março 07, 2005

EM CENA: OS DIAS DE HOJE

Trago hoje para cena uma peça de Jacinto Lucas Pires, autor pertencente à nova geração de dramaturgos portugueses.
Jacinto Lucas Pires nasceu no Porto em 1974. Estudou Direito na Universidade Católica e frequentou a New York Film Academy.
Escreveu/Tem escrito argumentos para curtas-metragens, destacando-se nesta área a escrita e realização do seu Cinemaamor (1999).
Tem vários livros publicados encontrando-se no seu âmbito textos para Teatro. A este nível temos: "Universos e frigoríficos", "Arranha-Céus", "Escrever, Falar", "Figurantes", "Coimbra B" e "Os dias de hoje", três últimas peças estas compiladas numa mesma obra.
Apresento-vos excerto da peça "Os dias de hoje" que estreou no Estúdio Zero, no Porto a 8 de Junho de 2003. Quanto ao seu conteúdo: um olhar pela sociedade contemporânea, onde o consumo, a tecnologia e as diferentes línguas, o seu conhecimento e aplicar estão presentes por toda a parte. Um registo dos nossos quotidianos, dos nossos ritmos, do que nos rodeia, do que nos envolve e condiciona. Situações. E personagens nas situações. E um linguajar reflexo das evoluções, das preocupações, das necessidades, do cada vez maior convívio global. Duas personagens escolhidas. Dois exemplos. Um conjunto que ilustra a sociedade, hoje.


Pessoas que dormem em automóveis
Pessoas que vão ao cinema à tarde, à primeira sessão, na pausa do emprego, para dormirem
Pessoas que dormem nos gabinetes quando os colegas já foram para casa e há silêncio, mulheres e homens debruçados sobre as mesas, os teclados dos computadores, os relatórios, os despachos, as emendas, objectos quotidianos castanhos e beges, tipo sofisticado-incaracterístico
Pessoas que fingem dormir quando os seus amores chegam ao quarto cheios de ideias
Pessoas que dormem para sonhar, propositadamente para sonhar
Pessoas que dormem o domingo inteiro
Pessoas para quem o sono é um cansaço
Pessoas que dormem na paragem à espera do autocarro porque se dormirem o autocarro vem mais depressa e as outras pessoas não chateiam no entretanto
Pessoas exactas que dormem exactamente até faltar só um minuto, um segundo, para o despertador tocar.

(...)

Perder tempo com:
Computadores que encravam
Compras que apitam à saída das lojas
Embrulhos de cê-dês ou tinteiros ou bolachas
Ecrãs de informações cheios de sub-hipóteses, alternativas,
ex... ex... excepções
Telefonemas para máquinas em que se tem de responder (com voz clara e boa dicção) sim ou não, um ou dois ou três, ou então nada e ficar a aguentar as quatro estações de Vivaldi à espera da telefonista, tradicionalmente uma mulher.
Mensagens indesejadas de anedotas, avisos, publicidade, pornografia - perder um tempo de morte a apagá-las:
Zip.

(...)

Música de elevadores, aeroportos, parques de estacionamento, salas-de-espera de hospitais, dentistas, clínicas de cirurgia plástica, empresas
Música de centro comercial chocando com a música individual de cada loja
Música de joguinhos, música de telemóvel, música de ficar à espera que o operador atenda
Música municipal nos altifalantes da praça
Música subterrânea no metro
Música no automóvel, hits kitsh dos anos oitenta que nos alegram e nos fazem cantar (surpreendentemente sabemos bocados enormes das letras)
Música clássica no clichê de uma noite de solidão e chuva
Música con... con... contemporânea
Música de acaso, música à venda, música de dança, música do mundo
Música sacada da net
Música só escrita, parada na pauta como matéria, objecto ambíguo, de uma voz que nos mata
Música rep
Érre é pê: ritmo e poesia.

(...)


