No passado dia 19 de Janeiro, no âmbito de "Uma semana no Teatro"- 1, editei excerto da peça "A noite canta os seus cantos" (1998), da autoria do dramaturgo norueguês Jon Fosse. Uma vez que nesse mesmo post faço uma breve apresentação do autor e do seu trabalho, hoje não me vou repetir no que a esses aspectos respeita. Vou sim deixar escritas umas palavras relativas à peça cujo excerto apresento aqui, hoje.
Escrita em 1996 "Vai vir alguém" estreou em Portugal pela mão dos Artistas Unidos no Espaço A Capital/Teatro Paulo Claro, a 4 de Fevereiro de 2000, tendo sido a representação levada a cabo por Isabel Muñoz Cardoso, Diogo Dória e Paulo Claro. A encenação foi da responsabilidade de Solveig Nordlung. Aborda a peça, a relação entre um homem e uma mulher que acabam de comprar uma casa para poderem desfrutar de uma vida a dois. A sós, sem mais ninguém. Longe de tudo e de todos. Essa casa situa-se junto ao mar, não é nova mas serve, à partida, para concretizar a vontade de ambos. No entanto, o problema do aparecer ou vir alguém, instala-se. E não causa bom estar. A mulher interroga-se. O homem nega. Depois o contrário. E... acaba mesmo por vir alguém. Isso acontece. E esse alguém é...
O homem tem receios. A mulher tranquiliza-o. Tranquiliza-o relativamente a si. Ao seu amor. À sua vontade/desejo de estar com ele. Só. Sem mais ninguém. Mas... e... pois... enfim...
Deixo-vos, então, com esta peça que permite que continuem a perceber e a amadurecer a vossa consciência relativamente ao estilo minimalista de Jon Fosse. Um estilo que percorre toda o enredo, numa imensidão de palavras e expressões repetitivas, curtas, repetitivas, curtas, repetitivas, curtas e onde a pontuação (praticamente) não existe mas que desembocam brilhantemente num final determinado, envolvendo imensamente os espectadores.
O tempo. O espaço. Um homem. Uma mulher. O Amor. As emoções. Tudo. Simples e complexo. De uma grande simplicidade, mas simultaneamente, de uma grande complexidade. E assim também, o texto dramático e a sua representação.
Ora leiam:

I
Um quintal em frente a uma velha casa muito degradada, pintura a cair e vidros partidos. Apesar de deteriorada a casa possui uma certa beleza rude por estar isolada numa falésia com vista sobre o mar. Um homem e uma mulher entram no quintal vindos da esquina direita da casa. Ele tem cerca de 50 anos, é forte, tem cabelos grisalhos compridos, um olhar fugidio e movimenta-se com lentidão. Ela tem cerca de 30 anos, é alta e forte, com cabelos pelos ombros, grandes olhos e gestos um pouco infantis. O homem e a mulher rondam a casa de mãos dadas, não tiram os olhos da casa.
ELA
Alegre
Agora estamos quase na nossa casa
ELE
A nossa casa
ELA
Uma casa velha e bonita
Longe das outras casas
E das outras pessoas
ELE
Sós tu e eu
ELA
Sós e juntos
Ela levanta os olhos para a cara dele.
A nossa casa
Vamos ficar juntos nesta casa
tu e eu
sós juntos
ELE
E não vai vir ninguém
Param e ficam a olhar para a casa.
ELA
Agora chegámos à nossa casa
ELE
E é bonita a casa
ELA
Agora chegámos à nossa casa
À nossa casa
onde vamos ficar juntos
Sós tu e eu
à casa
onde tu e eu vamos ficar
sós juntos
Longe dos outros todos
A casa onde vamos ficar juntos
sós
tu eu num só
ELE
A nossa casa
ELA
A casa que é nossa
ELE
A casa que é nossa
A casa onde não vai vir ninguém
Agora chegámos à nossa casa
A casa onde vamos ficar juntos
sós
tu eu num só
Voltam a andar ao longo da casa.
ELA
Um pouco preocupada.
Mas é um bocado diferente
não era assim
que eu a imaginava
De repente, assustada
Porque vai vir alguém
isto aqui é tão isolado
que alguém há-de vir
Ele continua a olhar para a casa como que perdido nos seus pensamentos.
Que longo caminho até aqui chegar
sem termos visto uma única pessoa
que longa viagem
sem termos visto uma única pessoa
apenas a estrada
E agora aqui estamos em frente a esta casa e
Com maior intensidade,
imagina quando ficar escuro
Imagina quando vier um temporal
quando o vento
atravessar as paredes
quando tu ouvires bater o mar
quando as ondas crescerem fortes
quando o mar for branco e preto
e imagina o frio que fará na casa
quando o vento atravessar as paredes
e imagina como estamos longe das pessoas
o escuro que será
e silencioso
e imagina como o vento vai soprar
e as ondas vão bater
imagina como será no outono
na escuridão
com a chuva e a escuridão
Um mar que cresce branco e preto
e só tu e eu
aqui nesta casa
Tão lonbge das pessoas
ELE
Tão longe das pessoas
Pausa.
