Segue-se o segundo excerto da peça "As lágrimas amargas de Petra von Kant", da autoria de Rainer Werner Fassbinder, ontem anunciado. Um excerto que é aquele por mim escolhido para vos mostrar as grandes linhas orientadoras da relação entre Petra e Karin. Uma relação onde uma suposta "dominadora", afinal, não o é. Uma relação onde, pensando em termos de "domínio" e "submissão", há uma clara inversão de papéis. Petra fica emocionalmente dependente. Petra não se consegue libertar de pensamentos de põem em causa o fluir inquestionável da relação. Petra quer saber mais. Petra quer mais cumplicidade. Petra quer maior fusão. Petra deseja uma fusão real. Uma fusão efectiva. E por isso sofre. Sofre porque sente que algo (que é, afinal, muito) lhe escapa. Sofre porque não tem garantias. Sofre porque não consegue suportar a "anarquia" (?) emocional "imposta" por Karin. Sofre por aquela que é a liberdade vivida por Kartin. Pela inexistência de magnetismo vindo dela. E desmorona. E desmorona-se como pessoa. Fica presa. Enclausurada no interior de si numa luta tremenda com os seus sentimentos.
Estamos, de facto, perante uma relação que pode constranger quem lê (que somos nós). Estamos, de facto, perante uma relação que pode fazer sufocar: pela angústia e sofrimento que vemos pela parte de um ser humano. Um ser humano que pode ser/espelhar qualquer um de nós, num momento ou fase (inesperada) da nossa vida.

(A luz está acesa. É de noite. Petra corre no palco como uma galinha assustada enquanto se arranja. Marlène ajuda-a a abotoar a roupa, etc., e depois senta-se à máquina de escrever. Tocam à porta.)
PETRA
Marlène! Tocaram à porta, Marlène. Estou atrasadíssima. Abre, que eu vou já.
(Saem ambas. Passado um momento Marlène entra com Karin, indica-lhe um lugar, senta-se de novo à máquina. Karin levanta-se, vai a um espelho, fica a olhar-se demoradamente. Petra entra.)
PETRA
Karin! Que amável.
KARIN (volta-se devagar)
Boa noite, Frau von Kant.
(Petra aproxima-se dela como se fosse para a abraçar, mas detém-se antes de o fazer.)
PETRA
Sentemo-nos. Preparei umas coisas para comer. Marlène, podes servir! (Marlène sai.) Sim senhor. Ei-la aqui.
KARIN
Sim, eis-me. (Riem ambas.)
(...)
PETRA
(...) Onde vives agora?
KARIN
No hotel Rheingold.
PETRA
No hotel? Não é muito caro?
KARIN
Vinte e sete marcos com pequeno-almoço.
PETRA
Pois é. Não se pode aguentar muito tempo. Vens aqui para minha casa. É mais barato e... além disso é confortável.
KARIN
Sim? Eu...
PETRA
Não queres?
KARIN
Quero, quero. Receio é poder vir a aborrecê... a aborrecer-te.
PETRA
Conheço-me, Karin. Não me aborrecerás. Conheço-me. Sinto-me muitas vezes sozinha. Juntas estaremos bem.
KARIN
Se é assim que queres... muito bem. Realmente, eu...
PETRA
Amo-te. Amo-te, Karin. Amo-te. As duas juntas vamos conquistar o mundo. Não sei o que se passa comigo, apetece-me fazer-te festas, beijar-te... Eu (Abraça-a.)
KARIN
Eu também gosto de ti, Petra, gosto muito, mas tens de me dar tempo.
PETRA
Dou-te tempo, Karin. Tempo é o que não nos falta. Temos imenso tempo. Tempo para nos conhecer uma à outra. Havemos de amar-nos, Marlène, traz mais uma garrafa de champagne. (Marlène sai.) Ainda nunca, nunca, senti amor por uma mulher. Sou louca, Karin, louca! Mas é belo ser louco. É loucamente belo ser louco.
(...)
(É de manhã cedo, Karin ainda está na cama, Petra está a vestir-se. Marlène leva embora a loiça do pequeno-almoço que ficou junto da cama. Karin lê uma revista.)
(...)
(Marlène entra.)
PETRA
Os meus sapatos, depressa!
KARIN
Começo a achar que ela realmente tem pancada.
PETRA
Ela não tem "pancada", ela ama-me.
KARIN
Divirtam-se. (Marlène traz os sapatos.)
PETRA
Obrigada. (Marlène vai trabalhar.) Isso de deixar a escola é definitivo?
KARIN
O que é isso de definitivo? Já não aprendo mais nada.
PETRA
Aprende-se sempre qualquer coisa. Nunca se pára.
KARIN
Tu e as tuas sábias sentenças.
