março 20, 2005

MULHERES

Uma mulher. Duas mulheres. Três mulheres. Sim, três. Mas na realidade, uma. Uma com conseguidos desdobramentos. Uma com papéis diferenciados. Uma que faz a síntese. As outras que a levam para outros mundos. Mulheres-vidas-mundos. Necessidades. Constatações. Conclusões (?). Percurso em percursos que se faz e fazem. Experiências.
Mais um excelente texto da Paula para mais uma inevitável reflexão (profunda) para nós. Mais um trabalho perturbador, com grande capacidade de/para penetrar no que é importante ter em conta. Cada ponto abordado, cada imagem criada, é/são um manancial de possibilidades e aprofundamentos reflexivos. E, claro, para discussão, debate, crítica.
Um mundo imenso é o que a autora novamente nos oferece. Um mundo ou mundos. O sub-mundo ou sub-mundos. E nele(s) a(s) mulher(es). E nele(s) aquela(s) mulher(es). Que alcances? Que limites? Que fronteiras entre o uno e o triplo? Que limites entre ela e as outras? Onde e quando se encontram? Onde e quando se afastam?

A gaita de beiços do amolador anuncia a chuva.
Já amanhece. Os lençóis estão quentes, o corpo ainda fraqueja do resultado da noite. A rapariga acorda; está na hora de acordar. Nem mais um minuto para deixar vencer o sono. O quarto está precisamente envolto na sua paz nocturna quando acorda. A rapariga vomita na cama com a ideia de julgar ir para a escola. Levanta-se, e senta-se na cama. Pensa em rezar. Agora ainda se implora um pouco a Deus nesta terra católica, apostólica, romana, para que todos vejam que lavamos das mãos o sangue da inocência, que Deus, num acto de cansaço, transformou em si próprio: O Homem, precisamente, eis a sua obra.
A rapariga já preparou a roupa e já toma banho. Lava-se bem com o sabonete do supermercado, ampara bem os cabelos com o champõ. Deixa a água quente escorrer pelo corpo, passando e tocando, com o cobertor molhado, o seu ventre. Sente desejo. Ouve o rádio, algumas músicas, discursos fúnebres. O Papa está prestes a ser eleito. Não se diz nada contra o Papa, que pertence à Virgem Maria. É ele que define as funções dela. É ele que define a sua humildade. De onde é que ele sabe todavia, a que ponto esta mulher é humilde, se o próprio sempre foi ávido por almas? O que sabe ele dessa mulher? O que sabe ele da secretária, sentada no chão, no qual, de joelhos, recebe o membro do empregador? Dentro em pouco, enquanto as fotocópias são tiradas, graças sejam dadas a Deus, esse homem vai pegar-lhe de novo no centro entre as pernas para despejar as côdeas dos seus vários Deuses (desporto, política e economia).
A rapariga está pronta. O cão já passeou pela rua, já deixou dejectos que outros cães cheirarão, para que os vermes possam comer. O pássaro já tem água. O gás está desligado, e as chaves e a mala na mão. Já podemos sair. A porta fechada, os pés sobre o tapete de entrada (só nos lugares mais pobres é que não há tapete debaixo dos pés), a rapariga sai de casa com a cara e as unhas besuntadas de cor. Durante o caminho para a estação de comboios, o tempo refresca ligeiramente. A rapariga sente ligeiros arrepios, mas traz vestido o casaco de camurça verde escuro, e o cachecol com pompons. A rapariga vê no chão um papel.
Debruça-se e apanha-o. “ Procure este novo hipermercado, onde todas as donas de casa vêm, enquanto os maridos conversam sobre futebol. Aqui encontra tudo, mesmo que tenham e mantenham medidas e pesos diferentes.” A rapariga rasga o papel. O relógio, oito e meia, tem de apressar-se. Numa casa, a mulher espera que o marido saia como deve ser para o escritório. A vida deve correr bem a esta mulher desde o dia em que ocupou a casa de um homem que paga bem quando está contente. Essa mulher, gostaria, logo que fosse possível, que o marido a deixasse de carro num centro comercial, para poder passear, comprar e ficar com um aspecto agradável. Para o Homem, que a leva, que a ordenha, que a conduz, a mulher não pensa em nada, a não ser no que deve vestir, nem mesmo nos sentimentos que se orgulha de ter perante o sexo masculino. Mas é ele que a tem de sustentar. Ela não sabe fazer nada. Ele é responsável pela sua felicidade, por ser um marido justo.
