março 05, 2005

PROSA DE RUA, SUJA, DESCURADA DE AMOR...

Deixei registado na semana anterior que todos os domingos (pelo menos nos próximos) teriamos a edição de textos da Paula, responsável pelo blog "Divine Decadence Darling!".
Excepcionalmente, num contexto de reajustes em curso neste blog, um texto da mesma autora é editado hoje. Um texto, sublinho, com muita qualidade. Um texto que é ficção, mas que é também memória. Um texto para fora, mas também um texto muito pessoal. Um bom texto!

Hoje surpreendi-me por me sentir lânguida, melancólica, como tenha saído de uma longa doença. Sou de carácter alegre, e como em mim a alegria vem da saúde e da robustez do corpo, ela foi sempre mais forte que todas as adversidades, se bem que me tenha acontecido por vezes sentir-me alegre sem que o queira em circunstâncias em que me deveria sentir triste.
Conversas tuas, ensinamentos teus, prosas tuas, voltaram. E voltaram bem cedo. Acordei descendo a Mouraria, ouvindo pedaços de fado gingão, observando olhares meticulosos de proxenetas, ataques de fúrias de outras putas, que, tal como tu, apenas querem viver do amor. Mas, sabem elas, que para se viver do amor, tem que se apanhar dele? Sabem elas, que, para viver do amor, é necessário esquecê-lo? Saberão? Saberás tu, certamente. Tu, que muitas vezes amaste, sem amar, sem prazer. Foram poucas, e tu bem o sabias, mas foram. Mas o que tinha o teu amor que outros não tinham? Nada. Bem sei, que, acima de tudo, trata-se de amor cronometrado, amor de despertador, amor de funcionário. Mas, acima de tudo, dizias-me tu, é amor. E é amor, aquele que sentiste, pelo primeiro homem, aquele que te conduziu directamente para um quarto em bicos dos pés. Ainda me lembro de todas as palavras que usaste, tão delicadas, tão densas, tão claras. Contavas-me que, quando a porta do quarto se fechou, o Louro, como lhe chamavas, porque, tal como tantos, nem nome tinha, sentou-se na beira da cama e começou tranquilamente a despir-se, sem te ligar a mínima importância. Não se calava, nem deixava de rir, falando de quartos de hotel e de quartos particulares, tentando interessar-te por uma aventura que tivera recentemente. Disseste-lhe que eras uma rapariga honesta, mas, lembraste-me agora que, aquelas ruas também estavam apinhadas de mulheres honestas. No entanto, lembras-te que te ajoelhaste, e pondo o pé dele no teu regaço, como fazem os sapateiros, tiraste-lhe os sapatos e as meias e beijaste-lhes os pés? Quanto amor perfeito, limpo e inocente, escondias dentro de ti?
Sim, eu sei, mas, mesmo tão nova, mesmo com fome, sabias que amor honesto, é amor falso. Amor puro, é amor insidioso. Mesmo assim, com este primeiro homem, agiste com método e sem pressa, mas á medida que lhe tiravas a roupa que ainda lhe restava no corpo, um delírio de humildade e de adoração apoderava-se de ti. Talvez o mesmo sentimento que por vezes me assalta quando penso em ti. Era a primeira vez que te sentias mulher. Era a primeira vez que o sentias por um homem, e isso tornava-te feliz, porque sabias que era esse o verdadeiro amor, cheio de toda a sensualidade e de todo o vício. Trabalhavas o amor, para dele ganhares o teu salário. Mas tal como qualquer trabalhador, que serve quem lhe manda, é preciso sangrar e suar, para ter pão na mesa. Ah, mas quando ele ficou nu, apertaste-o de encontro ás tuas faces e aos teus cabelos, com força, fechando os olhos. Ele deixava-te fazê-lo com uma expressão admirada, que te agradava. Depois levantaste-te e despiste-te à pressa, deixando cair a roupa no chão. Aproximaste-te por trás dele e, animada por uma violência alegre e cruel, puxaste-o e deitaste-o de costas com a cabeça sobre a almofada. O Louro, ainda jovem, tão jovem quanto eu, tinha um corpo longo, magro e branco; os corpos têm a sua expressão como os rostos: o seu tinha uma expressão casta e juvenil. Estendeste-te a seu lado, o teu corpo contra o dele, e, ao pé da sua magreza, da sua graciosidade, da sua frieza, da sua brancura, tiveste a impressão de seres muito ardente, muito morena, muito carnuda e muito forte. Apertaste-te com violência contra ele, comprimiste o teu ventre contra os ossos das suas ancas, estendeste os braços ao longo do seu peito, o teu rosto contra o dele, e esmagaste os teus lábios contra a sua orelha.
