março 21, 2005

EM CENA: AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (1)

Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) é o dramaturgo que vos trago hoje. Dramaturgo mas também actor, encenador e realizador. Um impulsionador do Cinema e Teatro na/da Alemanha.
A peça que seguidamente apresento o primeiro excerto é a prova do importantíssimo trabalho desenvolvido pelo autor ao nível da dramaturgia. Uma peça datada dos inícios do anos 70 do Século XX (1972) que aborda a relação entre duas mulheres. Mas uma peça que aborda a realidade (ou determinada realidade) da burguesia, da classe média do mundo Ocidental. Em concreto, e neste caso, com as devidas adaptações às personagens e ao seu meio: problemas relacionados com o casamento, com o papel do homem e da mulher na sociedade, com o trabalho e com as relações entre as pessoas que nesse mundo vivem e nesse mundo se cruzam.
"As lágrimas amargas de Petra von Kant", peça adaptada ao Cinema, incide sobre uma relação lésbica. Mas incide, da mesma forma, naquele que é o percurso de vida, forma de pensar, ser e estar da sua personagem principal: Petra. É uma peça que no relacionamento, sobretudo, entre três mulheres (Petra, Marlène e Karin- três da totalidade das personagens femininas) regista modelos de submissão, poder e anarquia. De sublinhar que o que parece uma garantia à partida, nem sempre assim se mantém. E é esse evoluir que dá um toque tão especial ao enredo.
Portanto, estamos perante uma peça que recomendo vivamente a leitura integral. Como disse: hoje edito um primeiro excerto, que versa num diálogo entre Petra e a sua amiga Sidónia sobre o casamento e divórcio da primeira (casamento este que é já o segundo). Amanhã, far-vos-ei chegar o excerto onde a abordagem da relação de Petra com Karin se dá.
Espero que gostem e desfrutem de toda a riqueza inerente.

Personagens:

Petra von Kant
Valéria von Kant, sua mãe
Gabriela von Kant, sua filha
Sidónia von Grasenabb, sua amiga
Karin Thimm, sua amante
Marlène, sua empregada

(...)

(Marlène entra com Sidónia de Grasenabb.)

SIDÓNIA
Queridíssima!

PETRA
Sidónia, querida!

SIDÓNIA
Petra! (Abraçam-se.)

PETRA
Meu Deus, há quanto tempo...

SIDÓNIA
Três anos, caríssima. Três anos. Como o tempo passa. Tu estás óptima. Tremendamente bem. Como é que consegues?

PETRA
Não me ficas atrás em nada, minha querida, em juventude, em beleza, em nada, mesmo.

SIDÓNIA
E o Frank? (Petra faz-lhe sinal para mudar de assunto.) Li as notícias. Na Austrália, imagina! E disse ao Lester, coitada, olha a sorte que teve. Nós tínhamos-te prevenido acerca desse homem.

PETRA
A experiência, Sidónia, tem de ser acumulada pelo próprio. Acredita, sinto-me feliz por ter vivido o que vivi. O que nós aprendemos ninguém mais nos pode tirar. Pelo contrário. A experiência amadurece-nos.

SIDÓNIA
Não sei, Petra, quando o fim já se está a ver desde o princípio será que a experiência vale a pena?

PETRA
Faz um café, Marlène. Ou preferes chá?

SIDÓNIA
Café está bem.

PETRA
Já tomaste o pequeno-almoço?

SIDÓNIA
Já, obrigada. Apanhei o avião cedinho de Frankfurt para cá. Estava morta por saber como é que te aguentavas. Se sofrias, ou...

PETRA
Ora, Sidónia, as pessoas evoluem. Antes... sim antes era diferente, é verdade. Não saberia o que fazer. Passar uma tal vergonha... Acreditei tanto no que ele tinha de bom. Mas no casamento os pontos fracos é que surgem ao de cima.

SIDÓNIA
Não sei, com o Lester...

