundo.
- Bem, que se passa?
- Comigo nada, padre, é com a minha filha.
- Quantos anos tem ela?
- Acabou de fazer quinze. É uma beleza.
- Tem irmãos?
- Não, padre, é filha única.
- Tem uma boa relação convosco?
- Vivemos as duas sozinhas, padre. O senhor sabe como são os homens, vão semeando filhos e depois abandonam-nos sem que ninguém os condene.
- É uma rapariga ajuizada, sossegada?
- É um anjo, padre, se o senhor a visse... As freiras do colégio não se cansam de a elogiar.
- Então qual é o problema?
A expressão da cara da mulher transforma-se, ela abre os olhos, cora, franze a testa de uma maneira quase cómica, burlesca, e diz:
- As vozes, padre, as vozes...
- Que vozes?
- A minha menina está possuída por vozes que falam de coisas horríveis.
- Como?
- Pessoas malignas, espíritos do mal, padre, que falam através dos lábios da minha menina.
- Não a compreendo - diz o sacerdote, franzindo o sobrolho.
- É quase sempre à noite, quando se vai deitar. As pessoas entram dentro dela e começam a dizer obscenidades, a insultar, a prever factos terríveis.
- A senhora está a dizer-me que a sua filha está possessa?
- Por demónios, padre, por espíritos que vêm do inferno.
- Como é possível?- pergunta o padre Ernesto, agitando os braços e a cabeça negativamente.
- Sim, padre, tem de a ver com os seus próprios olhos.
- Já não existem possessões neste século, senhora. Tem de a levar a um hospital para que lhe façam exames neurológicos e psiquiátricos.

Chegam diante de uma casa colonial localizada no centro de uma ruela mal iluminada. Uma trepadeira cobre uma grande parte da fachada principal.
- É aqui - diz a mulher, metendo uma chave na fechadura de uma porta de madeira.
Assim que atravessa o umbral, o padre Ernesto sente o aroma delicioso de um conjunto de flores vistosas que brilham com a pouca luz que chega até ao jardim interior da residência. A seguir descobre o cheiro exalado pelas paredes, pelos tectos e pela madeira das portas e dos móveis que decoram o local. Reconhece esse odor porque é o mesmo que se respira em mosteiros e conventos, em museus, nas câmaras municipais rurais, nas velhas herdades esquecidas e em certos recantos da sua própria igreja quando desaparece o efeito dos detergentes e dos desinfectantes. Finalmente, quando vai subido as escadas que levam ao primeiro andar, o seu olfacto regista um cheiro nauseabundo e desagradável: o cheiro das canalizações subterrâneas, o das águas negras que viajam pelos esgotos interiores da cidade, um cheiro a fedores corporais acumulados, urina, excrementos, vómitos, sémen e fluxos menstruais. São tão intensas aquelas emanações que vêm de cima que o padre Ernesto sente um ardor no interior dos olhos. E é nesse momento que tem um pressentimento, um palpite, a suspeita de que uma presença anormal está com eles dentro de casa.
(...)
Dona Esther pára diante da porta de um dos quartos do primeiro andar, respira profundamente e diz:
- Vou deixá-lo sozinho com ela, padre. A esta hora já está deitada.

Ela volta-se e desce as escadas sem olhar para trás. O padre Ernesto abre a porta e respira um ar pestilento, húmido, como se estivesse a entrar de repente num buraco de imundícies, numa cloaca imunda ou num dos mais sujos recantos do inferno. Sente vontade de vomitar mas consegue controlar o seu corpo pouco a pouco, inspirando devagar com a boca semiaberta, descontraindo o corpo, acostumando-se às rajadas fétidas e pestilentas. Fecha a porta e senta-se na única cadeira que há no quarto. Na cama, deitada de barriga para cima, está a rapariga com uma camisa da noite branca que a cobre até aos tornozelos.
(...)
- Agrado-lhe, padre? - diz de repente uma voz aflautada, felina, e a jovem ergue as pálpebras deixando a nu uns cintilantes olhos azuis.
- A tua mãe quer que conversemos.
- Não respondeu à minha pergunta.
- És muito bonita - garante o padre com calma, sem grande convicção, tirando importância ao que está a dizer.
- Deseja-me?
- Não vim ofender-te, filha.
- Sei que lhe agrado, padre, que quer tocar-me, acariciar-me.
- Estás enganada.
- Aproveite padre, toque-me onde quiser.
- Não me insultes dessa forma. Lembra-te que sou um sacerdote.
Ela sorri com uma careta perversa e a voz que o padre Ernesto ouve a seguir é grossa, varonil, como se um homem adulto tivesse acabado de entrar no quarto e estivesse também na cama, junto dela.
- Qual sacerdote qual carapuça, cão lascivo, verme asqueroso.
Um arrepio percorre as costas do padre Ernesto de cima a baixo.
- Pensas que não sei quem és? Achas que me vais enganar com os teus sermões piedosos? Olha o que vou fazer para ti, porco.
A rapariga levanta a camisa da noite até ao umbigo, mete a mão numas cuecas pequenas e insinuantes e acaricia o sexo com os dedos da mão direita.
- Preciso de um homem, padre - a voz torna a ser a de uma jovenzinha delicada.
- Já chega - diz o sacerdote com a voz agitada.
Ela tira a mão e explode numa gargalhada grotesca.
- Eu sei quem és, porco - continua a dizer a mesma voz.
- Não sei de que estás a falar - afirma o sacerdote transtornado, enjoado, com o estômago agitado.
- O pedacito de carne que tens entre as pernas dá-te trabalho, hã?
- Cala-te!
- Por aí ofendes a tua fá, hã?... Cabrãozinho libidinoso...
(...)
A voz grossa volta a surgir e termina dizendo:
- Filho da puta, criminoso, és um cachorro cheio de pecados.
O padre Ernesto não aguenta mais, levanta-se e, com um salto, chega até à porta, abre-a e sai do quarto com falta de ar, chorando. O pior é que, ao fechar a porta, repara numa forte erecção que lhe levanta as calças e que as avoluma de uma forma vergonhosa, contra a sua vontade.
(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografias: William Ropp)
Com este post concluo a apresentação de excertos de "Satanás". Espero que tenham gostado e que as minhas escolhas tenham sido suficientemente significativas para vos atrair para a leitura integral da obra. Um abraço a todos :)
eu gostei mto do que li. se encontrar o livro, tentarei comprá-lo. um grande abraço :)
Afixado por: dina em março 27, 2005 09:04 PMEsta série "Satanás" esta excelente, forte consistente. Aborda a decadência moral, e institucional que tantas vezes é alvo do mediatismo actual. Desconhecia a obra.
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Desejo-te um bom resto de Domingo e um beijinho, Sandra.
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