PETRA
Não é sabedoria, é experiência. Olha, eu telefono e peço desculpa por ti, e assim já podes lá voltar. Acho que é melhor para ti fazeres alguma coisa até ao fim. Acredita que vale sempre a pena.
KARIN
Se achas que sim.
PETRA
Sim, acho.
KARIN
Então está bem.
PETRA
Óptimo.
KARIN
Arranja-me um Gin-Tonic.
PETRA (prepara o Gin-Tonic.)
Bebes demais. Tem cuidado porque engorda.
KARIN
Vai-te lamber o cu.
PETRA
Olha que a tua figura é o teu capital, além disso não tens mais nada.
KARIN
Achas que sim?
PETRA
Não acho, sei. À nossa.
KARIN
À nossa.
PETRA (senta-se na cama ao lado de Karin e abraça-a.)
Amo-te.
KARIN
Eu também.
PETRA
Merda. Eu também, eu também!... Ora diz eu amo-te.
KARIN
Sim, sim.
PETRA
Vamos.
KARIN
Okey. Gosto de ti. Amo-te.
PETRA
Tens a pele mais bonita do mundo.
KARIN
Sim?
PETRA
Sim. E o mais bonito cabelo. E os mais bonitos ombros. E... e os mais bonitos olhos. Amo-te, amo-te, amo-te. Amo-te.
KARIN
Deixa-me, por favor.
PETRA
Porquê?
KARIN
Ainda não lavei os dentes.
PETRA
Não faz mal.
KARIN
Mas a mim incomoda-me. Vá lá. E ainda quero ler. Por favor.
PETRA
Okey. Deixo-te em paz. Se tens nojo.
KARIN
Não tenho nojo. Mas não se pode passar as vinte e quatro horas do dia a fazer marmelada.
PETRA
Pode.
KARIN
Ah, Petra.
PETRA
Poderia ficar eternamente abraçada a ti. Não sei por que és tão bruta comigo. Como se eu te tivesse feito algum mal, quando não há nada que eu não faça por ti.
KARIN
Não sou bruta.
PETRA
Para ti é simples. Limitas-te a dizer não sou bruta. Mas quando preciso de ti das-me com os pés. Karin?
KARIN
Sim?
PETRA
Posso... Quero ficar mais um bocadinho ao teu lado.
(Karin não reage. Petra senta-se na borda da cama. Passado um momento começa a fazer festas a Karin.)
PETRA
Onde é que foste ontem à noite? (Karin não responde.) Karin?
KARIN
Sim?
PETRA
Perguntei onde é que foste ontem à noite.
KARIN
Fui dançar.
PETRA
Até às seis da manhã?
KARIN
E que mal tem?
PETRA
Não há nenhum sítio que esteja aberto até tão tarde.
KARIN
Não?
PETRA
Não. Com quem foste "dançar"?
KARIN
O quê?
PETRA
Perguntei com quem foste dançar?
KARIN
Com um homem!
PETRA
Ah sim?
KARIN
Sim.
PETRA
Que homem?
KARIN
Um preto muito grande, com uma grande picha preta.
(...)
PETRA
Como era o homem?
KARIN
Na cama?
PETRA
Por exemplo.
KARIN
Insaciável.
PETRA
Sim?
KARIN
Completamente. Podes imaginar as grandes mãos pretas na minha pele branca e macia. E... aqueles lábios! Bem sabes como os negros têm lábios grossos e quentes. (Petra leva a mão ao peito.) Vais desmaiar, caríssima? (Ri à gargalhada.)
(...)
KARIN
(...). Tínhamos prometido dizer sempre a verdade uma à outra. Mas tu não aguentas. Queres que te mintam.
PETRA
Sim, mente-me. Por favor, mente-me.
KARIN
Está bem. Então não é verdade. Levei a noite toda a passear sozinha e a pensar em nós.
PETRA
Sim? (Esperançosa.) É verdade?
KARIN
Claro que não. Fui mesmo para a cama com um homem. Mas não tem importância, ou tem?
PETRA (a chorar)
Não. Não - claro que não. Mas não percebo, realmente, não percebo. Porquê... porquê...
KARIN
Pára de chorar, Petra, por favor. Olha, eu gosto de ti, a sério, amo-te... mas... (Encolhe os ombros. Petra chora descontroladamente.) Era evidente que eu de vez em quando dormiria com um homem. Sou assim. Mas não nos prejudica em nada. Eu só me sirvo dos homens, não lhes dou mais valor do que isso. É só um divertimento. Palavra. Falaste sempre em liberdade e assim. Disseste sempre que entre nós não havia compromissos, ... Não chores! Olha, já sabes que eu volto para ti.
PETRA
Doi-me tanto o coração. Como se me tivessem enterrado uma faca no peito.
KARIN
Não faz falta doer, o coração. Nem eu nem tu precisas disso.