PETRA
Desculpa. Mas vocês viajam tanto que não chegam a ter tempo para se conhecerem de verdade. Agora o Frank e eu estávamos dia e noite um com o outro, sempre, ininterruptamente, e eu sempre a recear pela minha existência. Assim fica-se mesmo a saber de que matéria é feito o outro... Desculpa, não queria ser amarga, mas esse homem e eu podíamos ter tido algumas possibilidades. Boas possibilidades. A sorte não permitiu.

SIDÓNIA
Ainda pensas nisso?

PETRA
Não, Sidónia, penso nas possibilidades que realmente houve, mais nada. Acredita que é triste reconhecer que os defeitos de alguém têm mais peso do que as suas qualidades.

SIDÓNIA
Vocês discutiram, ou quê?

PETRA
Discutir? Não propriamente. O que havia era um frio, sabes, a pessoa sente-o e... Olha, tu estás com alguém no carro, ou no quarto, e apetece-te dizer qualquer coisa, mas tens medo. Apetece-te ser meiga, mas tens medo. Tens medo de perder um ponto, de te tornar mais fraca. É terrível quando alguém já não pode fazer marcha atrás consigo mesmo.

SIDÓNIA
Creio que percebo. Confusamente, mas...

PETRA
Sei o que vais dizer agora. Que o mais inteligente deve ceder, por exemplo. Ou... Não, Sidónia, em matéria de relações humanas, quando a carroça se atola em merda ninguém é capaz de a tirar de lá.

SIDÓNIA
Não pode ter sido assim durante três anos.

PETRA
Claro que não. Houve momentos tão belos que... momentos em que se esquece tudo, tudo, como se se pudessem resolver todas as dificuldades, como se se pudesse encontrar uma base de entendimento, que... ora, a carroça estava atolada em merda.

SIDÓNIA
Pobre de ti! Coitada!

PETRA
As coisas são fáceis de lamentar, Sidónia, mas mais difíceis de compreender. Quando compreendo não devo lamentar, pois posso mudar o que compreendo. Só devo lamentar a sério o que não compreendo.

SIDÓNIA
Já vejo que essa coisa toda fez de ti uma mulher dura. É pena, as mulheres duras sempre me desagradaram.

PETRA
Pareço dura porque uso a cabeça. Não estás habituada a que as mulheres pensem. Pobre coelhinha.

SIDÓNIA
Petra! Por favor!

PETRA
Desculpa, não te quis ofender. Quero só que oiças realmente o que te estou a dizer e que não aprecies com um juízo já feito o que acabei de contar.

SIDÓNIA
Certo. Entendo a tua amargura. Foi ele... que pediu o divórcio?

PETRA
Não, fui eu.

SIDÓNIA
Não foi ele? Foste tu... meu Deus.

PETRA
Espanta-te, não é? A coitada da Petra, a desgraçada que não queria deixar o marido, que parecia desesperadamente apaixonada, quase escravizada, foi ela que pediu o divórcio, que horror não é?

SIDÓNIA
Ele...

PETRA
Não, ele não me enganou. De resto para mim o adultério nunca teria sido motivo de separação. Pela parte que me tocava a relação era saudável. Nós dávamos muita importância ao prazer e nenhuma à fidelidade: quer dizer à fidelidade forçada. Intelectualmente éramos verdadeiramente fiéis um ao outro. Não, as coisas correram mal por outras razões. Claro, quando a relação se estraga vem o nojo, ou o ódio. Mas isso não deve ter nada a ver com o que se passava à nossa volta, com as outras pessoas, ou... (Marlène entra, serve o café.) Obrigada.

SIDÓNIA
Obrigada.

PETRA
Agora põe-te a desenhar, por favor. É urgente.

(Marlène continua a desenhar.)

SIDÓNIA
Podemos...?

PETRA
Marlène? A Marlène está comigo há três anos. A Marlène ouve tudo, vê tudo, sabe tudo. Com a Marlène não é preciso ter cuidado.

SIDÓNIA
Óptimo. Continuemos. O que foi então que vos fez tão opostos, tão doentes?

(...)