Parecia-te que desejavas não tanto amá-lo como envolvê-lo no teu corpo como se fosse um cobertor.
Quando acabaste, sentiste-te perdida e envergonhada. O teu ardor apagara-se; lentamente afastaste-te e deitaste-te de costas, longe dele. Tinhas feito um grande esforço de amor; tinhas posto neste esforço todo o entusiasmo de um inocente, de um velho desespero. Porém, parecias-te ter enganado, que nem o podias amar, nem ser amada por ele. E pensavas ainda mais, que ele te via e te julgava sem ilusões, tal como eras na realidade, uma puta.
Ele saiu da cama e vestiu-se. Uma dor aguda trespassou-te a alma como se te tivessem ferido profundamente com uma lâmina fina e cortante. Sofrias por ouvi-lo vestir-se; sofrias com a ideia de que daí a um momento ele ir-se-ia embora para sempre, e nunca mais o voltarias a ver. Sonhavas então com o amor dado e recebido, sem tréguas, sem encargos. Ah, que bela ilusão do amor! É pena que, como qualquer ilusão, ela acabe por despedaçar-se e quebrar-se. O amor que sonhaste, o amor que idealizavas para ti, esse, já eu provei, já o senti no meu gosto, no âmago da minha alma, ele intoxica-nos como um veneno medonho que lentamente segue o seu caminho nefasto por entre o sangue das nossas veias. Não vês que o amor é uma palavra própria, inalterável? Esquecê-la ou termos a ilusão de não a termos dito é o mesmo que esquecermo-nos de nós próprios ou querermos ter a ilusão de nunca termos existido. É por isso que todos temos que reconhecer que amar não é um ócio. Amar não é certamente um vício, mas antes um sacrifício. Soubesses tu que, no amor não existem diferenças. É tudo igual. um bom negócio, lucrativo, repleto de cláusulas incertas, abusivas, dolosas, nas quais o que mais ama, explora o que mais é amado.
Foi assim que a tua vida começou a girar sempre para o mesmo lado e com as mesmas personagens, como um carrocel, pois no carrocel, as personagens são sempre as mesmas. Ao som de uma música estridente e desafinada, vêem-se desfilar, o gato, o cisne, o automóvel, o cavalo, o trono, o dragão, o ovo, e assim por diante, durante toda uma noite. Também tu vias girar as silhuetas dos teus amantes, quer fossem homens que já conhecesses, quer fossem desconhecidos, em tudo parecidos com os primeiros. Havia os jovens, os menos jovens e os velhos; alguns simpáticos, que te tratavam com gentileza, outros desagradáveis, que te consideravam como um objecto comprado e vendido. A música do carrocel era sempre a mesma. Encontravam-se numa esquina, trocavam sete palavras peremptórias, e corriam para a tua casa. Aí fechavam-se no quarto, tu entregavas-te, conversavam um pouco, depois o homem pagava e ia-se embora. O dinheiro que ficava, servia para, no outro dia, poderes comprar um litro de azeite, pão, e algumas batatas. A Guerra embora batesse noutras portas, espreitava pela janela. O engraçado, é que, naquelas filas de senhas de racionamento, todos eram iguais. Desde a puta ao pederasta, desde o comerciante ao padre, ninguém se distinguia.
