Dando continuidade à apresentação/divulgação de dramaturgos provenientes da Escócia iniciada em Janeiro, com a edição do excerto de uma peça de Anthony Neilson, trago-vos hoje, praticamente na íntegra, uma peça curta de Duncan McLean. Uma peça que aborda de forma muito particular a Morte. A Morte e o medo de si. A Morte e o que esta pode ser para além das certezas que são dadas. A Morte e o que está para além do visível e do imediatamente constatável. Uma peça incómoda, precisamente, pela imensa angústia vivida por Keith. Uma peça onde a inquietude, o questionamento e a dúvida são permanentes. Uma peça onde se fala da Morte, naquilo que esta poderá ter de Vida. Ou a Vida ainda existente no estado de Morte.
Quanto ao dramaturgo que é também guionista, contista, romancista e editor, nasceu no ano de 1964. Iniciou a sua actividade artística como cantor e actor numa companhia de teatro de rua de Edimburgo. Começa a escrever para Teatro em 1985, o que se mantém até à actualidade.
"Uma coisa é certa", a peça que se segue, é datada de 1994.

Keith, vinte e muitos anos.
Keith está deitado no palco no escuro. Ouve-se música: Hank Williams a cantar "I'll never get out of this world alive". Depois das três primeiras estrofes e ponte, durante a parte instrumental, a música vai ficando mais baixa até quase deixar de se ouvir. Simultaneamente, as luzes incidem sobre o actor. Ele fala.
A primeira coisa que me vem à cabeça quando acordo é: "Graças a Deus, estou vivo! Podia ter morrido durante a noite mas não morri, estou vivo." (Senta-se.) É aí que os meus problemas começam: é aí que penso: "Não morri durante a noite, logo isso pode acontecer hoje, a qualquer momento, a qualquer momento a partir de agora." (Faz uma pausa, como se estivesse à espera de ser fulminado.) Não há saída. Quem está morto, está morto, quem está vivo, vai estar morto. Quem não se vai durante a noite, há-de ir durante o dia. Um dia, qualquer dia.
Hank Williams começa a ouvir-se novamente, para a ponte e estrofe depois do segmento instrumental. Ele levanta-se e anda um bocado. A música deixa de se ouvir antes de a canção acabar.
Uma noite estava sentado no sofá a ver televisão, os meus dois putos a brincar com os legos no tapete atrás de mim. E então aquilo aconteceu. Não sei se dá para perceber, ou se é uma coisa minha. Percebem? O que aconteceu foi que me apercebi de que não fazia a mínima ideia do que é que tinha estado a ver na televisão. Não foi só um minuto, foram horas, a noite inteira. A minha cabeça tinha estado noutro sítio qualquer aquele tempo todo, eu tinha estado numa merda dum limbo, a olhar para a televisão. E depois o que aconteceu foi que (estala os dedos) parece que voltei. Vi onde é que estava sentado, olhei à minha volta, e... precisava de ver os miúdos.
"Gordon, Darren, venham cá!"
"Tou aqui, pai."
"Eu também"
"Sim, mas venham para aqui, para vos poder ver."
"Oh..."
"Venham cá!"
Vieram por detrás do sofá e puseram-se à minha frente. Lembro-me de que estavam de pijama. Prontos para... (levanta a cabeça bruscamente.) Peguei-lhes nas mãos.
"Estão bem?" perguntei.
"Sim."
"Óptimo. Têm a certeza?"
"Estamos a fazer um castelo."
"Óptimo, óptimo. Mas olhem para mim." Olharam para os meus olhos. "Qual é a única coisa que é certa?" perguntei. Não diziam nada. Olhei para cada um deles à vez, para lhes tentar mostrar como isto era importante. Depois pensei: "Meu Deus, será que eu acabei de lhes fazer a pergunta ou será que apenas pensei que a tinha feito? Será que estive outra vez na porra da zona do limbo? É por isso que eles não respondem?" Então abanei-os um bocado aos dois e perguntei-lhes outra vez: (Mais alto.) "Qual é a única coisa que é certa nesta vida?"
