
- Tenho medo, padre.
- Porquê?
- Estou a enlouquecer.
- Que se passa?
- Tenho pensamentos atrozes.
- Conta-me.
- Não tenho perdão.
- Deus é infinitamente misericordioso, filho, o seu perdão não tem limites.
A igreja está vazia, sem o ruído de passos e de murmúrios provocado pelos paroquianos ao longo da nave central. Uma luz ténue entra pelos vitrais do tecto e espalha-se em brilhos multicolores que dão ao lugar um ar de irrealidade, como se se tratasse de uma imagem onírica, sonhada, e não de objectos e de lugares palpáveis e reais. O padre Ernesto está sentado no confessionário e a voz que lhe chega revela angústia e desespero, noites de insónia, medo de si próprio, uns nervos prestes a explodir e uma mente que roça o delírio e a demência de forma perigosa. (...)
- Confia em Deus, filho.
Ouve-se do outro lado uma respiração entrecortada, afogada, difícil. Finalmente, o homem decide falar:
- Não sei o que me passa pela cabeça, padre, não me reconheço, este não sou eu.
- Conta-me pouco a pouco.
(...)
- Tudo começou com a perda do meu trabalho, padre. Fiquei sem emprego e foi-me impossível encontrar outro, os meses passam e nada, não havia uma vaga em lado nenhum, algumas horas de trabalho, uma colocação temporária, nada. Perdemos o apartamento onde vivíamos e penhoraram-nos os móveis, a roupa, os electrodoméstivos, tudo. Fomos viver para casa dos pais da minha mulher com as duas meninas. Pode imaginar o que foi aquele pesadelo, as brigas, as discussões, as lutas de manhã à noite.
- Sim, filho, compreendo.
- O meu sogro morreu e toda a família dizia que tinha sido por nossa culpa, que o venho tinha morrido porque já não aguentava. Passado um mês, morreu a minha sogra de tanto desgosto. A minha mulher disse-me no dia do funeral: "Tu mataste-os, deixaste-me órfã."
- Frases que se dizem por impotência, filho, com zanga e irritação.
- Depois veio a fome, padre, a fome física, as dores de estômago das minhas duas filhas, a anemia, a desnutrição, as constipações recorrentes, a falta de sono. A minha mulher disse que não pensava deixar morrer as filhas de fome e foi para a praça do mercado mendigar, apanhar do chão frutos podres, verduras esmagadas, pedaços de pão esquecidos.
- Sinto muito, filho.
- E agora cheguei ao limite, padre. Tenho sonhos que me visitam até de dia, assim que fecho os olhos. Quero libertar a minha mulher e as minhas filhas do sofrimento, não desejo mais dor para elas.
- Acalma-te.
- Quero matá-las, padre. Vejo-as a toda a hora manchadas de sangue, esfaqueadas pela minha mão. Cheguei a passear pela casa durante a noite, tremendo, febril, invadido pela vontade de matar. Entende-me, padre?
- Não te assustes, filho. Deus não permitirá uma coisa dessas.
- Quero assassiná-las, padre, mas por amor, porque não quero que continuem a sofrer desta maneira. Tenho de as ajudar, de as libertar deste horror.
- Vamos rezar juntos, filhos, vamos pedir por ti e pela tua família. Deus ouvir-nos-á.
O padre Ernesto entoa uma prece e depois repete um Pai-Nosso e uma Ave-Maria acompanhada pela voz do homem. Depois pergunta:
- Estás arrependido, filho?
- Não sei, padre, não sei se estou arrependido. Já lhe disse que tudo o que me vem à cabeça é por amor.
- Para que Deus te perdoe, tens de estar arrependido.
- Pois...
(...)
O que precisa fazer é arranjar quanto antes um trabalho àquele homem, seja no que for, e, entretanto, recorrer aos fundos de emergência da igreja e da caridade alheia para arranjar um sustento que permita às suas duas filhas, à mulher e a ele próprio, alimentar-se e recuperar da inanição e da doença. Depois será muito mais fácil derrotar aquela força maligna que se apoderou do seu espírito, aqueles instintos criminosos disfarçados de bondade e benevolência.
Uma mulher obesa que vem a subir pela mesma rua levanta a mão direita pedindo-lhe para parar e diz-lhe com a voz alarmada e inquieta:
- Que sorte encontrá-lo, padre.
A expressão faz o padre Ernesto sorrir.
- A mim?
- Sim, padre.
- E pode saber-se porquê?
A mulher recupera o fôlego e diz-lhe:
- Estão à sua procura por toda a parte Acaba de me dizer a minha filha.
- E quem precisa de mim com tanta urgência?
- As pessoas estão reunidas na igreja.
- A missa é só às sete - diz o padre Ernesto, perplexo.
- Estão à sua espera há uma hora.
- Mas o que aconteceu?
- É melhor ir depressa, padre.
(...)
O padre Ernesto passa por entre o povo sem cumprimentar ninguém e entra na igreja com a suspeita de saber quem o espera dentro do recinto sagrado. Ajoelhado diante do altar com a cabeça inclinada sobre o peito e com uma faca ensaguentada no chão a poucos centímetros dele, um homem magro e encurvado parece estar a afogar-se na torrente do seu próprio pranto.
(Mario Mendoza- SATANÁS. Edição: Temas de Debates. Fotografia de William Ropp)