Continuando a apresentação de "escritos" de Gonçalo Tavares, cuja edição mais próxima foi na passada Sexta-feira no post "Instantes de Poesia", ofereço-vos hoje dois outros trabalhos constantes na obra "1". Mais uma insistência minha. Mais um reforço público do quanto aprecio este autor.


Acabou o jardim: pela terra, por cima das sementes, entra o exército da Força.
Dançar para conquistar o alimento: outros tempos. Agora: matar para roubar o alimento.
Querem frutos: passam por cima das sementes; desperdício.
A Força.
O agricultor começa de novo, pela manhã.
A paciência do espírito. A inocência: começar de novo.
Devorar o coração. Entra pelas vísceras, a Força, e devora o coração.
O corpo é monstruoso, igual ao universo. Violento. A lua só não cai porque não pode. Lei das coisas altas.
Os animais quase vermelhos abandonam os homens.
Atrás o que sobrou dos habitantes da cidade: ossos, um ou outro filho; e a alma quente, viscosa: um alimento estragado.


Jejuar dos humanos: voltar às árvores.
O deus perdeu-se nas cidades: voltar ao campo: as vacas são mais espirituais que os banqueiros. Ou não.
Roubar tempo aos modernos: mostrar-lhes o eterno.
Dentro da terra o tambor do milagre: noite, manhã, noite. Outra manhã.
(Gonçalo M. Tavares- 1 Primeira e segunda fotografias: Thomas Dworzak. Terceira e quarta fotografias: Henri Cartier-Bresson)
Nós somos...
aquilo que semeamos
aquilo que combatemos.
Somos terra,
pão,
vida e morte.
Somos um pedaço de terra
abandonada,
somos lágrimas
vertidas,
incontidas
na
dor da solidão.
Nós somos
animais racionais
alguns, piores
que irracionais.
Nós somos
a medida
o tamanho
a força
daquilo que queremos
e combatemos!
Um abraço carinhoso :-)
Afixado por: Menina_marota em março 15, 2005 07:20 PM