Durante a noite, se ainda era cedo, e depois de arranjares companhia, tornavas a sair e voltavas á rua das Portas de Santo Antão a procurar outro homem. Mas havia também longas noites em que ficavas em casa sem fazer nada e sem querer ver ninguém. Frequentemente, veres a gaveta das economias vazia, bastava-te para saíres de casa e calcorreares as ruas em busca de um companheiro. Mas, acima de tudo, eras preguiçosa. A preguiça, porém, cessou quando, por engano do ofício tiveste a primeira filha. Nem ela, nem as vizinhas, nem a Mouraria, sabiam de quem era a obra. Mais tarde, essa mesma filha saía de mansinho para comprar gelo para o teu ventre, e impedir assim outros enganos, outros erros. Ainda agora me parece ouvir-te chorar pelos que deitaste fora, pelos que nunca deixaste sair. E, no entanto, nunca te ouvi dizer que esta vida te desagradava, nem que te tenhas arrependido de o ter feito. Foi ao ouvir-te, aliás, que percebi que, no fundo, quase todos os homens, por uma razão ou por outra, agradam-me. Não sei se isto acontece a todas as mulheres; o que eu sei é que sentia todas as vezes que te escutava, um frémito de curiosidade e de expectativa que raramente resultava em decepção.
Dos jovens, gostavas dos corpos compridos, magros, ainda adolescentes, os gestos desajeitados, a timidez, os olhos acariciadores, os lábios e os cabelos cheios de frescura. Dos homens maduros, gostavas dos braços musculosos, largos peitos, um não sei quê de maciço e de possante que a virilidade empresta aos ombros, ao ventre e às pernas; por fim até mesmo os velhos agradavam-te, pois o homem não é, ao contrário da mulher, escravo da idade. O facto de mudares todos os dias de amante permitia-te distinguir à primeira vista qualidades e defeitos com precisão. Além disso, o corpo humano era para ti uma fonte inesgotável de um prazer misterioso e nunca saciado. Contavas-me que, mais de uma vez, te surpreendias a acariciar com os olhos ou a tocar com as pontas dos dedos os membros dos teus companheiros, como se quisesses, para além das superficiais relações que vos uniam, penetrar o sentido do seu interesse por ti, e explicares a ti própria por que motivo, aqueles membros te atraíam tanto. Todavia, procuravas esconder esta atracção o mais que podias, porque estes homens, na sua vaidade sempre desperta, podiam tomá-la por aquela forma de amor, e imaginar que te apaixonaras por eles, quando, na verdade, aquele amor nada tinha a ver como teu fascínio.
Talvez tenha sido essa a emoção que senti quando vi o primeiro homem despido. Estendidos sobre a cama, os homens perdem a sua defesa, tornam-se impotentes, como um corpo intimidado, e que vai ser submetido a qualquer experiência. E tu, soubeste sempre conduzi-los, como um médico conduz a operação.
Anos mais tarde, quando me embalavas, quando me alimentavas, via tristeza nos teus olhos. Sentias-te flácida, envelhecida, enrugada; foi assim que compreendi a velhice, que não só muda o aspecto do corpo, mas torna-o inepto e inerte. Por vezes via-te quando te despias, e reparava, sem pensar, nos teus seios negros e murchos, no ventre amarelo e encolhido. A juventude e a beleza tornam a vida suportável e por vezes alegre. Mas quando já não existem?
Tu eras bela, e bem o sabias. Por isso gostavas de passear à hora de maior movimento pelo Chiado. Lentamente, examinado as montras uma por uma com atenção, chegavas à praça do Camões. Desejavas entrar, comprar e trazer para casa todas as belas coisas expostas atrás dos vidros brilhantemente iluminados. Vias as pedras dos passeios, onde formigavam pés calçados com botas, grossos sapatos, sandálias, saltos altos, saltos baixos; vias os transeuntes que subiam e desciam as ruas, a dois e dois, em grupos de homens, de mulheres e de crianças, ou ainda pessoas sós, umas lentas, outras apressadas, todas iguais, justamente porque pretendiam parecer diferentes, com os mesmos fatos, os mesmos