Tango, Desejo, Amor.
Eis o que vos trago, hoje, com mais um texto da Paula. Texto que, absolutamente, fala por si. Leiam-no!
Dizem que o Tango é apenas um pensamento triste que dança pelo sombreado dos homens. Dizem que o enlaçamento dos corpos sobre as luzes não é movido por alegrias, nem por tristezas, mas sim por apertos heterogéneos e marginais, por mulheres pérfidas e amigos travosos, pelas sombras malditas da sarjeta, salpicadas de cueiros de pólvora e sangue seco.
Nesta Milonga, neste salão escuro e fétido, olho para ti ao som dos primeiros acordes do bandolim. A melodia parece-me chorosa, e a letra já se ouve ecoar pela sala, em lunfardo. O mestre de cerimónias grita “Dancemos um Tango”.
Os homens levantam-se e puxam as mulheres, belas, com cabelos presos e saias justíssimas para o meio da sala. Formam-se filas de corpos, filas de massas incandescentes de carne, forma-se o amor. De facto, não é apenas o paralelismo destas filas de homens e mulheres, tão iguais quanto desiguais, que me leva a caminhar para ti, mas a sensação de descobrir em todos estes rostos, um só e único rosto: o último dos rostos amados. Estes seres amados, têm como componentes, um certo e determinado numero de defeitos específicos mais sedutores do que as qualidades universalmente amadas. Pois é no meio desta dança, aqui neste lugar paradoxal, que a fusão de dois seres que se escolhem um ao outro, representa a mais total e inabalada solidão.
O que nesta dança mais me seduz é o facto de ela ser uma infinita criadora de desejo. Como renunciar, no Tango, ao poder de fazer surgir, sempre que se queira, o animal de olhar repleto de enganos, como suportar a ideia de, ao mesmo tempo que os corpos se movem, ver correr o tempo e não o querer acossar, deixando-o mover-se?
Caminho agora para ti, de braços em fogo, ansiando, devorando o espaço que ainda nos separa. A nossa dança terá que ser erótico-velada, explodente-fixa, mágico-circunstancial, ou não será uma dança. Porém, independentemente do que possa ou não acontecer, a espera, o receio que não aceites dançar, o medo da rejeição, é que é, na realidade magnífico. Jogo-te olhares e passos matreiros, sorrisos felinos, nem tu imaginas quem eu sou. Anuncio-te um acontecimento quase metafísico. A sedução é a melhor arma para um mundo canalha e ressentido.
Podemos dançar?
A sala urge ao ritmo de fundo do bandolim soluçante, de um violino e de um piano. Executamos os dois, o mais lascivo dos momentos que o tempo deixa percorrer. Esta é a lírica das nossas vidas, destroçadas por traições e falsidades, por desilusões e crimes. Esta é a lírica dos últimos poemas dos suicidas, da última garrafa dos bêbados, do último rasgo de amor dos amantes. Esta é a minha e tua lírica.
Continuemos a dança.
Olho para ti, para esse teu medo trocista. Isto não é amor, mas o que o substituí. Dancemos neste mundo de bastardos, onde todos os pais são ilegítimos. Porém, o teu ar tão suave, tão calvo de ódios, atrai-me mais que a perna do homem que enlaça a mulher. O teu sorriso ignorante e ingénuo, delicado na tua cara de oiro, surpreende os meus poros há muito fechados. Hesito, devo confessá-lo, em executar estes passos, temendo cair no ilimitado do desconhecido. À minha volta, toda a espécie de vultos se apressam a reter-me, a opor-me altos muros que muita dificuldade tenho em reduzir a nada. Bem gostaria de acreditar que esses vultos não pensam em imiscuir-se em nós e fazer-nos cair no mais inútil dos esquecimentos – a verdade. Mas eles sabem tanto como eu. Também sabem que a maior fraqueza do amor reside na extravagante sobrestimação do que se julga conhecer dele, em confronto com tudo o que ainda existe por conhecer.
