março 17, 2005

EM CENA: ANTES CEGO

Edito, hoje, a quase totalidade de uma outra peça curta do escocês Duncan McLean. "Antes cego" vem, pois, na sequência de "Uma coisa é certa", apresentada na passada Segunda-feira. Mais um trabalho do mesmo dramaturgo, para aprofundarem aquele que é o conhecimento relativamente ao que cria e temáticas abordadas.
Datada de 1999 "Antes cego" debruça-se sobre a relação entre um casal jovem, o envolvimento de um dos pais de ambos nessa mesma relação, em particular no que respeita às opiniões dadas/posicionamentos tomados, assim como nos cruzamentos que acabam por ser aflorados (na sequência de um determinado passado) entre a vida de uns e de outros.
Tudo isto é apresentado de forma muito directa, crua e dura. Uma linguagem e um estilo muito próprios de McLean.


Colin, vinte e tais
Sally, vinte e tais
Alec, o pai da Sally, quarentas
Rene, a mãe de Colin, quarentas

Escuro. Música muito alto: "Hideaway" por Freddy King. Depois do primeiro refrão, e à medida que as luzes sobem, Colin e Sally entram no palco por lados opostos, sentam-se em cadeiras. Durante o segundo refrão estão apenas sentados, a olhar em frente. Depois de cerca de quarenta segundos, à medida que o terceiro refrão (a linha de baixo) começa a desaparecer, Sally, fala.

Sally- UMA MERDA!

Colin- Por acaso até acho que a nossa relação é bastante boa. Muito boa.

Sally- Achas.

Colin- Nunca tive queixas.

Sally- Que tivesses ouvido.

Colin- Nem uma única queixa.

Sally- É impressionante o que tu não ouves quando simplesmente não queres ouvir.

Colin- Claro que às vezes ela, pronto, irrita-me, mas não é assim uma grande coisa.

Sally- Não é grande para ti.

Colin- Fecho os olhos.

Sally- Fechas-me no quarto.

Colin- O casamento é assim mesmo - fecha-se os olhos à má conduta da esposa.

Sally- Longe da vista, longe do coração - fecha-me no raio do quarto durante horas sem fim.

Colin ri-se muito alto do que ela acabou de dizer.

Sally- Ele fecha os olhos ao meu olho negro.

Colin- Não sei do que é que ela está a falar, nunca lhe dei uma merda de um estalo..

Sally olha ameaçadora para ele: o primeiro olhar entre eles.

Colin- Desculpa! A linguagem. Nunca lhe dei uma m-da dum estalo. (Olha para ela.) Contente?

Sally- Não devias dizer isso.

Colin- Já pedi desculpa!

Sally- Não é a merda! Mentir!

Colin- Quem é que está a mentir, caralho?

Sally- Tu!

Colin- Oh, pó caralho!

Sally- Estás a mentir comó caralho!

Colin- Não comeces!

Sally- Começo com o quê? Tu é que estás a começar a mentir comó caralho! Começo com o quê?

Colin- Com o caralho das acusações, não comeces.

Sally- Não são acusações, é verdade.

Colin- É sempre a mesma merda a sair da tua boca.

Sally- Pois, pois, e querias a boca de quem?

Pausa.

Colin- Puta.

Sally- Cabrão.

Colin- Frígida do caralho.

Sally (gritando.) Vou chamar o meu pai para ter uma conversinha contigo!

Entra Alec como um furacão do lado do palco de Sally, a face contorcida pela raiva, coloca-se de imediato ao pé de Colin. Colin levanta-se assustado, pega na cadeira e segura-a à sua frente, usando-a como barreira entre si e Alex. Alec agarra nas pernas da cadeira, e os dois lutam por um bocado, cada um tentando dominar o outro. Enquanto o fazem grita-se qualquer coisa como:

Alec- Cabrão, mentiroso dum cabrão, seu gatuno.

Colin- Alec, sente-se, vá lá, sente-se.

Sally levanta-se, aproxima-se deles, agarra a cadeira.

Sally- Parem lá os dois.

Alec e Colin empurram-na. Sally volta a aproximar-se, agarra o pai pelos ombros, afasta-o. Colin larga a cadeira e Alec tira-lha.

Sally (enquanto agarra no pai)- Vá lá, pai, senta-te, senta-te.

Alec olha para Colin mas pousa a cadeira que ganhou junto a Sally. Sally senta-se na cadeira mais próxima de Colin e arrasta Alec para a outra cadeira. Entretanto, Colin sai pelo seu lado do palco e volta com uma outra cadeira, onde se senta, como antes.

Alec- Estás feito comigo, miúdo.

Colin- Vai-te foder velho.

Sally- Colin! Pai! Vá lá! Estamos aqui para conversar sobre isto.

Colin- Diz isso a ele!

Sally- Estou a dizer-lhe.

