março 06, 2005

NAZARÉ

Mar. Morte. Sofrimento. Destino.
Mar. Esperança. Destino.
Mar. Esperança. Sofrimento. Desesperança. Morte. Destino.
Mar. Destino. Incapacidades. Fraquezas. Homens.
Luta. Incapacidades. Destino.
Força. Luta. Amor. Mar. Sofrimento. Destino. Homens.
Choro. Gritos. Amor. Dor. Resignação. Fome.
Mar... Destino... Pobreza.
Destino...
Destino... Homens. Homens.
Destino? Homens?

Fica aqui um outro texto da Paula. "Nazaré". Mais um texto que se abraça desde o início pelo imenso poder de atracção que tem. Um texto muito forte. Muito emotivo. Muito de nos fazer confrontar com aquilo que somos e a forma como nos envolvemos e vivemos com o que nos rodeia. E com quem está connosco ou próximo de nós. E como lutamos... ou não. E como respondemos... ou não. Um texto que não pode, de forma alguma, deixar-nos indiferentes. Pois vejam porquê.

Aos oito dias do mês de Julho do ano de mil quatrocentos e noventa e sete, partiu para Belém o Almirante Vasco da Gama com destino á Índia. Não muitos momentos contados antes de partir nessa grande e misteriosa viagem, veio o navegador pedir protecção a Nossa Senhora da Nazaré, trocando-lhe a prece por uma valiosa e grossa corrente de ouro. Sabe-se pelos historiadores e pelos bisbilhoteiros do reino que, durante a viagem, as embarcações de Vasco da Gama foram assoladas por uma tremenda tempestade. Vendo-se num momento de grande aflição, o navegador lançou ao mar algumas contas que havia tirado, com a permissão de El-Rei, do colar de Nossa Senhora, e com este acto a tempestade amainou e o céu acabou mesmo por clarear. Para sempre ficou então, a Santa do mar, enleada pelas tempestades e pelos mares que banham a nossa saudosa Nazaré.
Levar o peixe à boca é gesto fácil, engoli-lo, melhor ainda, e, perfeito gesto se a fome o reclama. E se é alimento do corpo, é benefício de quem o vende, provavelmente melhor do que quem o pesca, que ganha dinheiro para saúde de quem o compra, e saúde para quem o vende, e esta é a regra. Porém, para haver saúde e dinheiro é preciso que haja quem a não tenha, para que o valor não se perca, e a gula não as desentranhe. E quem as não tem, são mesmo os pescadores que vivem perto da praia da Nazaré, gente que mora onde o riso é tão perto da lágrima, o desafogo tão cerco da ânsia e o alívio tão vizinho do susto. É Inverno e é preciso colocar safios, robalos, sargos, raias, choco, lula, sardinhas, furachões, cavalas e bogas em terra, pois o mar é bravo todo o ano, o que é bom, pois faz os peixes chegarem musculosos à lota.
Perto do Largo Bastião Fernandes, aquele que nos mostra o Pelourinho, e, antes de se chegar à Igreja Matriz da Nossa Senhora das Areias, vivem Nazaré, a mulher, e José Maria, o homem. Nazaré não está só, pois já lhe vem chegando o tempo em que a barriga não aguenta crescer mais, por muito que a pele estique. E ela que até há bem pouco tempo ainda tinha no ventre uma geleia deixada por José Maria, que mais tarde se transformou em gelatina, que mais tarde se transformou em girino, que agora é um tronco cabeçudo e que depois de amanhã será gente. Estranhas as metas de Nosso Senhor e os destinos por Ele designados, pois, dentro do ovo não há diferença. O pobre ainda não sabe que vai ser pobre, o rico ainda não sabe que vai ser rico, o assassino ainda não tem ninguém para matar. Porém, acautelando esta indiferença em resultado de uma futura diferença, disse Nosso Senhor, que podemos fugir de tudo, mas nunca de nós próprios, o que obriga o pobre a ser pobre, porque é de pobreza que ele tem de saber, e pergunta ao rico se quer ser rico, pois é riqueza que ele quererá ter. E, Nosso Senhor é muito activo, mas pouco falador, e por isso Nazaré, que ainda não sabe o que é a riqueza, embora pouco lhe falte para ensinar pobreza, deleita-se a acariciar a barriga, pois ela, rainha do seu ventre, e quantas mulheres o desejariam ser, traz uma menina dentro dela, que depois será mulher, e que depois será o que for, pois esse é o mistério da vida. Lançamo-la ao ar com uma intenção que é nossa, mas ela escolhe sempre o seu caminho, dentro dos caminhos que lhe são impostos. No entanto, agora tanto Nazaré quanto José Maria, tanto o rei e a rainha, tanto o presidente e a presidenta, tanto o ministro e a ministra, tanto o grande como o pequeno, estão iguais, deitados e virados um para o outro. José Maria dorme com a mão sobre a barriga de Nazaré, pois tem medo que, Nosso Senhor, que nunca dorme, esteja com a mão em alguém de apuros, e possa esquecer-se de guardar uma mão para eles.