Mas tu, és escandalosamente belo. Ao ver-te sentado, apossou-se de mim uma tal certeza que corria o grave risco de me deixar obcecada por ti, no intervalo das luzes deste salão, se nada fizesse, mesmo sabendo que o teu destino poderia vir a entrar nesta dança, ainda que ao de leve, em conjunção com o meu. E olhar para ti, enquanto me seguras a anca que descai para o chão, faz-me acreditar que, de entre todos os estados pelos quais o homem é susceptível de passar, é o amor o principal fulcro de soluções dos corpos, assim como é também o ponto ideal de junção, de fusão, desses mesmos corpos.
Os homens desesperam estupidamente do amor – eu própria agora desespero – passam a vida escravizados pela ideia de que este se encontra sempre para trás, e nunca à sua frente. Suportam e, sobretudo, esforçam-se por admitir que o amor, com todo o seu cortejo de luzes, não é exactamente para eles mesmos, mas sim para um mundo de olhares adivinhos. No entanto, é nesse amor, neste que agora sinto por ti, que se esconde o segredo da vida, segredo que pode, ocasionalmente vir a revelar o próprio ser. E quão perto sinto esse momento.
Deixemo-nos ceder à tentação das nossas bocas sujas, e mergulhar tão profundamente no abismo da paixão, dos traços ledos dos enredos dos corpos. Bebamos a água deste poço escuro onde os sábios se deixam seduzir pelas paixões vadias que as trasbordantes ninfas lançam nos seus lábios. Deixa-me cruzar o meu destino, tão desesperado quanto nu, com o teu, deixa-me deitar no leito dos teus prazeres.
Posso beijar-te?
Tango, a dança do subúrbio violento, da faca e da traição. Tango, tão cheio de curiosos sincretismos, desde a milonga nativa, ao sepulcro argentino, desde as cantorias napolitanas, aos gritos sicilianos. A minha língua sibila pela tua boca, enrola-se como uma serpente, aquece e humedece o teu rosto. Os meus dentes cravam-se na tua boca, mordo com força. Afastas-me e gritas assustado. Passo a mão pelos teus cabelos, tão negros, tão sedosos. O beijo não tem culpa. O beijo nunca sabe o que a boca fará depois.
Continuemos a dança.
Entreguemo-nos nesta dança por amor, e não por medo. Esta não é uma dança que fale aos nossos sentidos, que explore a nossa alegria, o nosso entusiasmo. É uma dança sem expressão, monótona, com um ritmo meramente estilizado, entre caras e apatias. Mas, ao mesmo tempo que cruzo os meus passos com os teus, vejo o mal e o bem em estado bruto, embora o mal esteja ligeiramente avante, mercê do nosso sofrimento. E o mal é o único criador do bem, pois a vida é lenta e o homem ignora-lhe o jogo. E tu, que danças comigo, acompanhas-me e danças sem pensar, sem reflectir sobre a natureza de quem te acompanha. Para ti, o amanhã continua a ser feito de determinações, todas elas aceites. Ainda estamos a tempo de retroceder.
Giras à minha volta, desta tua bela vagabunda, em trejeitos fáceis, em verdades inocentes, em mentiras incoerentes. Trazes um vento belo sobre a minha cara quando te moves que não irá decerto amainar, pois que doravante se acha carregado de perfumes, como se, acima de ti, se erguessem múltiplos terraços de jardins. É a ingenuidade que te faz rodar assim.
