
Edito, hoje, a quase totalidade de uma outra peça curta do escocês Duncan McLean. "Antes cego" vem, pois, na sequência de "Uma coisa é certa", apresentada na passada Segunda-feira. Mais um trabalho do mesmo dramaturgo, para aprofundarem aquele que é o conhecimento relativamente ao que cria e temáticas abordadas.
Datada de 1999 "Antes cego" debruça-se sobre a relação entre um casal jovem, o envolvimento de um dos pais de ambos nessa mesma relação, em particular no que respeita às opiniões dadas/posicionamentos tomados, assim como nos cruzamentos que acabam por ser aflorados (na sequência de um determinado passado) entre a vida de uns e de outros.
Tudo isto é apresentado de forma muito directa, crua e dura. Uma linguagem e um estilo muito próprios de McLean.
Colin, vinte e tais
Sally, vinte e tais
Alec, o pai da Sally, quarentas
Rene, a mãe de Colin, quarentas
Escuro. Música muito alto: "Hideaway" por Freddy King. Depois do primeiro refrão, e à medida que as luzes sobem, Colin e Sally entram no palco por lados opostos, sentam-se em cadeiras. Durante o segundo refrão estão apenas sentados, a olhar em frente. Depois de cerca de quarenta segundos, à medida que o terceiro refrão (a linha de baixo) começa a desaparecer, Sally, fala.
Sally- UMA MERDA!
Colin- Por acaso até acho que a nossa relação é bastante boa. Muito boa.
Sally- Achas.
Colin- Nunca tive queixas.
Sally- Que tivesses ouvido.
Colin- Nem uma única queixa.
Sally- É impressionante o que tu não ouves quando simplesmente não queres ouvir.
Colin- Claro que às vezes ela, pronto, irrita-me, mas não é assim uma grande coisa.
Sally- Não é grande para ti.
Colin- Fecho os olhos.
Sally- Fechas-me no quarto.
Colin- O casamento é assim mesmo - fecha-se os olhos à má conduta da esposa.
Sally- Longe da vista, longe do coração - fecha-me no raio do quarto durante horas sem fim.
Colin ri-se muito alto do que ela acabou de dizer.
Sally- Ele fecha os olhos ao meu olho negro.
Colin- Não sei do que é que ela está a falar, nunca lhe dei uma merda de um estalo..
Sally olha ameaçadora para ele: o primeiro olhar entre eles.
Colin- Desculpa! A linguagem. Nunca lhe dei uma m-da dum estalo. (Olha para ela.) Contente?
Sally- Não devias dizer isso.
Colin- Já pedi desculpa!
Sally- Não é a merda! Mentir!
Colin- Quem é que está a mentir, caralho?
Sally- Tu!
Colin- Oh, pó caralho!
Sally- Estás a mentir comó caralho!
Colin- Não comeces!
Sally- Começo com o quê? Tu é que estás a começar a mentir comó caralho! Começo com o quê?
Colin- Com o caralho das acusações, não comeces.
Sally- Não são acusações, é verdade.
Colin- É sempre a mesma merda a sair da tua boca.
Sally- Pois, pois, e querias a boca de quem?
Pausa.
Colin- Puta.
Sally- Cabrão.
Colin- Frígida do caralho.
Sally (gritando.) Vou chamar o meu pai para ter uma conversinha contigo!
Entra Alec como um furacão do lado do palco de Sally, a face contorcida pela raiva, coloca-se de imediato ao pé de Colin. Colin levanta-se assustado, pega na cadeira e segura-a à sua frente, usando-a como barreira entre si e Alex. Alec agarra nas pernas da cadeira, e os dois lutam por um bocado, cada um tentando dominar o outro. Enquanto o fazem grita-se qualquer coisa como:
Alec- Cabrão, mentiroso dum cabrão, seu gatuno.
Colin- Alec, sente-se, vá lá, sente-se.
Sally levanta-se, aproxima-se deles, agarra a cadeira.
Sally- Parem lá os dois.
Alec e Colin empurram-na. Sally volta a aproximar-se, agarra o pai pelos ombros, afasta-o. Colin larga a cadeira e Alec tira-lha.
Sally (enquanto agarra no pai)- Vá lá, pai, senta-te, senta-te.
Alec olha para Colin mas pousa a cadeira que ganhou junto a Sally. Sally senta-se na cadeira mais próxima de Colin e arrasta Alec para a outra cadeira. Entretanto, Colin sai pelo seu lado do palco e volta com uma outra cadeira, onde se senta, como antes.
Alec- Estás feito comigo, miúdo.
Colin- Vai-te foder velho.
Sally- Colin! Pai! Vá lá! Estamos aqui para conversar sobre isto.
Colin- Diz isso a ele!