José Maria acorda sempre à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de pescador. À medida que lava a cara e as partes, vê retirar-se bem devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas para depois sentir o suspiro e o alívio do dia. Porém, hoje, sente a escuridão sair de cima de tudo, menos de si. Nem mesmo Nazaré, que dorme agarrada ao seu ovo, tem retirada de si, uma escuridão mais escura que a gente de África.
Nazaré acorda, e quando abre os olhos é assaltada por uma ideia de despedida. Um peso pesa-lhe sobre o coração, maior do que aquele que lhe pesa sobre a alma, de tanto já ter sofrido nesta vida. Não vás para o mar, que vejo uma cruz mesmo atrás de ti. Não posso, grita ele, e bruscamente veste a camisola de malha onde se aconchegam os piolhos enquanto o cabelo ainda dorme. Não posso deixar o que aí nos vem sem comida. É Inverno e, sem peixe, ninguém nos compra e nem empresta nada. Aquela gente só quer ver peixe para que alguém lhe dê dinheiro, pois, a final das contas, o que toda a gente quer é ver dinheiro. Quem não o tem que se contente em ver a gente que o dinheiro quer ver. Pois, aqui entre nós, o dinheiro há muito que é cego e só pisca o olho a quem se aperalta para o ter. Nazaré torna a gritar. Não vás, que vejo agora pelo espelho duas novas cruzes, uma grande e uma pequena mesmo atrás de mim. Com isto torna a gritar novamente, espavorida agarrando-se a José Maria. Mas, o homem, incompreendido e incompreensível, empurra-a. Não me faças isso, e é tal a força que Nazaré o larga, assustada, quase arrependida do medo que lhe demonstrou. José, Maria de nome, fecha a porta e deixa a mulher, embalada no seu choro e a rezar a quem mais tarde o marido e os homens rezarão também.
Sabemos que no juízo há loucura, mas desconhecemos se na loucura haverá juízo. Enquanto isso, a gente velha vai-nos ensinando que de louco todos tempos um pouco. O dia, esse que não é mais louco que os loucos, ainda teima em nascer. Duras nuvens carregam o céu. São cinco horas da manhã na praia, e ainda há tanto trabalho a fazer que não se pode perder um minuto. Ainda é preciso pregar as tábuas de madeira ao barco, erguer a vela para que a luz do sol não caia tarde de mais sobre o barco, agarrar bem todas as cordas do barco, não vá puxar umas mais que outras com o perigo de dar o navio uma cambalhota nas ondas. Se tiver de dá-la que o seja por razões que não podemos prever.
Tanto trabalho ainda e tão pouco tempo. Pouco tempo para quem obedece, que, quem manda tem sempre todo o tempo para mandar trabalho. E agora, quem manda ainda dorme. Não o fazem os pescadores da Nazaré que já mandam três rezas a Nossa Senhora. E agora que farás tu Nazaré, a Santa não a mulher, pois nunca tão necessária foste desde que o navegador que teimava em chegar á Índia por capricho mais seu que de El-Rei, te nomeou para este lugar. Aqui tens 9 homens que não tarda se lançarão aos mares, lá aonde nunca foram homens e precisam de quem os proteja, eles por eles já fizeram o que podiam.
Tudo o que é homem vai neste barco, tudo quanto é vida também, sobretudo se miserável. Já que não poderemos falar mais delas, ao menos relembremos os nomes: - António, José, Fernando, Pedro, Matoso, Luís, Manuel, João e Xavier.
Pelas dez horas da manhã começam a tocar os sinos da Igreja da Misericordiosa. As velhas já se encaminhavam para a praia, não tanto para ver o que está feito para ver, mas relembrar o que tanto teimam em nunca ter visto. Nazaré já está levantada, quando Vanessa d`Óbidos lhe vai bater à porta. Anda rápido mulher que os nossos homens não conseguem passar a rebentação. Anda rápido antes que o barco se vire.
Na praia, já lá estão todos. As mulheres, já vestidas de preto porque já sabem o que saberão depois, os xailes em contraste com a areia branca, os terços, as velhas que, já sabemos ao que vêm, os homens que choram em terra porque não podem vir ao mar, e Nazaré e a sua barriga. Pois no mar temos ondas como doutras não há memória, porém sem surto de tempestade, antes fosse, talvez quebrassem a força dos remoinhos da ondulação que teima em não deixar o barco passar. As ondas jogam com o barco como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando-o, arrancando do fundo os homens que se agarram com força às cordas, e logo os arrastando para baterem uns contra os outros, arrombando-lhes as costelas.
