
Pois é efectivamente com elas que vos deixo. Com as caras baratas. Mas...! Sim, é verdade. Bem... deixo-vos mais com as "Caras baratas". A muito recente antologia de poesia de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, mais conhecida como Adília Lopes.
Uma poetisa, na minha opinião, bastante diferente. Uma poetisa que usa e "abusa" da ironia de uma forma extremamente interessante. Ironia que é especial: de uma grande acutilância e que pode incomodar os mais sensíveis. Será? Devido a quê? Enfim... Uma poetisa que desafia. Que agarra muito do que poderíamos considerar invulgar, transformando-o em ideias de grande relevância. Uma poetisa que dá brilho ao que é "comezinho". Uma poetisa que observa, que aponta, que critica, que ataca. Mas uma poetisa que também brinca com tudo isto. Que brinca com as palavras. Que brinca, no âmbito de uma grande dose de seriedade. Que brinca com o que é sério... ou pode sê-lo... ou tê-lo-á já sido. Ou seja... bem, vão descobrindo vocês.
Aqui ficam alguns poemas (o 1º conjunto. Prometo editar mais):
ARTE POÉTICA
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Preciso que
me reconheçam
que me digam Olá
e Bom dia
mais que de espelhos
preciso dos outros
para saber
que eu sou eu
Eu quero foder foder
achadamente
se esta revolução
não me deixa
foder até morrer
é porque
não é revolução
nenhuma
a revolução
não se faz
nas praças
nem nos palácios
(essa é a revolução
dos fariseus)
a revolução
faz-se na casa de banho
da casa
da escola
do trabalho
a relação entre
as pessoas
deve ser uma troca
hoje é uma relação
de poder
(mesmo no foder)
a ceifeira ceifa
contente
ceifa nos tempos livres
(semana de 24 x 7 horas já!)
a gestora avalia
a empresa
pela casa de banho
e canta
contente
porque há alegria
no trabalho
o choro da bebé
não impede a mãe
de se vir
a galinha brinca
com a raposa
eu tenho o direito
de estar triste
FARISEIAS
Gostam de ser cumprimentadas
nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons-dias às mulheres-a-dias
Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim
(Adília Lopes- Caras Baratas. Antologia. Edição: Relógio D'Água. Fotografia da própria poetisa)
tinha já contactado com alguns destes poemas no "Quem quer casar com a poetisa?". Já sentia uma saudade incómoda de aqui vir. Beijinho. J. (do outro lado da Extensa Madrugada)
Afixado por: j.p. em março 17, 2005 02:22 AM