"Ir à escola", disse o Gordon, um segundo depois. É o mais velho. Segunda classe. "As pessoas têm de ir à escola", diz ele.
Olhei para ele e fiz que não com a cabeça. "Não", disse eu. "Podes estar doente ou podes baldar-te. Estás enganado, a escola não é uma coisa certa." Virei-me para o miúdo mais novo, aproximei-me dele: Disse, "Então e tu, Darren? Diz-me lá, meu homenzinho, qual é a única coisa que todos nós sabemos que é certa?"
Franziu a testa, depois desfranziu, encolheu os cotovelos.
"Digo eu?" perguntei.
"Sim."
"A única coisa que é certa é: vamos todos morrer."
O Darren recuou e olhou para cima do meu ombro na direcção da porta da cozinha. Os olhos dele estavam a começar a ficar pequeninos e cheios de lágrimas. "Mamã!" diz ele. "Cala-te, cala-te", dogo eu, largo-lhe a mão e a do Gordon também, mas a porta da cozinha já se está a abrir e a Lesley a entrar em acção.
"O que foi, meu querido?" diz ela.
"Nada", responde o Gordon. É mais velho. É um bom miúdo.
"É o pai", começa o Darren, "tá-me a fazer perguntas..."
"Então filho, vá lá..." Estiquei-me para lhe dar uma festinha na cabeça, mas ele fugiu e foi-se esconder atrás da mãe.
"Keith", disse ela, "o que é que andaste a dizer-lhes?"
"Nada! Não disse nada." Precisava do comando da televisão. Olhei à volta, não o via em lado nenhum.
"Keith, o que é que lhes disseste que os assustou?"
"Nada! Tirando que, bom..." Olhei para ela, fiz-lhe uma espécie de sorriso. "Nada."
"Ele disse que íamos morrer", respondeu o Gordon, traidor. "Disse que era a única coisa que era verdade."
"Ó Keith..."
"Só queria pô-los a pensar, só isso. (Ri-se, apesar de fazer um riso forçado.) É bom encarar... as coisas.
"Mas não aos seis e aos quatro anos!"
"Bom... mais cedo ou mais tarde terá de ser." Lá estava o comando, no braço do sofá. Tinha estado à minha frente o tempo todo. Pus mais alto. Estava a dar um daqueles programas da vida selvagem. Animais grandes a esfacelar animais pequenos, ou seja, o costume.
Ela ficou a olhar para mim durante alguns segundos, sentia-se ali, a fixar-me. Por isso não desviei o olhar. Depois ela disse, "Vamos lá meninos, está na hora de ir para a cama." Pela primeira vez pareciam contentes por se irem deitar.
(...)
Depois de os miúdos acalmarem, a Lesley passou pela sala e foi direita à cozinha. Voltou cinco minutos depois, duas chávenas de café e um pratp com umas tostas com queijo.
"Toma lá", disse ela.
Eu, eu estava a tentar concentrar-me no programa.
"Keith."
"Mmm."
"Gostava que não falasses assim com os miúdos. Muito menos antes de eles irem para a cama. (Pausa.) Keith, estás a ouvir?"
"O quê? Sim, sim."
"Olha que estou a falar a sério. Vais fazer com que tenham pesadelos."
Senti que uma onda de uma coisa qualquer se apoderava de mim: escuridão. Virei-me para ela. "Pesadelos?" disse.
"Quem me dera que fosse só uma merda duns pesadelos, Lesley!"
Ela olhou para mim. "Andas outra vez a pensar que eles se podem enganar? E tu seres enterrado e depois acordares?
"Mas não é só ser enterrado, o que já é bastante mau... Imagina acordares e achares-te a ser criada. Quer dizer, cremada: imagina-te a seres queimada até à morte! As chamas a lamber as paredes do caixão, tu a bateres e a gritares enquanto o ar fica cada vez mais quente, e os teus gritos a serem abafados pelo rugir da fornalha! Valha-me Deus todo poderoso, isso gela-me o sangue..."