Agora estamos finalmente sós.
ELA
Um pouco preocupada.
Mas nós não queremos afastar-nos de todos
Não era de todos
Só de alguns
não era
Ele pára e olha para ela.
ELE
Afastámo-nos de todos os outros
Afastámo-nos dos outros todos
Ela pára e olha para ele.
ELA
Perguntando.
Dos outros todos
Afastámo-nos dos outros todos
ELE
Afastámo-nos dos outros todos
ELA
Mas é possível
Os outros
não estão lá na mesma
Podemos mesmo afastar-nos dos outros todos
Não é perigoso
ELE
Nós só queríamos estar sós
São os outros
os outros todos
que nos separam um do outro
Os outros todos
Mais alto.
Só queríamos estar juntos
um com o outro
sós
num sítio qualquer
só queríamos
estar sós num sítio qualquer
onde pudéssemos viver
Onde tu e eu pudéssemos estar sós juntos
Sós
tu e eu num só
Era isso que queríamos
Só queríamos estar
sós um com o outro
Sós
tu e eu num só
ELA
Mas será que nos vão deixar estar sós
É como se aqui estivesse alguém
Desesperada.
Está aqui alguém
Vai vir alguém
(...)
VI
Ela volta para a sala. Ele continua deitado no sofá com a cara virada para a parede e os joelhos levantados num triângulo contra a parede. Ela senta-se na borda do sofá. Ele mantém o olhar na parede. Longa pausa.
ELA
Calma.
Já se foi embora
Pausa. Um pouco mais alto.
Estás a ouvir
Já se foi embora.
Pausa. Em voz baixa.
Estás a dormir
Ela põe a mão no ombro dele, sacode-o.
Foi-se embora
Já se foi embora
Ele olha para ela com olhos negros. Assustado.
O que é que tens
Ele volta a olhar para a parede.
O que é que tens
Já se foi embora
Agora
estamos sós tu e eu
Ela volta a sacudir-lhe o ombro.
Diz qualquer coisa
O que é que se passa
Ela debruça-se por cima dele, põe os braços à volta dele.
O que é que tens
Então meu querido
o que é que tens
ELE
Para a parede.
Estás contente
Agora
Estás contente
ELA
Desesperada.
O que é que tu queres dizer com isso
Estás a assustar-me
ELE
Agora
conseguiste o que querias
Pausa. Ela levanta-se, vai até meio da sala. Ele olha para ela. Irónico.
És jeitosa
És mesmo jeitosa
É claro isto aqui fica muito isolado
Estou mesmo a ver
Estou a ver
ELA
Não sejas assim
Estás a assustar-me
ELE
Estou a ver
Estou a ver muito bem
ELA
O quê
ELE
Tinhas que
ELA
Um pouco zangada.
O quê
ELE
Quando é que lhe vais telefonar
ELA
Não vou telefonar
ELE
Então porque é que aceitaste
o número de telefone dele
ELA
Tinha que ser
Senão era estranho
Ele deu-mo
ELE
Claro
E tu aceitaste
Estou mesmo a ver
(...)
VII
Ele sai pela porta da entrada, e dirige-se à esquina direita da casa e procura-a. Vai até à esquina esquerda da casa e procura-a. Depois vai até ao meio do quintal.
ELE
Não ela não vai telefonar
Ela deve estar a voltar
E então vamos ficar sós
vamos ficar sempre
sós juntos
vamos ficar
sós
tu e eu num só
Ele aproxima-se do banco e senta-se. Poisa os cotovelos nos joelhos e apoia a cabeça nas mãos. Olha fixamente em frente.
Sós juntos
tu e eu num só
Riso azedo. Longa pausa. Ela aparece atrás da esquina esquerda da casa, olha para ele carinhosamente. Ele olha para ela e depois para o chão. Ela senta-se ao lado dele no banco. Pausa longa. Cortina.
(Jon Fosse- VAI VIR ALGUÉM. Peça editada na revista Artistas Unidos. Ano 2. Setembro. Nº 2. Fotografias da representação levada a cabo pelos Artistas Unidos)
Nada a dizer. Perfeita a escolha, como sempre.
beijos
Afixado por: contador de histórias em março 8, 2005 12:45 PMHoje sempre consegui vir fazer a minha leitura.
Tenho tido problemas tecnicos que me impedem de postar e visitar os meus espaços de eleição, como este. Sandra como sempre, as tuas escolhas são excelentes, já me ando a repetir. Também gostei de ler a cena de Jacinto Lucas Pires. Este blog faz a diferença, Parabéns e um beijo.
Gostei de ler estes extractos. Bem escolhido! Um beijo e boa semana.
Afixado por: Pink, the Lady em março 9, 2005 10:21 PM