março 19, 2005

NA COMPANHIA DE FERREIRA GULLAR

Na sequência do post anterior, em particular, no que respeita à sua temática, edito hoje dois poemas do poeta brasileiro Ferreira Gullar (n. 1930, São Luís do Maranhão). Dois poemas, ou melhor, um poema e parte de um outro (Porque "Carta do morto pobre" é parte de um poema incluído em Um programa de homicídio), extraídos da obra "A luta corporal", publicada em 1954, com poemas escritos entre 1950-1953. Poemas contidos num livro, por sua vez incluído na "Obra poética", editada o ano passado pelas Edições Quasi.
Quanto aos conteúdos aqui constantes (e na obra que enquadra os poemas): o homem e a reflexão/constatação de si (ou proposta disto mesmo): do que é, seus alcances e limites. A existência: o seu lado sujo, visceral e mais problemático. As angústias. As contradições. O que deve ou importa ser considerado inversamente. Visões do mundo. Visões que se reflectem. Efeitos boomerang. Espelhares.
O que se segue não é, pois, nada de "leve" de/para ser lido. Impõe-nos uma postura. Impõe-nos uma ou várias reacções. Não a indiferença, certamente. Sendo que, propositadamente, o sucedi ao editado ontem, julgo ter conseguido criar um conjunto onde a globalidade das ideias são suficientemente perturbadoras para não nos deixar ficar passivos, em particular, em termos de práxis futura. Mas se constatarmos que deixa, então, será já de concluir que estamos num estado de coma tal, que exige um tratamento de choque sério. Muito sério.
Ora leiam e... fiquem... (bem?) Enfim...

UM PROGRAMA DE HOMICÍDIO
Carta do morto pobre

Bem. Agora que já não me resta qualquer possibilidade de trabalhar-me (oh trabalhar-se! não se concluir nunca!), posso dizer com simpleza a cor da minha morte. Fui sempre o que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anúncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja - a sua pobre carne o impusesse ao orgulho dos homens. Fui aquele que preferiu a piedade ao amor, preferiu o ódio ao amor, o amor ao amor. O que se disse: se não é da carne brilhar, qualquer cintilação sua seria fátua; dela é só o apodrecimento e o cansaço. Oh não ultrajes a tua carne, que é tudo! Que ela, polida, não deixará de ser pobre e efêmera. Oh não ridicularizes a tua carne, a nossa imunda carne! A sua música seria a sua humilhação, pois ela, ao ouvir esse falso cantar, saberia compreender: "sou tão abjecta que dessa abjeção sou digna". Sim, é no disfarçar que nos banalizamos porque ao brilhar, todas as cousas são iguais - aniquiladas. Vê o diamante: o brilho é banal, ele é eterno. O eterno é vil! é vil! é vil!
Porque estou morto é que digo: o apodrecer é sublime e terrível. Há porém os que não apodrecem. Os que traem o único acontecimento maravilhoso de sua existência. Os que, de súbito, ao se buscarem, não estão... Esses são os assassinos da beleza, os fracos. Os anjos frustrados, papa-bostas! oh como são pálidos!
Ouçam: a arte é uma traição. Artistas, ah os artistas! Animaizinhos viciados, vermes dos resíduos, caprichosos e pueris. Eu vos odeio! Como sois ridículos na vossa seriedade cosmética!
Olhemos os pés do homem. As orelhas e os pêlos a crescer nas virilhas. Os jardins do mundo são algo estranho e mortal. O homem é grave. E não canta, senão para morrer.

O MAR INTACTO
P.M.S.L

Impossível é não odiar
estas manhãs sem teto
e as valsas
que banalizam a morte.

Tudo que fácil se
dá quer negar-nos. Teme
o ludíbrio das corolas.
Na orquídea busca a orquídea
que não é apenas o fátuo
cintilar das pétalas: busca a móvel
orquídea: ela caminha em si, é
contínuo negar-se no seu fogo, seu
arder é deslizar.

Vê o céu. Mais
que azul, ele é o nosso
sucessivo morrer. Ácido
céu.
Tudo se retrai, e a teu amor
oferta um disfarce de si. Tudo
odeia se dar. Conheces a água?
ou apenas o som do que ela
finge?

Não te aconselho o amor. O amor
é fácil e triste. Não se ama
no amor, senão
o seu próximo findar.
Eis o que somos: o nosso
tédio de ser.

Despreza o mar acessível
que nas praias se entrega, e
o das galeras de susto; despreza o mar
que amas, e só assim terás
o exato inviolável
mar autêntico!

O girassol
vê com assombro
que só a sua precaridade
floresce. Mas esse
assombro é que é ele, em verdade.

Saber-se
fonte única de si
alucina.

Sublime, pois, seria
suicidar-nos:
trairmos a nossa morte
para num sol que jamais somos
nos consumirmos.


(Ferreira Gullar- A LUTA CORPORAL. Obra incluída em OBRA POÉTICA, trazida para o mercado pelas Edições Quasi. Fotografias de William Ropp)

Publicado por void em março 19, 2005 08:33 AM
Comentários

Ora viva!
O Zecatelhado, camarada destas lides da blogosfera, deseja para esta casa um fim de semana cheio de bons posts e demais coisas agradáveis.
Envia ainda
AQUELE abração amigo.

Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em março 19, 2005 01:15 PM