A estação está apinhada de gente. A rapariga é alta e magra, mas consegue passar despercebida. Caminha matreiramente, por entre a multidão. Compra o jornal. Enquanto desce as escadas da estação, lê as gordas. “Líder Palestiniano morto na Faixa de Gaza”. Um homem também tem um jornal em punho. Também lê as gordas. “Líder do campeonato derrotado na Super Liga”. Os olhos de ambos não se cruzam, nem mesmo querem cruzar-se. O homem não concorda com a venda de jornais às mulheres. Não se deve ensinar mais do que elas queiram aprender. É por isso que na sociedade existem os protectores e os protegidos. Se não, porque foi inventado o cavalheirismo? O que é um cavalheiro? Um homem que abre as portas às mulheres, que cede a vez e o lugar? Um homem de sentimentos e acções nobres? Um homem com quem a senhora forma par numa dança? O homem levanta-se e a mulher senta-se. É a Filosofia da Vontade, o estratagema do engano. Deixar sentar, para colocar a mão por cima.
O comboio chega. As pessoas empurram-se. Entra gente aos magotes. O corpo ainda fraqueja. Há poucos lugares sentados, mas ainda há. A rapariga tem sorte e astúcia, foi das primeiras a entrar. Sobe as escadas do comboio. Procura um lugar vago. Os olhos circundam por toda a carruagem. Ainda há lugares vagos. Há mulheres que já se sentam. Avista um lugar. Tem de “ir de costas”, mas o lugar permanece vazio junto da janela. Pede licença, é bem educada. Um homem tem um telemóvel sobre o ouvido. Ela pede-lhe licença. O espaço é pouco. Ela senta-se, mas permanece desconfortável. As pernas não estão à vontade. O homem, que está sentado á sua frente, abre as pernas. É ele quem manda. Abre as pernas, e a rapariga estica as suas até ao centro das calças do homem. Foi o homem quem abriu as pernas...
É noite. Está frio, mas a cidade ainda tem gente. A fêmea entra no estabelecimento por uma rua muito estranha. À frente, na porta principal, formam-se carros. Os homens são apresentados ao porteiro do Bar. A fêmea dirige-se a uma sala. Cumprimenta a “menina dos varões”, como outros lhe chamam. É à menina que cabe a dança dos varões. A casa de alterne é gerida pelo filho de um empresário. A fêmea nunca o viu, mas agora não tem tempo para formular juízos hipotéticos, nem abreviar especulações. O “patrão”, que é raia miúda, entra no “camarim” das meninas, e grita-lhes que se vistam/dispam rapidamente. Já estão a chegar clientes. Dizem que a gerência mudou, mas já se fazem misturas no bar, já se testam as luzes do palco, já se experimentam os varões do strip-tease. Os clientes começam a entrar. “Esta noite há Show Erótico”. Os clientes cumprimentam o empregado que está atrás do balcão, e sentam-se. Até perto da uma da madrugada irão chegar clientes de todos os feitios e nacionalidades. Um deles, entra cansado e senta-se. Ajeita a gravata tornando-a desajeitada. Onde esteve ele hoje, durante a tarde? Tem fome, ainda não jantou. “Escolha o que vem no preçário do menu”. Conjugue um strip-tease com uma tosta mista. O cliente pousa o menu e lê os escritos da mesa: “Não Toque, Não Grite, Não Faça Propostas. Se o fizer, seremos obrigados a convidá-lo a sair”. O cliente pergunta-se se terá deixado tudo encaminhado em casa e no escritório. A Sociedade já tem quotas, já tem sócios, já tem capital social, e uma conta bancária. Em breve terá gerente, como todas as sociedades, como todos os bares de alterne, como todas as casas de família. O cliente está descansado.
Em casa, a mulher permanece dentro da cobertura da sua condição social. De mau humor, deverá estar sentada no sofá da sala de jantar, apertando a si o roupão. Nas outras mesas, outros clientes discutem futebol. Falam de desporto, essa fortaleza de gente pequena, onde até os pobres tomam alento. Em outra mesa, ainda, um grupo de jovens festeja uma despedida de solteiro. O animador começa a fazer jogos de som, brincando com as palavras, brincando com a vida dos clientes. É preciso fazer dinheiro hoje. “Como hoje há clientes, há espectáculo sexy”.
A “menina dos varões” está preocupada. Agita as mãos. A fêmea também está preocupada. Ela tem de ganhar o seu sustento, não é sustentada por um marido. A “menina dos varões” calça os sapatos de salto alto. O frio rasteja para dentro dos seus pés. Não vale a pena falar dos pés dela, do que já pisaram, com o que já foram pisados, mas ela também não fala muitas vezes. Estes saltos já não a separam do gelo do mundo. Levanta-se e anda com dificuldade. Tem de prestar atenção, ver onde põe os pés, em vez de ser acossada pelos outros. A fêmea também se levanta. Esteve a beber este tempo todo. Só assim ela aguenta estas noites. Agarra-se bem ao corrimão, mas avança bastante bem. Tem de ganhar a vida.