Este baile de culpados está no auge. O desespero rola pelas mesas sobrepostas à pista de dança. Este é um baile sem alma, para autómatos, para as pessoas que renunciaram à vida, e apenas dançam com a morte. É o baile das raças esgotadas, subjugadas, que percorrem a vida sem um fim, sem um destino, apenas levadas por credos e bruxedos. Todavia, agrada-me sentir aqui tão fruste forma de desejo. Ao penetrar nas profundidades de ti, como a tal me incitam estes bruscos movimentos do violino, fácil se nos torna viver, neste lugar, neste salão, a ilusão de poder de súbito reconstruir o mundo. Em nenhum outro lugar nos é dado aproximar tanto os dois braços um do outro, de tal modo, que nos permita tocar simultaneamente em tudo quanto é susceptível de ser conquistado e em tudo quanto é susceptível de nos ser oferecido. Aquilo que desesperadamente tende a faltar-nos é compensado por tudo quanto esta Milonga tem, por tudo quanto esta dança nos rodeia. Lamento só tão tarde ter descoberto este lugar mais que sensível do inferno.
Voltas a beijar-me, mais profundamente, mais languidamente, e dizes sentir na minha boca um estranho gosto a veneno. É pura ilusão esse teu gosto. Não me temas, pois começa a ser tarde para aprenderes a ter medo. Sinto falta do calor que de em vez em quando transmites quando me viras o corpo. Ter-te em meus braços é a mais bela, a mais extirpável forma de desejo que ainda falta manifestar-se em mim. Tomar-te e ter-te em mim, ainda que brevemente, é a mais deliciosa chaga que se abre e fecha sobre uma secular e fosforescente sequência de perigos e tentações. Pesadas serpentes desenroscam-se de mim e vêm cair em volta do teu corpo. Saboreemos o mais doce sabor do profundo crepúsculo.
Posso abraçar-te?
Os corpos continuam a dançar sem alma, nauseados pelo sexo mercenário, pelo proxenetismo descarado que os cerca. Como é bom ter-te em meus braços, como é bom poder acompanhar com o teu corpo estes arabescos eróticos que o Tango nos proporciona. Dos meus braços sai um venenoso perfume que se insinua pelo entrançado da tua viscosa pele e que, sem se desprender do meu corpo, mergulha no teu peito para irromper, no teu coração, em terríveis arcos.
A morfina que da minha boca saiu aquando te beijei, produz já o seu efeito, já nem sequer sentes dor ou tristeza. Os sonâmbulos são os mais felizes porque se distanciam o suficiente do ácido que a vida deixa cair sobre nós. Agora que encontraste a mais lenta das drogas, agora que me amas, agora que o prazer obscurece a tua face transformando-o no mais mórbido dos lugares, posso revelar-te quem sou, pois a lua já vai alta e obscura.
Estás a viver a utopia do Tango – encontrar um amor genuíno. E este salão demonstra-te tal caminho impossível. O que de luz ainda se vislumbra parece apenas fruto das longínquas e alvíssimas lâmpadas da rua. Julgas ver, na tua radiosa palidez, vestidos de noite suspensos no ar. Não te surpreendas, pois, como é possível ficar surpreso ao tentar amar desta maneira, em plena dança macabra?
Amor, o único amor que existe é um amor carnal, envolto numa sombra venenosa, num calor mortal. Um dia virá em que o homem saberá reconhecê-lo como seu único senhor e prestar-lhe-á honras até mesmo nas misteriosas perversões em que ele o envolve. Entre nós, entre passos que agora se submetem ao meu comando, reina uma suficiência total, um mundo insólito. Aliás, o insólito é inseparável do amor, preside à sua revelação. O sexo do homem e o sexo da mulher atraem-se um ao outro como um íman a partir do momento em que entre eles se insinua toda uma trama de incertezas que a passo e passo se renovam. O amor entre nós avolumou-se desde o início da dança.

Desejo-te. Só a ti desejo. Ninguém terá jamais acesso a ti. Mesmo que fujas acabarei por te encontrar, porque te amo, porque te prendo com uma seda envolta num circuito de iluminações. Só pretendo unir-te a mim, seres uno com a minha carne.