chapéus, as mesmas caras, os mesmos olhos, as mesmas bocas. E foi ao veres, as sapatarias, as joalharias, as relojoarias, as livrarias, as floristas, as lojas de fazendas, os luveiros, os cafés, os cinemas, os bancos que sentiste um frémito desalento. Sentiste-te reconfortada com a ideia de que havia um Deus que via claro no teu íntimo: verificaste que em ti nenhum mal havia, que pelo único facto de viveres, estavas inocente, como todos os homens de resto. Sabias que este Deus não estava lá para te condenar ou julgar, mas para justificar a tua existência, que só podia ser boa, visto que dependias dele.
Entraste num café, abriste a mala, tiraste a cigarreira e acendeste um cigarro. Era frequente as mulheres como tu, fumarem nos lugares públicos para chamarem a atenção dos homens. Mas naquela altura não pensavas em procurar amantes, tinhas decidido deixar de o fazer.
Naquele café estava sentado alguém que ainda agora se senta com os mesmos modos com que se sentava nesse café. Era um homem de trinta anos, alto, de cabelo encaracolado, olhos salientes e maxilares duros. Tinha o pescoço tão curto que quase não existia. Sentiste como que uma seiva secreta saindo de uma casca rugosa, sob a forma de mil germezinhos ternos; o desejo de o excitares espicaçava-te o corpo todo e obrigava-te a deixar-te uma atitude reservada. Justamente naquele momento, tinhas decidido deixar a vida. Porém, quanto mais o olhavas, mais a vida te chamava incondicionalmente.
Pensavas que, realmente, nada havia a fazer...era mais forte que tu. Descobriste assim, que trabalho de uma puta não é trabalho ilícito, é amor duro e cuidadoso, procura desmesurada de uma posição na vida que a sociedade, tão hipócrita quanto atrevida, teima em renegar. E, assim, passados uns momentos de reflexão, levantaste os olhos para o homem. Ele ainda te olhava, apalermado, com a chávena na sua mão peluda e os olhos bovinos fixados em ti. Com toda a malícia de que eras capaz, disparaste-lhe um longo olhar cálido e sorridente. Ele recebeu-o em cheio. Levantou-se, agarrou-te violentamente o braço e encaminhou-te para a rua.
Foi com ele, que, depois de alguns momentos de angústia, renunciaste à luta contra o que parecia ser o teu destino, e o abraçaste até com mais amor, como se estreita um inimigo que não se pode vencer.
Alguns, depois de ler esta prosa, vão pensar que é fácil aceitar uma sorte ignóbil mas rendosa em vez de a recusar. Eu tenho perguntado muitas vezes a mim própria, porque será que a tristeza e a raiva enchem as almas daqueles que vivem segundo certos princípios e ideais, enquanto que aqueles que aceitam a sua vida, que é acima de tudo nulidade, obscuridade e fraqueza, são tão despreocupados e alegres.
Pediste à tua filha que se tivesse uma rapariga, lhe chamasse P..., pela pronúncia, por ser um nome em bom estado, vigoroso e saudável. Quiseste que a sua vida fosse, tal como a tua, despreocupada, alegre e feliz. Mas, cada qual obedece não a preceitos, nem nomes, mas ao seu temperamento, que toma o aspecto de destino. O meu, como já o disse, era ser a todo o custo alegre, doce e tranquila. E eu aceitei-o.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em março 5, 2005 07:55 AM
Comentários

Vai começar o 1º concurso de blogs portugueses.
Convido este blog e todos q por cá passam a irem lá e inscreverem-se.
BFS.

Afixado por: Juiz Arbitro em março 5, 2005 01:33 PM

Que texto delicioso. Fiquei sem palavras. Não há dúvida que viver a vida com um coração puro é a melhor das bençãos. Obrigada pelo reavivamento desta certeza. Bj

Afixado por: whitesatin em março 5, 2005 04:35 PM

Texto belo mas muito duro. Gostei de ler! Um beijo e bom fim de semana.

Afixado por: Pink, the Lady em março 5, 2005 10:53 PM