Levando às últimas consequências a concretização do que referi/sublinhei no post anterior relativamente à linguagem minimalista de Jon Fosse, deixo-vos hoje com excerto de "Inverno". Datada de 2000 é uma peça cuja estória tem a ver com o encontro entre um homem e uma mulher. Um homem e uma mulher que nunca se viram. Nunca se viram, mas cuja atracção parecia estar destinada. Ela avança em primeiro lugar. Ele, casado e com dois filhos, hesita, recua. Depois, verifica-se o contrário e ele decide abdicar do seu passado e partir. Partir com ela. Ela não crê que seja possível. Tem receio. Não acredita. Mas...
Uma estória de duas pessoas que se poderiam ter amado desde determinado momento do passado. Duas pessoas que poderiam... Duas pessoas que...
Registo que esta peça está em cena no Teatro Taborda (Lisboa) até 20 deste mês. As interpretações são da responsabilidade de Pedro Lima e Sylvie Rocha. Encenação de Jorge Silva Melo.

I
Negro. A luz aumenta. Um banco de jardim. Vindo da direita entra um homem de sobretudo, que se senta na extremidade esquerda do banco. Logo de seguida entra uma mulher, vestida de um modo ligeiro, sem casaco comprido, e senta-se também no banco, mas na extremidade do outro lado. O homem levanta-se quase de imediato, dirige-se para a esquerda.
A MULHER
Dirigindo-se ao homem
Ei
Ei tu
Ei
Ei
O homem continua a andar
Ei
Tu aí
Ei
O homem pára, vira-se para a mulher
Sim tu
Que merda é que tu julgas
Ires-te assim embora
sim
sim estou a falar contigo
pois
não percebes
Estou a falar contigo
Pois estou
Não estou a falar contigo
Merda claro que estou a falar contigo
mas tu
pois que é que tu fazes
pois tu
Levanta-se e quase cai
pois
tu porra pões-te é a andar
como se eu não estivesse a falar contigo
mas eu estou a falar contigo
Tu bem me ouviste
Ou foi outra pessoa qualquer
Olha à sua volta
Está aqui mais alguém
Talvez tenhas pensado que
outra pessoa
sim que eu
Interrompe-se
Percebes
Ou não não percebes
Não percebes nada
ou quê
Nada
Bastante alto
Falo contigo
E tu pões-te a andar
que porra
é que
tu
Bastante baixo
sim
que estás tu a fazer aqui
Sincera
porque é que estás aqui
há alguma razão
Ri-se para si mesma
sim claro
pois claro
Interrompe-se
claro
sim é evidente
Claro que tens uma razão
Eu bem percebo isso
sim
é evidente
Eu isso bem percebo
Eu percebo bem que tens uma razão
Eu percebo tudo
tudo percebo eu
eu percebo
eu percebo
tudo percebo eu
Abruptamente bastante alto
Ei tu
Sim tu
Ele vira-se, pronto a ir-se embora
Sim tu
Ei
Ei
Ei
Ei
estou a falar contigo
não estás a ouvir
Sim
Acentuando as sílabas todas
estou a falar contigo
Quase suplicante
Estás a ouvir
Zangada
Estou a falar contigo
Pois então ouve-me
que diabo
por que diabo não me ouves
Estou a falar
Pausa curta
contigo
Contigo
O HOMEM
Olha para ela
Sim
A MULHER
Eu falo contigo
E tu que dizes
Só dizes sim
sim
sim
sim
sim porra
O homem vira-se, apresta-se a partir
Não não vás embora
Fala um bocadinho comigo
não vás
não podes ir assim
Olha para ele, aproxima-se um pouco
Não vês
Não vês nada
Não enxergas
Bom
alguma coisa tens de perceber
Não é verdade
Ou não percebes nada
Zangada
Nada
Nada de nada
Nada
O HOMEM
Não, não

A MULHER
Fala um bocadinho comigo
Aponta para o banco, aproxima-se dele
Não queres falar comigo
Eu estou aqui
Posso falar contigo
Tu queres falar um bocadinho comigo
não queres
O HOMEM
Claro que quero
A MULHER
Diz alguma coisa
então
diz alguma coisa
O HOMEM
Digo alguma coisa
A MULHER
Sim
Pausa
Olha para ele
Não podes dizer qualquer coisa
Pausa curta
ou talvez
talvez
Bruscamente
Vamos a qualquer sítio
O HOMEM
Tu e eu
Ela faz que sim com a cabeça
Pausa
Que queres dizer
A MULHER
Ir a qualquer sítio
tu e eu
é o que eu digo pois
não podemos ir a um sítio qualquer
Aproxima-se dele, inclina-se para ele, que fica muito direito, sem se mexer, ela encosta-se a ele e depois recua, olha para ele
Eu
a tua mulher
tu sabes
não é
Estende-lhe uma mão e ele aflora-lhe a ponta dos dedos, olham um para o outro
É verdade não é
É verdade que sou a tua mulher
Largam-se as mãos
Pausa
Ou então
Pausa curta
Pois não sou nada a tua mulher
pois se nem sequer te conheço
Sim
Sim eu conheço-te
Sempre te conheci
Eu sei
Eu vejo
Eu percebo
Eu vejo
bem como é
eu bem vejo
E tu também sabes
Tu bem sabes que sou a tua mulher
não é verdade
tu sabes
não é verdade
Sou a tua mulher
eu
não é verdade
O HOMEM
Parecendo não entender
És a minha mulher
(...)