E aqui estou eu a falar de ficar gelado, mas com suor a espirrar-me por todos os lados. Parecia que tinha um crematoriozinho dentro de mim, a queimar-me todo por dentro.
"Keith" - diz a Lesley - "tu simplesmente não estás a ser razoável. Tenho a certeza de que fazem montes de testes e tudo o resto. É claro que eles se asseguram de que tu estás mesmo, enfim, morto."
"A autópsia! (Grita.) Isso é quase pior: ficar ali estendido numa placa fria de pedra, com um tipo qualquer de bata branca a abrir-te e a cortar-te às postas - a abrir-te ali mesmo no meio! - e depois a tirar-te para fora as vísceras todas, os pulmões e o coração! (Finge que todos os seus órgãos estão a ser arrancados, olhando para tudo aquilo, horrorizado.) E às vezes até serram a parte de cima da cabeça e andam a vasculhar o teu cérebro! (Neste momento, quase que espuma da boca, de tão agitado que está. Limpa os lábios com as costas da mão.) Imagina o que é estares ali deitada a sentires tudo isto!"
"Agora estás simplesmente a ser estúpido", disse a Lesley, a abanar a cabeça. "Vais estar morto: não vais sentir nada."
"Se calhar sinto."
"Não, não sentes: isso é que é estar morto. Por favor Keith, às vezes és tão... Meu Deus!"
Deu uma dentada na tosta com queijo. Quando a voltou a pôr no prato, um fio de queijo derretido ficou pendurado entre a boca dela e o bocado de pão. Depois estalou e colou-se-lhe ao queixo. Meu Deus, deu-me vontade de chorar.
"Tenho andado a pensar bastante no assunto e arranjei uma teoria: é exactamente como agora, só que se está morto. A minha teoria é: (dá um estalo na sua própria cara) sente-se tudo depois de morrer, tudo.
Tentei levantar-me e aproximar-me dela, apoiado no braço do sofá com medo de cair e ser arrastado para baixo, para baixo, para baixo.
"Depois de eu morrer", disse eu (devagar) "vou sentir cada coisa que eles me fizerem, por mais pequena que seja. Isso assusta-me: o medo de morrer e ficar vivo. Morrer e ficar vivo. (Já não apenas para ela, mas para a frente, para todos:) Morrer. E ficar vivo. Ficar vivo."
Entra o refrão final de "Weary blues". Ele continua a falar por cima da música, repetindo a frase, "Ficar vivo". Provavelmente vai dizê-la doze ou treze vezes. A última vez que a diz deve coincidir exactamente com o fim da música; as palavras "Ficar vivo" devem ser a última coisa a ser ouvida pelo público.
(Duncan MacLean- UMA COISA É CERTA. Peça editada na revista Artistas Unidos. Ano 3. Novembro. Nº 6. Fotografia de William Ropp)
Não Sabes, Sandra, o que este texto produziu em mim.
Um sentimento arrepiante, de compreensão e ao mesmo tempo, negação.
Porque eu já ouvi, essa palavra, bem junto de mim: "Eu morri. E estou vivo."
"Quero ter a dignidade da morte, conforme a tive em vida."
Morrer e estar vivo: podia-te explicar o porquê, mas se calhar digo-te antes, para ires ao Blog "Confessionário de um Padre" (se fores ao meu blog, vais lá directa) e lês, no texto "Confissões", o meu comentário. Talvez percebas o que te quero dizer.
A vida é um palco. Por vezes bem dramático.
Abraço e desculpa o desabafo. :-)
Afixado por: Menina_marota em março 14, 2005 05:22 PMRealmente impressionante este texto. Dá que pensar..."Morrer e estar vivo"... Acho que é isso que nos acontece diáriamente. Todos os dias morremos um pouco. Renascemos no dia seguinte, mas, cada dia que passa perdemos mais um pouco de nós. Vamos definhando com o passar do tempo, até não nos conseguirmos renovar mais... Sim, vamos morrendo estando vivos... :/
Afixado por: whitesatin em março 14, 2005 09:19 PM