março 02, 2005

EM NOME DE DEUS- 3 (O HOMEM QUE MORREU)

D. H. Lawrence (1885-1930), o escritor que nos põe Cristo a "transgredir". Aquele que um dia assumiu ser Filho de uma entidade superior. Aquele que tinha como missão trazer a todos os homens a palavra de Deus. Aquele que por isso foi vexado, torturado, crucificado, morto... Aquele que, depois da morte, chegou de novo à vida. Ressurreição. Em nome de Deus, a morte. Em nome de Deus, novamente a vida. Mas que vida? Lawrence apresenta-nos a sua proposta: uma vida diferente em que Cristo toma, ele próprio, opções diferentes. Opções, supostamente inesperadas. Em nome de Deus, Cristo, foi. Em nome de um homem novo, diferente, total, Cristo opta por ser.
Deixo-vos, pois, com excerto de uma obra que chocou. Deixo-vos com uma obra que recomendo vivamente. Deixo-vos com uma obra que permite pensar diferente sobre o que é pensado, muito da mesma forma. Deixo-vos... um Cristo muito, mas muito humanizado.... em que a vertente divina deixou de ser. Em nome de Deus, o Homem. Só. Sem mitos.

[Perto de Jerusalém]

Ao mesmo tempo, na mesma manhã e nessa mesma hora anterior ao alvorecer, um homem despertava do sono prolongado que o tinha amarrado. Acordava entorpecido e frio num buraco escavado na rocha. Todo aquele sono lhe enchera o corpo de dor, e ainda continuava cheio de dor. Não abriu os olhos. Apesar de saber que estava acordado, e entorpecido, e frio, e rígido, e cheio de dor, e amarrado. Tinha no rosto ligaduras frias, e as pernas ligadas uma à outra. Só as mãos estavam livres. (...)
Por fim abriu os olhos. No escuro. No mesmo escuro! Mas talvez houvesse a fenda clara de uma luz que o perturbava imenso, que fendia à força a escuridão total. Não conseguiu levantar a cabeça. Tinha os olhos fechados. E uma vez mais chegou ao fim.
Depois levantou-se de repente, e a vastidão do mundo entrou em colapso. As ligaduras caíram. E por cima dele fecharam-se as estreitas paredes de pedra provocando-lhe a angústia do aprisionamento que ainda não conhecia. Havia fendas de luz. (...)
Sabe-se lá de onde chegava a força, da revulsão; houve um estalido, uma onda de luz, e o homem morto encolheu-se no covil para enfrentar a sua investida animalesca. O amanhecer mal tinha começado. Foi invadido pela estranha veemência de um sopro forte que rasgava o dia. E isto significava acordar de vez. (...)
Regressar! Depois de tudo aquilo, regressar! Viu as ligaduras de linho caídas à volta dos pés mortos e abaixou-se para as apanhar, dobrar e devolvê-las à cavidade rochosa de onde tinha emergido. (...)
Estava sozinho; e, por ter morrido, muito para lá da solidão. (...)

(...)

A mulher vacilou como se fosse cair, porque o reconhecia. E ele disse-lhe:
- Madalena! Não tenhas medo. Estou vivo. Puseram-me cedo demais no sepulcro, e por isso regressei à vida. (...) Não me toques, Madalena - disse ele.- Ainda não! Ainda não estou sarado nem em contacto com os homens. (...) Ainda não regressei por completo, Madalena! O que se há-de fazer?
- Mestre! Como te chorámos! Voltas para junto de nós?
- O que lá vai, lá vai - disse ele. - Para mim, o final ficou para trás. (...) Para mim, esta vida acabou.
- E renuncias à glória? - perguntou ela com tristeza.
- A minha glória é não estar morto - respondeu. - Sobrevivi à minha missão. É essa a minha glória. Sobrevivi ao dia e à morte da minha intervenção, e continuo homem. Ainda sou novo, Madalena, nem à meia-idade cheguei. Alegra-me que tudo tenha terminado. Tinha de ser. Agora estou contente por tudo ter terminado, e o dia da minha intervenção ter ficado para trás. O mestre e o salvador morreram em mim; vou agora tratar do que me cabe nesta vida que é só minha.