PETRA
Nós queríamos ser felizes um com o outro. Percebes? Um com o outro. Para isso não havia nenhum exemplo anterior que já tivesse resultado, que eu pudesse seguir.

SIDÓNIA
Mas então o que foi que aconteceu que levou à repugnância? Com tanta clareza, tanta compreensão?

PETRA
O sucesso, por exemplo. O sucesso que fui eu que tive, e que o Frank esperava para ele, de que ele precisava, de facto. Foi assim que começou. É tão simples como isso. Sim.

SIDÓNIA
Sim. Desculpa! O sucesso não é razão para...

PETRA
Os homens! E a sua vaidade! Ah, Sidónia. Ele queria encher-me de mimo, tomar conta de mim. Sustentar-me. Sim, ele levava o seu papel a sério. É verdade que respeitava a minha opinião, mas no entanto queria sustentar-me. É por este desvio que a opressão se instala. E o que acontece é o seguinte: oiço o que tu dizes, percebo-te, mas... quem é que ganha o dinheiro, quem é que anda a foçar? Aí tens, há duas medidas! Ah, minha cara. Ao princípio era assim: o que tu ganhas, minha linda, põe-se numa conta especial, servirá mais tarde para comprar uma casinha, ou um carro mais rápido ou coisa do género. Concordei, disse que sim, porque... ele era tão meigo, Sidónia, e quantas vezes o amor que se desprendia dele me arrebatou até ao êxtase, me deixou sem respiração, tal era a felicidade... Depois, quando ficou sem trabalho... De início era quase cómico ver o seu ridículo orgulho ferido, e para ser franca eu até gozei com isso, pensando que ele próprio sabia que o seu comportamento era ridículo. Mas não sabia. E quando mais tarde eu tentei esclarecer as coisas, dizer-lhe que para mim não fazia diferença um homem estar ou não estar no topo, já era tarde demais. Mal surgia este tema ele ficava de pedra, Sidónia, uma muralha. E então, pouco a pouco, começou a morrer a dignidade. Vi que me tinha enganado com ele, e comigo, e decidi acabar. Acabar com o meu amor por ele. Os últimos seis meses foram horríveis, acredita, horríveis! É claro que ele reparou que tudo tinha acabado, ou pelo menos desconfiou. Mas não levou a bem. E não procedeu com muita inteligência. Já que não conseguia prender a mulher em tudo, tentou ao menos na cama. Então surgiu o nojo. Ele foi usando a técnica, a força. Deixei-o, fui aguentando, mas a verdade é que o achava um porco.

SIDÓNIA
Petra!

PETRA
Cheirava mal! Cheirava a homem. Tal e qual como os homens cheiram. O que antes era para mim tão atraente... agora enjoava-me, dava-me vontade de chorar. E a maneira como ele me possuía...

SIDÓNIA
Não, Petra! Por favor.

PETRA
Agora ouves a história até ao fim. Ele montava-me como o touro monta a vaca. Sem a menor atenção, sem se preocupar com o meu prazer de mulher. As dores, Sidónia, as dores, nem podes imaginar. E quando eu, mesmo assim, às vezes... que vergonha! Que vergonha. Tive tanta vergonha. Ele a julgar que eu gritava de amor, de gratidão. Era mesmo estúpido, estúpido. Os homens são muito estúpidos.

SIDÓNIA
Coitada, coitada de ti! Como sofreste.

PETRA
Não preciso da tua compaixão. Ele... ele teria precisado da minha. Compreensão, bondade, compaixão, quando já nada mais é possível. Eu não tinha mais nada a oferecer-lhe. As coisas iam de mal a pior. Quando comíamos juntos, o seu mastigar parecia-me o barulho duma explosão, o engolir - não consegui aguentar mais. Nem a maneira como ele cortava a carne, nem a maneira como comia a salada, segurava o cigarro, ou o copo de whisky. Parecia-me tudo tão ridículo, tão... afectado. Sentia vergonha por ele, porque me parecia que todos os que o viam reagiam como eu. É claro que isso tinha o seu quê de histeria, de pânico. Já não havia nada a fazer, Sidónia. Era o fim. Estava tudo acabado. (Silêncio.) Sinto-me envergonhada.