Colin- Passado dos cornos!

Sally- Estou a dizer aos dois. Estamos aqui para conversar.

Alec- Pois. Para conversar.

Sally- Então?

Alec (respira fundo e começa a falar.)- Fiquei contente pela pequena quando ela nos disse à gente que se ia casar. Que pai não ficava contente pela sua filha? Depois ela disse-me com quem ia casar e Jesus, Colin Grant? O filho do Gerry Grant? Nem pensar! Essa família é tudo veteranos, uns veteranos de merda.

Sally- Veteranos de guerra?

Alex- Não, pequena, veteranos de merda. As histórias que se contam deles já têm barbas. Toda a gente conhece os Grants! Uns sacanas duns ladrões! Meu Deus!, e a minha filha vai casar com um deles!

Colin- Pois, e casou, e agora é uma Grant, portanto veja lá o que é que diz.

Alec- O nome dela pode ser Grant mas ela não é uma dessas. As mulheres Grant já toda a gente sabe como são: umas porcas, é isso mesmo. Entravam no jogo mas ninguém lhes pagava. Largavam-nas por meia imperial. De joelhos nas traseiras do café. Essas é que são as verdadeiras Grant.

Colin- Ó parvalhão. Olha que estás a falar da minha mãe. (Levanta-se.)

Alec (desviando o olhar.)- Não tou não.

Colin- Da minha mãe.

Alec- Não tou não. Ela é uma Geddes não é uma Grant. De Grant só tem o nome, do casamento, não de nascença. Uma boa mulher a tua mãe.

Colin (senta-se.)- Bom. É isso mesmo, caralho. E não te esqueças disso.

Alec- Não me vou esquecer. Rene Geddes. Uma boa mulher.

Sally- Por favor, pai, és capaz de parar de falar na mãe dele?

Alec- Hã?

Sally- Estamos aqui para falar sobre nós. Sobre mim e sobre o Colin. Sobre ele fechar-me no quarto e não me deixar sair com as minhas amigas.

Colin- Umas putas.

Sally- Sobre este olho negro e o resto.

Colin- Estavas bêbada! Tropeçaste no cão!

Sally- Não tropecei nada.

Colin- Pergunta ao cão.

(...)

Alec- Vejo a minha filha triste, quase a chorar. E detesto. Qualquer pai ia detestar. Digo-vos uma coisa, meus caros, antes cego que ver a minha filha triste. Mas ao longo dos anos já vi isso acontecer muitas muitas vezes. Vi-a chorar quando não conseguia arranjar namorado, e depois vi-a chorar quando conseguiu - ah pois foi. (...)

Sally (avançando, ao lado do pai.)- É isto que custa. Não é o que o Colin me faz. Mas o que o-que-ele-me-faz faz ao meu pai. Eu adoro o meu pai. Foi ele que me educou, e ainda sou a menina dele, acho eu. A princesa. Às vezes até chateia a maneira como ele me trata, aquela protecção toda, mas faz isso por amor, né? E eu detesto vê-lo triste. (Mudança:) O que é que hei-de fazer? Casar com ele? Não é possível. Não posso continuar na casa dele, ficar lá para sempre, ser a pequenina dele para sempre. Tenho de sair, ver o mundo, encontrar o meu... o meu homem.

Colin (avançando)- Ninguém é perfeito. Eu sei disso. Percebo que ela acha que eu não sou perfeito. Tudo bem. Mas eu, parece-me, eu amo-a, acho eu. Seja lá o que isso for. E acho que ela também me ama a mim. Sei lá. É só a maneira dela mostrar: como o pai dela; ciumenta, possessiva, sempre a meter a merda do nariz onde não é chamada. E depois admira-se de ver coisas que não gosta. Digo-lhe a ele: não metas o nariz na nossa vida e não vês a tua pequena a chorar, nunca hás-de ver. E digo-lhe a ela, olha bem para a minha mãe, aprende com ela: fechou os olhos aos erros de meu pai e olha o que aconteceu: vinte e cinco anos de um casamento feliz. Uma boa relação.

Rene (avança...)- UMA MERDA. O pai dele tratou-me como lixo durante vinte e cinco anos. De um lado para o outro, a beber o dinheiro todo, a humilhar-me. Ha. Era o que ele pensava. Enquanto andava à pesca, também eu me andava a divertir, não é verdade Alec?

(...)


(Duncan McLean- ANTES CEGO. Peça editada na revista Artistas Unidos. Número Especial. Ano 3. Novembro. Número 6. Fotografia do próprio dramaturgo)

Publicado por void em março 17, 2005 10:55 AM
Comentários

Também gostei bastante do teu blog. Também te vou linkar. Vamos ver quem cumpre primeiro a promessa.
Beijinhos e bom fim de semana
JGomes

Afixado por: JG em março 18, 2005 01:13 AM