Luzes vermelhas iluminam a sala, quadros oleados de figuras eróticas tecem comentários sobre os clientes. Eles estão à espera do produto. Alguns são enganados pelo dono do Bar que lhes diz quais são as mercadorias em promoção. Estes homens são escolhidos de acordo com os seus bens. Elas não, elas são sempre apresentadas com um rótulo na virilha contendo a epígrafe “Artigo de Promoção Especial”. E já começam elas a entrar por um cortinado negro atrás de um dos múltiplos espelhos que circundam o bar. Vão sentar-se à mesa dos homens, beber cerveja e jogar o jogo da humanidade: nem sequer um cão seria capaz de ter tanta paciência. No entanto, o ambiente torna-se alegre. Ouve-se “Breakfast In America” dos Supertramp. A « menina dos varões” engole o varão, despe o que já está despido, e lambe a gorjeta do cliente. Agarra a nota que lhe descai sobre o peito. Quentes mãos apalpam as notas. Para onde vai o nosso dinheiro, quando nos separamos dele? É certo que não há nada que se perca, e estas mulheres bem o sabem. Foi assim que a natureza as fez. Elas comem os produtos dos homens, para que, em troca, sejam comidas por eles. O dinheiro delas cheira mal e sua por causa do seu trabalho. Outras mulheres, que não estas, enfiam as cabeças nos sacos das compras e esperam que os homens as coloquem nas suas contas bancárias, a fim de deixar crescer as suas necessidades de uma maneira bastante suculenta.
A fêmea está sentada ao lado de um mediador de seguros. A cara não lhe parece estranha. Já o viu uma vez no mundo dos vivos. Este homem, no entanto, conhece bem as regras do bar. Domina os códigos como se fosse um homem do alterne. Conta-lhe histórias, queixa-se das incompreensões mundanas, toca-lhe ao de leve no pulso. Este homem já viu tudo: “casas com sobe e desce”, “casas de strip”, “casas de alterne”, “meninas livres”, “prisões de luxo”, “bungalows no jardim”, “jacuzzi”, “sauna”, “prisões miseráveis”. Aqui paga vinte e cinco euros de entrada. A fêmea ficará com dois euros e meio, e a casa descontará quinhentos euros de impostos sobre o valor acrescentado para as pessoas colectivas. Depois de conversarem, o homem sugere o andar de cima. Tem quartos para alugar. A fêmea concorda. Já são onze da noite, é preciso angariar clientela. Tem uma percentagem por isso.
A fêmea está estendida, escancarada na cama, recoberta de líquidos viscosos e escorregadios, espalhados uns sobre os outros, que a tornam mais valiosa, que a valorizam em vários pontos. Ela foi por muitos homens completamente cagada e completamente mijada. Precisava de se levantar e descer ao salão do bar para engatar mais um. No quarto ao lado, ouve a “menina dos varões” gritar, enquanto lhe enfiam o indicador direito, profundamente, pelo cu acima. Estão vários homens naquele quarto. São os rapazes da despedida de solteiro. Uns apenas querem ver, outros apenas querem saborear, mas todos a querem usar. A fêmea tem de levantar-se, deixar cair para o chão os últimos cartuchos da virilidade masculina e ir buscar uma esponja de limpeza para se limpar. Depois tem de descer as escadas, mas já é tarde de mais, está um novo tubarão assassino em frente dela. Ela já sabe o que fazer. A fêmea, que está deitada à frente do homem, abre as pernas. É ela quem manda. Abre as pernas, e o homem estica o seu membro até o centro dela. Foi a fêmea quem abriu as pernas...
O entardecer ofusca a mente da escritora. Ela coloca um Cd no computador. Ouve “Falling in Love Again” na voz de Nina Simone. Deixa o Cd correr. Tem de escrever, o livro tem de estar pronto até o final do mês. O objectivo da sua pesquisa de dois anos – com interrupções, escrita e reescrita, invenção de personagens, conversas – é a construção de uma simples e singela história, cheia de mulheres, só com mulheres. Mulheres escravas, mulheres carnívoras, mulheres tristes, mulheres enfeitiçadas, mulheres possessivas. Trata-se da construção “verdadeira” de uma casa de mulheres, com vida própria, com rituais, com “tiques de linguagem”. Quer arranjar uma história para três mulheres diferentes, descobrir as pessoas certas e os lugares certos para estas mulheres viverem. Onde é que a tragédia pode ser mais fascinante senão numa casa de mulheres, onde o vício do dinheiro alterna com o vício do charme?