1

Numa rua, dois caixotes de lixo.
Fernando Travoso, mendigo, abre um com muito cuidado e põe o braço dentro. Mas não olha para lá; olha para o alto, concentrado só no tacto, à procura de alguma coisa.
Mas não encontra o que procura, e tenta no segundo caixote. Faz o mesmo, abre com cuidado, põe o braço, tacteia sem olhar. A certa altura parece que encontra alguma coisa (o rosto alegra-se por um instante), mas afinal não era nada, falso alarme.
Senta-se no chão, desiludido - e nessa altura repara, ao fundo, numa coisa qualquer. Primeiro, não acredita, finge que não viu coisa nenhuma. Depois, olha outra vez, com mais atenção. Olha em frente, faz de conta. De repente levanta-se e corre para lá, em direcção à tal coisa. Pega nela: é um bocado grande, mesmo grande, de papelão. Fernando sorri.
Leva o papelão para o lugar onde estava sentado; sacode-o, coloca-o no chão, arranja-o, endireita-o, tenta ver como é que fica melhor. Depois tira os sapatos e vai para cima do papelão, deita-se. Está feliz; vai dormir, finalmente. Mas nesse momento aparece um grupo de úliganes.
Ele levanta-se, olha-os. Eles (sempre meio no escuro) nem dão conta que ele está ali.

FERNANDO- Perdom por la demanda mas... A quantos quedou le jogo?

Eles param e viram-se. (O rosto dele alegra-se por um instante.) Vão ter com ele e batem-lhe, batem-lhe, batem-lhe, muros, pontapés. Fernando grita. Espancam-no até ele ficar, a sangrar, no chão.


3

No camarim de um estúdio de televisão Gina, modelo internacional, tira a maquilhagem. Enquanto limpa o rosto, olha-se ao espelho e repete frases do apresentador do programa.

GINA- "Ça is le jaquepote piú fantastiquíssimo que djá foi!" "Bi... bi... bilions de notas, dinheiro, euros ao vivo-e-tão-laife, bilions em digital-directo, em chance-sâraúnde!" "Qui será le sortido telespectador?" "Com nós-outros, Gina, modelo internacional, pra pronunciar los nâmbars!"

No fim aplaude (faz o barulho de uma multidão a aplaudir) e sorri o seu sorriso programado de profissional. Vai até à janela, olha lá para fora por um momento. Tira três comprimidos coloridos de uma caixinha; olha-os na palma da mão.

GINA- Uno. Dois. Tris. Catre. Six. Sete. Eit. Nof. Diz.

Toma os comprimidos. Faz o barulho da multidão que aplaude.


4

Na rua. Fernando Travoso está no chão, ensaguentado. Passos, vem aí alguém: um homem novo, de facto e gravata. Com grande esforço, Fernando arrasta-se um pouco para a frente, levanta a cabeça e estende uma mão a pedir-lhe ajuda.

FERNANDO- Ahh...

Sem parar, o homem tira uma moeda do bolso e atira-a para perto do mendigo. Fernando fica sozinho, a sofrer. Canta.

FERNANDO -

Não regardem mio corpo caído
reparem-não nesta face sangrante
oh plize não luzem tempo comigo
desdignem-se crassos a me tocar

is veri fixe tudo brincadê
le resto is cousa desimportante
só releva la massa flamejante
le resto is mas qual resto cadê

mientras me morro me morro
quanto me morro aqui

Não stopem votras vidas a minuto
regardem-não cete olhar si pazo
is a rosto puro e duro, bruto
carece-não votro feliz parar

nunca-never lessem que mio som
penetre dã da vossa quase-alma
carece-não esbalhar cete calma
de devagareza nel coraçom

mientras me morro me morro
quanto me morro aqui.


10

Gina está no consultório do psiquiatra; este (sempre meio no escuro) ouve-a com um ar sério.

GINA- Há sido terrisível, vilioso, horriplimplante.

PSIQUIATRA- Pronuncie com sereneza, conte tudo-quanto.

GINA- Je manjava dã a ristorante com mio agente e derrepentemente - flop.

PSIQUIATRA- Parle com rectícia, plize.

GINA- Mios lábios - flop - explodiram-me.

PSIQUIATRA- Devagarando cada sola palavra.

GINA- Cê le silicone que hei metido qualque tempo agô.

PSIQUIATRA- "Flop"?

GINA- Dã le ristorante, com todo o mundo lá, mia boca - flop. Há sido... como hei-de dizir?

PSIQUIATRA- Soletre los factos, justo los factos, is tudo.

(...)

Gina levanta-se e sai do consultório - à porta, mesmo antes de sair, de costas para o psiquiatra, tira os comprimidos da caixinha e mete-os na boca.


(Jacinto Lucas Pires- FIGURANTES E OUTRAS PEÇAS. Edições Cotovia, 2004. Fotografia de Bruno Espadana)


Publicado por void em março 7, 2005 06:45 AM
Comentários

Tanta coisa para ler e eu sem tempo...

Afixado por: Distante em março 7, 2005 08:30 AM