março 12, 2005

A ORIGEM DE TODAS AS VIOLÊNCIAS

A origem de todas as violências entre os homens, e, por conseguinte, entre o homem e a mulher, está em que rarissimamente as pessoas se encontram de acordo acerca do valor de um facto, de um pensamento, de um estado de alma: o que para um é tragédia, é jogo para outro. E mesmo se, inicialmente, ambos estão dispostos a considerar como séria uma situação, acontece - pois há sempre uma leve diferença de intensidade - que o mais sisudo é levado a exagerar a gravidade da coisa, e, o mais leviano, a transformar o trágico em jogo, por causa do amor da euritmia, da coerência, do absoluto que existe em todos nós.

Poderia fugir a este destino quem soubesse estar só - esperar todas as suas exigências no círculo fechado da sua pessoa. Mas somos feitos de tal maneira que mesmo os nossos movimentos mais íntimos procuram apoio num consenso social. E até os que vivem mais solitários são levados, quando encontram uma resposta no próximo, a lançarem-se-lhe nos braços com mais entusiasmo e exclusivismo, tendendo a criar uma múltipla solidão de almas. É por isso que nunca se aconselhará demasiado, a quem está convicto da essencial solidão de cada um, que se perca em inúmeros e, por conseguinte, pouco profundos liames sociais.

A verdadeira solidão, isto é, aquela que faz sofrer, traz consigo o desejo de matar.


(Cesare Pavese- O OFÍCIO DE VIVER. Fotografia de Alberto Monteiro)

Publicado por void em março 12, 2005 08:16 AM
Comentários

Finalmente consigo comentar aqui, depois de tantas tentativas (acho k vai desta) e, já perdi tantos textos...
Parece-me que já fiz esta pergunta, mas quero perguntar-te se te posso linkar no meu "refúgio"?

Sobre este assunto, que te posso dizer? A violência é terrível. Mas muitas vezes, a maior parte das vezes, é assumida como se, de um mal necessário fosse.

A luta dos sentimentos humanos e a perda da verdadeira personalidade, confere à vitima e ao agressor, um terrivel confronto, que por vezes, não conseguem separar.

Um abraço. Voltarei mais logo, com calma... que hoje é sábado e tenho pouco tempo. Jinhos e bom fim de semana. ;-)

Afixado por: Manina_marota em março 12, 2005 12:05 PM

Gostei imenso deste post (para não variar), um bom tema de reflexão...a fotografia é excelente.
Beijo e bom fim de semana

Afixado por: Micas em março 12, 2005 03:32 PM

Desculpa "menina_marota", mas não posso concordar com a ideia de que por vezes a violência é um mal necessário. Nada pode justificar a destruição do "outro". O que acontece é que o ser humano perdeu o respeito por si mesmo. Como tu bem disseste, perdeu a sua "verdadeira personalidade". E é por isso que as pessoas andam tão egoístas. Só assim consigo entender a loucura generalizada em que o mundo vive. Excelente post "void". Faz todo o sentido. Bjs

Afixado por: whitesatin em março 12, 2005 03:42 PM

Saber estar só, no sentido que aqui é dito, não é fácil e está ao alcance de muito poucos. Muitas e pouco profundas ligações sociais... isso resolve alguma coisa? Não sei. É uma reflexão complicada de fazer. Beijinhos, Sandra

Afixado por: lique em março 12, 2005 10:14 PM

Olá;
O Zecatelhado está de volta às visitas aos seus amigos, depois de ter mudado de "casa".
Está agora em www.tadechuva.weblog.com.pt

Um bom fim de semana para esta casa, e ainda
Aquele Abração do
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em março 13, 2005 01:29 AM

Tenho andado um pouco ausente ... mas isso é por razões pessoais e falta de vontade de fazer seja po que for. Hoje aqui vim, já com saudades deste espaço e ebncontrei o qu eé já costume: um belo texto, embora duro, mas muito adequado aos tempos actuais, ao mundo actual, cheio de egoísmo, solidão e violência. Um beijo e bom fim de semana.

Afixado por: Pink, the Lady em março 13, 2005 01:33 AM

Uma grande passagem que para aqui seleccionaste.
O neo-realismo impregnado das mensagens do pós-guerra, a par e passo das grandes passadas dadas sobre a nova abordagem de observação do Mundo, são um legado.
Esta reflexão cai em cheio sobre os acontecimentos que se lembraram em efeméride. O terrorismo, por exemplo, expressão de violência sem rosto a atacar sem rosto - a solidão na sua parcela de anonimato, elevada ao colectivo e a sua subsequente reacção. O colectivo, tratado como uma entidade indivualizadamente anónima, é o gigante da sombra que a luz projecta na parede da caverna.
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(Como falo que nunca mais acabo, evito muitas vezes comentar, expressar as minhas reacções, etc. Ando em falta nos comentários, mas não na leitura. Tens trazido aqui, sempre pertinentemente, temas/textos que fazem deste teu espaço um serviço público. Clap.. clap!!)
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Lots of kisses & thks

Afixado por: MJM em março 13, 2005 10:14 PM