A escritora começa a escrever. Esta, no seu atordoamento por não encontrar a saída de emergência das suas recordações, treina-se a escrever repetidamente a palavra “Mulher”. Enquanto escreve a história, as suas palavras correm livremente, sem trela. Ela não distorce a linguagem, não invoca figuras de estilo para atenuar as emoções de quem futuramente a quiser ler. Para quê tornar doce, o que deve ser amargo? Para quê curar uma ferida que respira melhor se estiver aberta? Ninguém a vai aceitar, ninguém a vai querer ler. Mas ela prefere abandonar a alegre companhia de certas expressões, alegres e esperançadas, com as quais podia de facto contar e continuar a cegar, sem se importar com as chamas que a golpeiam por dentro, do que ficar eternamente presa aos anacronismos de quem sabe escrever. Não, ela tem que escrever. Ela sabe que, nas suas celas, as mulheres sangram do cérebro e do sexo a que pertencem. Aquilo que elas próprias criaram, têm agora também de tratar e manter com vida. No entanto, ela não consegue conceber a vida sem os Homens. Pensa nisso, e assusta-se. Quer apagar o que já está escrito, mas não consegue. O cursor do rato não se mexe. A luz extorque-lhe a força nas mãos. Explode-lhe dos pulmões um grito involuntário, não muito selvagem, um som mudo. A escritora bate com o punho disparatadamente contra a mesa do computador. Tem de incluir um Homem na sua história. Rapidamente, caso não o fizesse, todo o seu objectivo ver-se-ia gorado. Um Homem tem de descer dos céus e tornar-se ele mesmo numa personagem.
A escritora começa a escrever a história. Só por minutos entra na arena em que os consumidores leitores aprendem a ler. Dizem os críticos que a escrita dela é amarrotada, tem de ser limpa, arranjada e passada a ferro. No entanto, ela não vê razão alguma para se conter para se dever conter por detrás das barreiras da literatura. No final do livro ela escreverá em prólogo “Muito obrigado, por ter lido os meus insultos”. Por agora, ela só pensa nas suas personagens. Preocupa-se com o destino delas. Uma das personagens, que está em frente da outra, abrirá as pernas. Será ela quem irá mandar. Abrirá as pernas e a outra personagem esticará algo para a poder tocar. Será essa personagem quem irá abrir as pernas...
Amanhece. Um novo dia para a rapariga. Senta-se na cama, ainda atordoada pelo sono. Novamente a náusea, novamente a vontade de vomitar. Veste-se, perfuma-se, besunta-se. Sai de casa. No caminho volta a olhar as mesmas pessoas, e sente algo apoderar-se dela. Ela já não é a rapariga que todos os dias acorda, que todos os dias pensa em vomitar, que todos os dias amontoa-se com as centenas de pessoas em volta da centopeia de carris. Também já não é a escritora que todos os dias, depois de voltar do emprego senta-se à beira do computador e escreve sobre a raça do seu sexo, que pesquisa sobre o feminino apenas porque a editora lhe pede, que inventa personagens desgarradas sem nexo, com forma e pouco conteúdo. Por fim, já não é a fêmea que todas as noites sai à rua para trabalhar naquele Bar de alterne na vagina da cidade, que todas as noites ouve as mesmas histórias dos mesmos homens, que todos as noites recebe os mesmos membros frouxos e encouraçados, que todas as noites é banhada pelos mais nauseabundos licores. Não, já não é nenhuma delas. Descobre-se a si como Mulher. Quer ser Mulher. Mas este desejo que a anima não é ditado pela amabilidade. Ela está cheia do seu passado mais jovem: o futuro pertence-lhe a si, e os pais ensinaram-na a lançar-se contra os outros na feira dos animais. Ela está precisamente aberta a um amor sem esperança, suave, como os porcos no dia anterior à matança. Não nos corre bem a vida quando nós, mulheres, não gostamos de mais nada a não ser limpar as nossas casas e esperarmos por outros que cheguem a casa e nos pisem. Mas nada de medos, ficaremos sempre as mesmas.
Ela, agora Mulher, corre para o comboio. Está atrasada. Consegue entrar porque o revisor esperou por ela. O comboio está cheio. Duas mulheres conversam entre si. Trazem revistas de decoração na mão, e conversam sobre o baptismo dos filhos. A Mulher pede delicadamente licença. As mulheres não gostam dela, e observam-na com desdém. Os piores inimigos não são os que vêm de fora, mas os que provêm da própria raça. Ao fundo está um lugar vago. Ela caminha para o lugar. Senta-se defronte de um homem. No comboio ouve-se “Breakfast In America” dos Supertramp. O espaço entre os dois lugares é muito curto. Alguém terá que abrir as pernas. É o homem que as abre. A rapariga, a fêmea e a escritora sorriem...


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de Philippe Pache)

Publicado por void em março 20, 2005 08:02 AM
Comentários

{ … por vezes [cheios] de vazio nos sentimos [plenos; repletos] outras não [esvaziados; despejados] nos sentimos © de[mente] … }

Afixado por: de[mente] em março 20, 2005 09:52 PM