Enrolo-te, estás preso na minha teia. Pois foi à aranha que lhe deram forma de mulher. O meu corpo negro, as minhas patas já te circundam. Já sinto o teu coração a pulsar nas minhas invioláveis profundezas, na capa negra de veludo que cubro sobre ti e onde se incuba o meu poder. As tuas forças desvanecem-se, o meu veneno é rápido e insidioso. Procuras mexer-te, procuras desembaraçar-te, mas estás preso na teia. Podes tentar fugir, podes até gritar, podes até esconder-te, mas não podes decerto escapar-me. Estás emaranhado na teia que te construí, e a picada que te infligi com o meu beijo é suficientemente dolorosa para te paralisar o corpo e os teus ossos. Por isso, só agora começas a sentir dor, só agora começas a contorcer-te de sofrimento.
Gritas, esbracejas, danças ainda, acusas-me de enganos, de ter o diabo escondido em mim, mas esqueces-te que a palavra amor faz parte da estratégia da aranha. Porém, não te preocupes. O ritmo frenético do violino, o estilhaçar de sons do piano faz antever o fim deste tango, o fim deste ritual. Em breve estarás livre. As pernas já se cruzam firmemente, a esquerda por cima da direita, no “cinco”, o torso já está virado para a frente e as pernas retesadas, os corpos já deslizam. A música irá acabar ao sexto tempo. O violino não se cala, o acordeão arrebata em arrepios. Parvos aqueles que sempre julgaram que é o homem que comanda a mulher, conduzindo-a, enquanto desliza pela pista. Os aplausos já se fazem ouvir. Em breve estarás livre. Os acordes preparam o compasso do fim. Ao sexto tempo tudo terminará, ao sexto tempo tudo terminará, ao sexto...um...dois...três...quatro...cinco...seis.
Posso matar-te?
(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografias de Naushér Banaji)
Um texto magnífico e, umas fotos de tirar a respiração...
Lembrei-me de um poema de li há pouco e fui em busca dele... deixo-te aqui...
"No exílio do quarto escuro,
Tragando spleens de Baudelaire,
Entre três tangos e dois tintos
Redescubro meu lado impuro,
Amaldiçoado, sórdido, porém — por que não? — distinto!
Ora, sou caído, não minto...
A Decadência, velha rota, sem dentes,
Me diverte, pulando saltos frementes,
Tangueando, bêbada, só e torta...
Cambaleia a doida (coitada...) e ri, indecente...
Maldito sou! (a natureza condena)
Pois bem! Dancemos, bela bêbada velha!
Tornemos mais rota e impura a cena,
Sangremos de tinto a tela imperfeita,
Bailemos, para levarmos à Noite a cor vermelha!"
(Poema de Ricardo Ruiz)
Um abraço e bom domingo. Vou linkar-te mais logo, quando tiver tempo... ;-)
Afixado por: Menina_marota em março 13, 2005 11:29 AMExplenderoso...sem palavras=x
Peço imensa desculpa por não conseguir exprimir mais nada, mas este texto só merece um silêncio perfeito.
Sem dúvida, um poema relevante aquele que aqui me deixas, Menina_marota.
O texto: sim magnífico. As fotos: pareceram-me adequadas, numa opção de recurso, não óbvio, à dança do Tango, no âmbito daquela que seria uma imagem mais directa ou tradicional. Preferi fazer diferente.
Obrigada por este comentário especial.
Beijinho e continuação de bom-fim-de semana :)
Silent girl:
ok, ok... o silêncio fica-te bem ;)
Sim, também não posso deixar de concordar contigo.
Beijinho :)
{ … hoje deixo só um mimo: “caminho [eu] em teus momentos [descritos; de alma]; [mas] em teu corpo [desejo] e de momentos [agrado] caminho [nele] imerso [dependo]” © o5elemento … }
Afixado por: o5elemento em março 13, 2005 07:00 PMA Paula escreve muito bem. Apreendeu e transmitiu a essência da dança. Belas imagens. Beijo
Afixado por: Monalisa em março 13, 2005 11:00 PM