Os homens clamam, só eles saberão a quem pedem socorro, mas quanto mais gritam mais o barco se encalha, e mais se enrola no remoinho onde a força das águas derradeiramente os despedaça. Que inimigo é este que fere sem ferro e fogo? Na praia, na presunção de que seja o demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher dos homens que estão em mar, está de joelhos na areia em oratório. Os sinos ainda tocam para as mulheres que ainda não tenham ouvido que os maridos estão em mar a rebentar e a rebentar-se nas ondas.
Jesus, Virgem Mãe, ai o meu homem! O mar mata-os, o mar mata os nossos homens, Nosso senhor tenha piedade e não nos deixe ver os nossos homens morrer mesmo à nossa frente. Que desgraça esta, ai que grande desgraça. Que Deus Nosso Senhor separe os homens do mar, que os separe, que ele os mata. Pai nosso que estais nos Céus, ai que grande desgraça, e logo hoje, logo hoje, e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém. Ai, Virgem Santíssima que já vejo sangue no peito do meu João. Ai que até oiço os gritos dele.
As mulheres bem rezam aos Santos, mas os Santos, se auréola têm, também têm corpo de gente, e tal como os homens também se cansam, também estimam o seu repouso, pois só eles sabem quanto trabalho dá segurar estas ondas, sejam elas forças de Deus, sejam elas forças do Diabo.
Nazaré, ao contrário das outras, não traz o terço nem o xaile negro, traz a semente que tem dentro de si. Pois ela chora, e chora com mais força que o mar que a impede de a levar a José Maria, pois ela vê com os olhos dela que o mesmo já deita os bofes pela boca e as pernas já fraquejam. Paraíso haverá se justiça houver para estes homens, pois nem pode haver inferno depois do que sofrem estes. Mas haverá mesmo justiça?
Dizem que o país anda mal governado, que nele o que há de menos é justiça. A verdade é que ela está como deve estar, sentada de balança e espada. O problema é que alguém lhe destapou a venda do lado direito, tornando-a zarolha, e, agora, ela só vê com o olho direito. E, para todo o lado que a justiça anda, esquece-se sempre do olho esquerdo. É certo que ela deveria esquecer os dois olhos e mantê-los bem fechados. Porém, se tivesse os dois olhos bem abertos mal maior não haveria do que ter um deles fechado. Por isso, castiguem-se lá os vilões e os assassinos, gente de mau porte, e de fama de sarjeta, queimem-nos bem à frente do povo inocente para que este feche também os dois olhos, não tivéssemos nós também a espada e a balança, e também chamar-nos-iamos justiça. Porém honre-se a gente de bens que a essa não se pode exigir que pague as dívidas contraídas, pois essa gente é gente de bem, inimiga da trapaça e bem vista ao olho direito da justiça. Para o olho esquerdo, cego e desastrado, fica o naufrágio deste barco, onde pesca a gente seus bens, mas que embora de bem, não alcançam a pupila do olho da justiça.
Por isso, Nazaré mais não sabe fazer do que chorar, enquanto José Maria trava combates, mesmo na sua frente, com as ondas. Contudo, estas batem com tal força no barco que este, coitado, lá se acaba por virar, e os homens, levantados e levados pelo vento, vão cair de chapa, como chuveiros, contra o remoinho que não deixa as ondas rebentar.
Se Noé e seus filhos viajassem agora com dois pares de cada animal, iriam desta vez ao fundo, pois, nem o dilúvio universal os pouparia, assim como à pomba. Os homens tentam nadar, mas, com o perdão da confiança, só os peixes nadam e Moisés, quando atravessou o mar negro para lançar sobre a gente a lei natural. Os homens só nadam quando sonham, mas em sonhos não há firmeza nem certeza. Se o homem anda, se até tropeça, é possível que um dia nade, mas não ontem, não hoje, e decerto não amanhã.
Na praia, porém, já se fazem chegar alguns destroços que são recolhidos por aqueles que, mesmo assim, ainda se atrevem a ir ao mar salvar o que já não pode ser salvo. Entre eles está Nazaré e a menina que traz consigo. O mar puxa-lhe os pés, mas deles só lhes leva a areia, que Nazaré é forte e sabe manter firme o pé. A ela vieram ter as madeiras quebradas do barco, madeiras que pelo seu peso nunca iriam ao fundo. Antes fosse assim com os homens, pois bastar-lhes ia deitar o papo para o ar, e deixar levar o que a corrente quisesse levar. Mas não é este o historial da praia, e as velhas bem sabem, pois assim já viram morrer outros homens, entre os quais os seus.