(...)

[Líbano]

Na treva absoluta do homem que havia dentro de si, sentiu então o tumulto de qualquer coisa a aproximar-se devagar, muito devagar. Uma aurora, um novo sol. Um sol novo erguia-se na escuridão absoluta do mais íntimo de si. Esperou-o ofegante, a tremer de assustadora expectativa...
- Já não sou eu. Sou qualquer coisa nova...
E enquanto aquilo se levantava, com um sopro frio de decepção sentiu o amplexo da mulher viva desprender-se dele, o calor e a paixão desprenderem-se dele deixando-o decepcionado. Cansada, tinha caído aos pés da deusa, com a face oculta.
Ele inclinou-se, para pousar suavemente a mão no calor do ombro batido pela luz, e foi atravessado pelo sobressalto do desejo, e de sobressalto em sobressalto chegou a pensar que enfrentava outra espécie de morte, embora morte cheia de esplendor.
Tinha agora a atenção concentrada naquela mulher que se vergava e escondia. Inclinado ao pé dela fazia-lhe carícias cegas, meigas, e murmurava coisas sem nexo. Não encontrava sentido na morte nem na sua paixão pelo sacrifício, só tinha consciência da plenitude daquela mulher caída, da branca e macia pedra de vida... (...)
Ao inclinar-se tinha sentido uma chama viril e forte que ascendia, magnífica, desde os seus rins.
- Ressuscitei!
(...)
De repente ela olhou-o, e a sua face era uma luz ávida e meiga em ascenção, os olhos como uma profusão de flores húmidas. Apertou-a contra o peito, terno na paixão e devorador no desejo, e teve um derradeiro pensamento:
- A minha hora chegou e fui apanhado de surpresa...
Conheceu-a, e os dois foram um só.

(...)

Disse à mulher:
- Em breve terei de partir. (...) Sou um homem, e o mundo está aberto. Mas é bom e sólido o que entre nós existe. Fica em paz. Regressarei quando o rouxinol voltar a cantar no vale do seu leito; é tão garantido como a Primavera.

(...)

O homem que tinha morrido remou devagar, ao sabor da corrente, e ria sozinho.
- Lancei a semente da minha vida e da minha ressurreição, deixei para sempre o meu contacto na mulher deste dia, levo na carne o seu perfume como uma essência de rosas. Quero-lhe do fundo do meu ser. Mas o ouro e a serpente sinuosa voltam a enrolar-se e dormem na raiz da minha árvore. Deixa, pois, que o barco te leve. Amanhã é um novo dia.


(D.H Lawrence- O HOMEM QUE MORREU. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em março 2, 2005 06:32 PM
Comentários

Tenho que ler esse livro. Para não entrar em negação. Ver Jesus numa perspectiva mais humana (afinal de contas Ele é Deus feito homem). "Os dias do fim aproximam-se..."

Afixado por: whitesatin em março 2, 2005 11:26 PM

Whitesatin: na sequência do que já disse no post só posso reforçar o meu conselho: lê, lê e lê. É absolutamente delicioso. "Escandalosamente" delicioso. Faz-nos pensar e interrogarmo-nos, sobretudo, sobre nós próprios: o que somos, o que andamos por cá a fazer, que opções tomamos e porquê ou em nome de quê. Julgo que se pode falar da questão da liberdade humana, da nossa autonomia como seres racionais, onde as emoções evidentemente estão.
Este livro evoca, sem dúvida, o Homem total. O Homem onde há a vertente metafísica, mas não só. Evoca o Homem numa situação de libertação de/com grande relevância.

Beijokas :)

Afixado por: Sandra em março 3, 2005 07:13 AM

I will do so. Bj

Afixado por: whitesatin em março 3, 2005 01:46 PM