SIDÓNIA
Não tens nada que sentir. Procuraste aprender. Procuraste compreender o que se passava. Eu...

PETRA
Acho que o homem é feito de tal maneira que precisa dos outros, mas ainda não aprendeu como se vive com os outros. (Tocam à porta.)
Marlène!

(Marlène levanta-se, vai abrir.)

SIDÓNIA
Deve ser a Karin.

PETRA
Karin?

SIDÓNIA
É uma jovem encantadora. Conhecia-a numa viagem de barco, de Sidney para Southampton. Quer arranjar trabalho na Alemanha.

(Marlène entra com Karin.)

SIDÓNIA
Karin?

KARIN
Olá.

SIDÓNIA
Esta é a Petra, Petra von Kant, de quem eu lhe tinha falado tanto.

KARIN
Bom dia.

(...)


(Rainer Werner Fassbinder- AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT. Peça editada pelas Edições Cotovia. Fotografia de China Hamilton)

Publicado por void em março 21, 2005 06:47 AM
Comentários

Não consigo resistir...

Quando há cerca de 30 anos, esta peça tornou-se cinema, estalou-se uma divina controvérsia. Milhares de pessoas apelidaram Fassbinder de misoginia (um insulto que se viria a juntar a muitos outros durante a década de 70). Parvos foram aqueles que reduziram toda esta panóplia de emoções às estereotipadas angústias de uma lésbica. Não...pois a utilização sincromática de mulheres tem, exactamente, o efeito de distanciar o leitor da situação, impedir que ele se deixe levar pelo romanceado melodramático, e levá-lo a ponderar na sua própria vida, nas suas próprias relações pessoais e profissionais...

Petra domina...vive fechada na sua casa de bonecas (no filme, o cenário é extremamente claustrofóbico, todo ele rodeado de bonecas/manequins). Ela é uma estilista famosa, embora cedo nos apercebamos que, quem trabalha, quem executa, quem cria, não ela, mas a sua fiel empregada/escrava Marlene. Marlene, é, no meu entender, a personagem mais fascinante. Não produz um único som durante toda a peça. Está presente em cada cena, a um canto, escondida, só surgindo à nossa luz, sempre que Petra a chama. Petra trata-a como um cão, como uma escrava, como alguém que não é necessário ter qualquer atenção. Ela ouve, faz tudo, e porquê, perguntará Karin mais à frente "Porque me ama!" responderá Petra. Aqui reside a verdadeira natureza do amor, a natureza mais crua. O Amor é a forma última de exploração, aquela da qual padecerá Petra, e da qual surgirão as suas lágrimas amargas...
Estão aqui patenteadas as principais relações que dominam a nossa vida "Empregador-Empregado", "Homem-Mulher", "Pai-Filho", todas as instituições são aqui pontapeadas por estas 5 personagens femininas. É uma Casa de Bernarda Alba do nosso modernismo. Petra segue o amor até o fim, até servir-se dele para a sua própria humilhação...antevejo aqui a própria interpretação da "Morte em Veneza" por Fassbinder...

No final...o silêncio, a resignação e, a confirmação de que o que nos move nesta vida, é o nosso latente sado-masoquismo em explorarmos e sermos explorados...

Afixado por: Paula em março 21, 2005 10:36 AM

Hoje, dia 21 de Março, comemora-se o Dia Mundial da Poesia.

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Belo post. Parabéns. É um dos meus filmes favoritos de Fassbinder.

Afixado por: JG em março 21, 2005 01:13 PM

Belo post, de uma peça fabulosa de Fassbinder! "Quando compreendo não devo lamentar, pois posso mudar o que compreendo." - marcou-me esta frese e a postura de vida que encerra! um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em março 21, 2005 11:19 PM

Excelente post, Fassbinder é um dos meus dramaturgos de culto. Beijo Sandra.

Afixado por: Micas em março 24, 2005 12:01 PM