IV
Escuro. A luz aumenta. A cama de casal. A mulher e o homem entram pela esquerda, desprendem as mãos, ficam de pé a olhar um para o outro.
O HOMEM
Um pouco animado
Pois então
cá estamos
A MULHER
Sim
Pausa
(...)
O HOMEM
Queres beber alguma coisa
A MULHER
Ainda não
não
Pausa
Quando é que partes
O HOMEM
Não sei
A MULHER
Não sabes
O HOMEM
Não por que é que
Interrompe-se
A MULHER
Que é que queres dizer
O HOMEM
Não
eu
pois
pois talvez não vá
Ri-se um pouco
A MULHER
Não vais
O HOMEM
Não
eu
pois
Ri-se um pouco
talvez
pois talvez fique aqui
não aqui não
claro que não posso ficar aqui
quer dizer
mas
A MULHER
Ficas
Não não podes ficar
O HOMEM
Porque não
A MULHER
Não
Não pode ser
O HOMEM
Mas
Eu não vou
A MULHER
Não tens de ir
tu vais ser
sim
Pega-lhe na mão
tu vais ser tão infeliz
a tua casa
os teus filhos
Ligeiramente interrogativa
Dois filhos não é verdade
Ele acena com a cabeça
Mulher e filhos
O HOMEM
Sim
A MULHER
Um lar e uma família
Pausa curta
Tu é que tens sorte
tens família
trabalho
tudo
Larga-lhe a mão
(...)
O HOMEM
Podemos ir embora
para outro sítio
(...)
A MULHER
Partir
tu e eu
vamos não é
daqui para fora
Para outro sítio
Não é
Ele faz que sim com a cabeça
E depois
só tu e eu
é que vamos estar
lá
não é
Ele faz que sim com a cabeça
E ninguém vai saber de nós
O HOMEM
Não ninguém
(...)
A MULHER
Não
tens mesmo de perceber
Não é assim
O HOMEM
É assim
A MULHER
É assim
O HOMEM
É assim
A MULHER
Vamos partir
O HOMEM
Pois vamos
A MULHER
Para outra cidade
O HOMEM
Sim
Para um sítio completamente diferente
A MULHER
Tu gostas de mim
O HOMEM
Sim gosto
A MULHER
Gostas mesmo de mim
O HOMEM
Sim gosto
A MULHER
Não é possível
O HOMEM
Sim é possível
A MULHER
Não é assim
O HOMEM
E então
A MULHER
Sim talvez
O HOMEM
Vamos
A MULHER
Um sítio completamente diferente
O HOMEM
Sim
Ela deita-se ao lado dele e ele abraça-a, ela abraça-o também
A MULHER
Não é assim
O HOMEM
É tudo assim
A luz diminui. Escuro.
(Jon Fosse- INVERNO. Peça editada nos Livrinhos de Teatro. Artistas Unidos. Livros Cotovia. Fotografias resultantes das representações levadas a cabo pelos actores referidos, no âmbito dos Artistas Unidos.)
Inverno faz-me lembrar um filme k vi italiano mas chamado Inferno devias ver!lol Obrigado pelas tuas visitas ao meu humilde cantinho!***bjs
Afixado por: xana em março 10, 2005 11:04 PMOs "riscos" do TCA para este post s#ao o complemento perfeito ;) Beijinho
Afixado por: Micas em março 12, 2005 03:27 PM