PETRA
Nem eu nem tu precisamos disso. Sujeitos no singular ligados por nem, obrigam ao verbo no plural se a acção pertence a ambos os sujeitos.
KARIN
Ah Petra. Claro que não sou tão inteligente como tu, nem tão educada. Sei isso muito bem.
PETRA
És bela. Gosto muito de ti. Doi-me tudo, de tanto gostar de ti. Meu Deus, meu Deus. (Vai arranjar uma bebida.) Queres outra?
KARIN
Não, tenho que ter cuidado com a linha.
(...)
PETRA
Era mesmo negro?
KARIN
Sim. Porquê?
PETRA
Só para saber.
KARIN
Ele era mesmo giro, também terias gostado dele. Não era bem preto, era mulato, e com um rosto mesmo inteligente. Há negros assim, com um rosto mesmo europeu, não há?
PETRA
Sim? Não sei.
KARIN
Há, há. Este era um deles. Contou coisas muito giras, da América e assim.
PETRA
Por favor, Karin. (Desata a chorar novamente.)
KARIN
Pronto, eu calo-me. Pensei que já tínhamos arrumado o assunto.
PETRA
Escusas de ficar a sonhar com ele. (Arranja nova bebida.)
KARIN
Tu também bebes que te fartas.
PETRA
É só o que me resta.
KARIN
Não exageres, caramba. Estás mesmo histérica.
PETRA
Não estou histérica. Sofro.
KARIN
Ora, se sofres é porque te faz bem.
(...)
PETRA
Eu preferia ser feliz, Karin, acredita. Preferia mil vezes ser feliz. Tudo isto dá cabo de mim.
KARIN
O que é que dá cabo de ti?
(...)
PETRA
Tu. Tu dás cabo de mim. Porque nunca sei por que razão estás realmente comigo, se é porque tenho dinheiro, porque te dou uma chance ou porque... porque me amas.
KARIN
Claro que é porque te amo. Merda.
PETRA
Ah, pára com isso. Ninguém aguenta tanta incerteza.
KARIN
Se não me acreditas...
PETRA
O que é isso de acreditar. Não tem nada a ver com acreditar... É claro que acredito que me amas. Claro. Mas não sei nada. Não sei de verdade. E é isso que dá cabo de mim. É só isso.
(...)
PETRA (vai e abraça Karin.)
Amo-te, não posso fazer nada contra isso. Não posso. Preciso de ti Karin. Preciso tanto de ti. (Ajoelha-se, abraça as pernas de Karin.) Farei tudo por ti. Só quero estar neste mundo por tua causa, Karin. Só te tenho a ti. Eu... eu... fico tão sozinha sem ti, fico tão sozinha, Karin.
(...)
(Petra está sozinha no palco, tropeça num tapete, etc, já está bêbada. O pick-up toca "The great pretender" dos Platters. Ela canta, dança, ao som do disco. Prepara uma bebida. O telefone toca. Petra corre a atender.)
PETRA (ansiosa)
Está? Não, não é von Kant. (Atira com o auscultador, senta-se numa poltrona, bebe. O telefone volta a tocar, ela atende, rápida. Esperançada.) - Sim? Não, não, não, não. (Desliga.) Oh, odeio, odeio, odeio-te. Odeio-te. Odeio-te Quem me dera morrer. Desaparecer. Estas dores. Não aguento. Eu... eu... não posso mais. Oh, meu Deus, porca de merda. Porca de merda nojenta. Hás-de me pagar. Dou cabo de ti. Acabo contigo. Hás-de rastejar a meus pés, filha da puta. Hás-de beijar-me os pés. Ah, que merda. Meu Deus, que fiz eu para merecer isto? Que fiz eu. (O telefone toca.) Karin? (Desliga.) Amo-te. Não sejas tão má, Karin! Merda, merda. Preciso tanto de ti. Telefona, ao menos telefona. Quero ouvir a tua voz. (Chora, vai até ao bar, prepara uma bebida.) Não te custava nada telefonar. Só telefonar. Não custava nada. Mas a porca nem sequer pensa nisso. (...)
(...)
(Rainer Werner Fassbinder- AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Peça editada pelas Edições Cotovia. Fotografia de China Hamilton)
uma palavra? Adorei*
Afixado por: Ana em março 22, 2005 10:09 AMAdoro esta peça, acho simplesmente divina.
Afixado por: Lilia em março 22, 2005 10:22 AMMt bem... Cá está o Fassbinder com uma das peças q eu mais venero... :) Obrigado pelos excertos escolhidos (a Petra é fascinante), e DESCULPA n ter cumprido com o dever de aparecer assíduamente, mas o trabalho chama-me a todas as horas e nem sempre tenho o tempo e a disposição de aparecer.
Porém, sempre que puder darei um saltinho!
Beijo!
NN
Afixado por: NN em março 24, 2005 01:05 AM