De pescadores mortos na Nazaré nem vale a pena falar, não têm conto os barcos perdidos, sabe-se lá quantos cadáveres a maré levou praia fora, o que se sabe, é que na praia estão a chorar nove viúvas, mesmo sabendo que depois de mortos, todos são ricos. No entanto, enquanto elas choram e os homens lutam com o mar, o presidente e o ministro, deitam-se tarde dos decretos que ainda têm para promulgar, pois que se sentem afogados naquele mar de papeis. Porém aquele mar não tem correntes nem ondas, apenas tem remoinhos para quem os terá que respeitar. Enquanto isso, os homens, os que ainda não morreram já de tanta água na boca, lutam por tudo, mas já têm o corpo feito numa papa de vísceras. Aquele, o Fernando foi dos primeiros a ir, e a mulher bem viu tudo. A proa do barco passou-lhe sobre o ventre e só por pouco não lhe separou as pernas do tronco. Não chegou porém, para o deixar vivo, e nem o terço que a mulher atirou à água o salvou. Talvez se salve, depois de morto, talvez não, é assim que ditam os cânones do que outrora se chamou Santo Ofício e agora se chama de Igreja. O mar já leva o corpo e já diz à mulher, Trago aqui o seu homem, leve-o para casa e diga aos seus filhos que esta noite ele dorme em casa. José Maria é o último a morrer. E nem as ondas o conseguem impedir de lutar pela mulher e pela filha. Ao fundo acena a Nazaré, não sabemos se à mulher, se à terra, e nem sabemos se acena mesmo ou se pede ajuda aos céus. Se não pede, pergunta-se a ele próprio como é possível morrer um homem de tão violenta morte, se lá em cima na lota discute-se o preço do safio e berra-se o troco, para em casa, sem pesadelos, e só com orações, os pais presentearem o almoço aos filhos que torcem o nariz à caldeirada. Mas é assim que Deus nos fez.
Uns têm de morrer, outros têm de lutar, outros têm que aceitar, outros têm que mandar, e outros ainda têm que franzir o nariz. Nazaré tenta chegar bem perto dele, mas uma onda rebenta-lhe na cara, e quando se levanta, já nem vê José Maria. Ele lutou tanto, mas não valeu a pena, já morreu, em breve virá dar à costa, o mar já promete acalmar, afinal para que vem um homem a este mundo?
As velhas retiram-se da praia, já não têm rugas para segurar tanta lágrima. As novas, essas sim, ainda têm muita água para deitar fora pelas agruras que sofreram. Nazaré terá a filha, e andará a pão e tremoço para arranjar algo para meter na boca da menina. Esta morrerá de anemia, seis anos depois, de fome. Outras terão que improvisar alimentos para os filhos e esconder no fundo dos aventais e dos lenços na cabeça a bravura de terem visto os maridos morrer, mesmo em frente dos seus olhos. Como já se disse, o rico nascerá rico, o pobre nascerá pobre e o assassino, cedo encontrará alguém para matar.
Os homens, que morreram, esses tiveram bravura a mais para lutar com o mar, pois o povo só luta contra o que não deve. Não foi ao acaso que Deus fez o povo cego, pois se estes tivessem olhos e virassem a cabeça para cima, saberiam então contra quem teriam de lutar, porque enquanto Deus mija, o povo chora.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING!Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em março 6, 2005 08:38 AM
Comentários

Li os dois textos da Paula que achei de uma qualidade excepcional. Continuas a apresentar convidados de alto nível.
Desculpa as ausências. Há fases mais complicadas. Beijinhos

Afixado por: lique em março 6, 2005 04:42 PM

Lique:

1- Indiscutivelmente os textos da Paula são de grande qualidade para além de diferentes devido ao seu estilo.

2- Não precisas de pedir desculpas. É suposto todos nós termos as nossas vidas para além da blogosfera. E é suposto, também, haver fases de maior "aperto" em termos de disponibilidades.

Obrigada pelas tuas palavras e acompanhamento com ou sem comentários.

Beijinhos :)

Afixado por: Sandra em março 6, 2005 06:18 PM

Faço minhas as palavras da lique. Gostei imenso do que li. Qualidade expeccional. Beijinho às duas

Afixado por: Micas em março 8, 2005 09:01 PM