
[deste lado da morte ninguém responde]
fazia nós no outono. o eco genital de Deus a abrir avessos. um sangue muito branco falava na água da pele. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondia.
árvores todas caiam os braços. o deserto escorria no lugar da pele. um lençol cheio de silêncio respondia pelo mundo. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém respondeu.
o dia não sabia se existia. uma canção de barco abria feridas no tempo. as janelas diziam dezembro, dezembro, e a primavera tinha sido ontem por fora. é aqui o meu corpo, perguntei, mas deste lado da morte ninguém responde.

morte que tens o nome dos meus dias: saberás ler em sangue ou em sânscrito? que desespero corpo precisas para te abrir os ouvidos de tempo? que perguntas batem na tua pele de silêncio, mais altas que as línguas que cantavam os que tens no seio?
morte que tens o nome dos meus dias: é tarde demais para mim; não tenho sonhos para tu levares, nem água nenhuma me pesa os ossos mais do que sede. o que pode vencer-te, guardas nos teus braços - o que guardei nos meus braços, e partiu porque nunca me pertencia.
morte que tens o nome dos meus dias: apenas o teu eco responde pelo visível. as escarpas do mistério, demasiado luz, não têm palavras para me rasgar. tudo o que tenho está na tua língua, e à porta do século que abriste, o batimento das sombras ensurdece o mar onde respiro.
morte que tens a forma dos meus dias, o nome por onde sigo: ouves o corpo que contigo se deita, lua depois de lua, e grita branco o teu sono? a bordo deste texto segue uma mentira, de carne rebentada de silêncio. ouve-me antes que seja tempo demais para que eu não te ame.
do outro lado dos meus dias, vejo-te: somos só um, atravessando palavras enquanto nascem Deus e o seu tempo; dos meus ossos uma música traz os minutos todos como um fogo. arde comigo, antes que o esquecimento, que tu ignoras, nos separe.
morte, minha materna morte: faz-me o poema onde aprenda a morrer. e, num texto corpo de silêncio, cria comigo o amor.
(Pedro Sena-Lino- DESTE LADO DA MORTE NINGUÉM RESPONDE. Quasi Edições. Fotografias de José Marafona)
que saudades tinha já deste subir de pano à boca de cena. um beijinho. mais uma sugestão que me parece irresistível. J. (do outro lado da Madrugada)
Afixado por: j.p. em março 24, 2005 05:24 PMNão conhecia. Gostei e vou querer ler mais.
Beijinho grande e uma excelente Páscoa para ti e para os teus. Esqueço-me sempre de te dizer, as fotografias são magnificas :) Beijos
Devo ter sido sugestionada pelo teu email, mas hoje coloquei algo que tem a ver com este tema. Mas, também estamos na época certa para meditar sobre o tema. Boa Páscoa para ti. Bjs
Afixado por: whitesatin em março 25, 2005 01:21 AM