Sally- Estou a dizer-lhe.
Colin- Passado dos cornos!
Sally- Estou a dizer aos dois. Estamos aqui para conversar.
Alec- Pois. Para conversar.
Sally- Então?
Alec (respira fundo e começa a falar.)- Fiquei contente pela pequena quando ela nos disse à gente que se ia casar. Que pai não ficava contente pela sua filha? Depois ela disse-me com quem ia casar e Jesus, Colin Grant? O filho do Gerry Grant? Nem pensar! Essa família é tudo veteranos, uns veteranos de merda.
Sally- Veteranos de guerra?
Alex- Não, pequena, veteranos de merda. As histórias que se contam deles já têm barbas. Toda a gente conhece os Grants! Uns sacanas duns ladrões! Meu Deus!, e a minha filha vai casar com um deles!
Colin- Pois, e casou, e agora é uma Grant, portanto veja lá o que é que diz.
Alec- O nome dela pode ser Grant mas ela não é uma dessas. As mulheres Grant já toda a gente sabe como são: umas porcas, é isso mesmo. Entravam no jogo mas ninguém lhes pagava. Largavam-nas por meia imperial. De joelhos nas traseiras do café. Essas é que são as verdadeiras Grant.
Colin- Ó parvalhão. Olha que estás a falar da minha mãe. (Levanta-se.)
Alec (desviando o olhar.)- Não tou não.
Colin- Da minha mãe.
Alec- Não tou não. Ela é uma Geddes não é uma Grant. De Grant só tem o nome, do casamento, não de nascença. Uma boa mulher a tua mãe.
Colin (senta-se.)- Bom. É isso mesmo, caralho. E não te esqueças disso.
Alec- Não me vou esquecer. Rene Geddes. Uma boa mulher.
Sally- Por favor, pai, és capaz de parar de falar na mãe dele?
Alec- Hã?
Sally- Estamos aqui para falar sobre nós. Sobre mim e sobre o Colin. Sobre ele fechar-me no quarto e não me deixar sair com as minhas amigas.
Colin- Umas putas.
Sally- Sobre este olho negro e o resto.
Colin- Estavas bêbada! Tropeçaste no cão!
Sally- Não tropecei nada.
Colin- Pergunta ao cão.
(...)
Alec- Vejo a minha filha triste, quase a chorar. E detesto. Qualquer pai ia detestar. Digo-vos uma coisa, meus caros, antes cego que ver a minha filha triste. Mas ao longo dos anos já vi isso acontecer muitas muitas vezes. Vi-a chorar quando não conseguia arranjar namorado, e depois vi-a chorar quando conseguiu - ah pois foi. (...)
Sally (avançando, ao lado do pai.)- É isto que custa. Não é o que o Colin me faz. Mas o que o-que-ele-me-faz faz ao meu pai. Eu adoro o meu pai. Foi ele que me educou, e ainda sou a menina dele, acho eu. A princesa. Às vezes até chateia a maneira como ele me trata, aquela protecção toda, mas faz isso por amor, né? E eu detesto vê-lo triste. (Mudança:) O que é que hei-de fazer? Casar com ele? Não é possível. Não posso continuar na casa dele, ficar lá para sempre, ser a pequenina dele para sempre. Tenho de sair, ver o mundo, encontrar o meu... o meu homem.
Colin (avançando)- Ninguém é perfeito. Eu sei disso. Percebo que ela acha que eu não sou perfeito. Tudo bem. Mas eu, parece-me, eu amo-a, acho eu. Seja lá o que isso for. E acho que ela também me ama a mim. Sei lá. É só a maneira dela mostrar: como o pai dela; ciumenta, possessiva, sempre a meter a merda do nariz onde não é chamada. E depois admira-se de ver coisas que não gosta. Digo-lhe a ele: não metas o nariz na nossa vida e não vês a tua pequena a chorar, nunca hás-de ver. E digo-lhe a ela, olha bem para a minha mãe, aprende com ela: fechou os olhos aos erros de meu pai e olha o que aconteceu: vinte e cinco anos de um casamento feliz. Uma boa relação.
Rene (avança...)- UMA MERDA. O pai dele tratou-me como lixo durante vinte e cinco anos. De um lado para o outro, a beber o dinheiro todo, a humilhar-me. Ha. Era o que ele pensava. Enquanto andava à pesca, também eu me andava a divertir, não é verdade Alec?
(...)
(Duncan McLean- ANTES CEGO. Peça editada na revista Artistas Unidos. Número Especial. Ano 3. Novembro. Número 6. Fotografia do próprio dramaturgo)
Também gostei bastante do teu blog. Também te vou linkar. Vamos ver quem cumpre primeiro a promessa.
Beijinhos e bom fim de semana
JGomes