março 01, 2005

EM NOME DE DEUS- 2 (FACE NEGADA)

O dia 27 de Setembro de 1996 marca a entrada dos talibãs em Cabul, capital do Afeganistão. A partir dessa data um manto negro estende-se ainda mais por grande parte do país com o decretar e fazer cumprir de decretos onde os mais elementares direitos dos indivíduos são negados. Como vítimas inequívocas, porque brutalmente atingidas, as mulheres.
Latifa, uma rapariga então com 16 anos, que desejava tornar-se jornalista e que vivia uma adolescência até ai normal, vê todos os seus sonhos desmoronarem-se. E é sobre todo isso que o livro "Face negada. Ter vinte anos em Cabul" nos fala. É sobre esses direitos retirados, em nome da pureza do Islão, que a abordagem se faz, sendo o excerto que se segue um pequeno mas relevante exemplo.

Latifa fugiu clandestina do Afeganistão, com alguns membros da sua família. A escrita deste livro foi possível por isso mesmo. Em jeito de introdução, assina Latifa:

"Este livro relata os acontecimentos passados e recentes vividos pela minha família no meu país, o Afeganistão.
Espero que sirva de chave para outras mulheres, para aquelas cuja palavra está acorrentada, que guardaram o seu testemunho no coração e na memória. Dedico-o a todas as raparigas e mulheres afegãs, que mantiveram a sua dignidade até ao último momento. A todas elas, privadas dos seus direitos no seu país e que vivem no obscurantismo, agora que entramos no século XXI. A todas as mulheres executadas em público aos olhos dos seus filhos e dos seus pares, sem piedade nem julgamento.
Ofereço-o, também, à minha mãe, que me ajudou sempre, dando-me lições de liberdade e resistência."

No dia 7 de Outubro de 2001, dá-se o início da intervenção militar americano-britânica no Afeganistão, que irá resultar na expulsão dos talibãs no poder.

Quanto ao excerto escolhido do livro:

Nove horas da manhã, 27 de Setembro de 1996. Alguém bate violentamente à porta. Toda a família se sobressalta, porque desde que amanheceu estamos extremamente nervosos. O meu pai levanta-se rapidamente e a minha mãe, angustiada, segue-o com os olhos, o rosto marcado pelo esgotamento, depois de uma noite sem sono. Ninguém conseguiu pregar olho. (...)
O meu pai regressa à cozinha, seguido do nosso jovem primo Farad, esbaforido e lívido. Dir-se-ia que Farad treme interiormente e todo o seu rosto exprime o medo. Mal consegue falar, as palavras atropelam-se nos seus lábios numa sequência de estranhos soluços.
- Vim... saber notícias de vós! Está tudo bem? Não vistes nada? Não sabeis? Eles estão aqui! Tomaram Cabul! Os talibãs estão em Cabul! Não vieram a vossa casa? Não exigiram as vossas armas?
- Não, ninguém veio aqui, mas nós vimos o pano branco a flutuar na mesquita. Tememos o pior, foi Daoud que o viu esta manhã.
Esta manhã, por volta das 5.00h, quando tinha descido para ir buscar água, como habitualmente, à torneira do prédio, o meu jovem irmão Daoud voltou a subir precipitadamente com a bacia vazia na mão.
- Vi um pano branco na mesquita e outro na escola!
A bandeira dos talibãs. Nunca tinha flutuado antes em Cabul, só a vira na televisão ou em fotografias nos jornais.
(...)
Enquanto esperamos que a Rádio Charia se digne informar-nos sobre as ordens do novo poder, temos direito, durante oito ou nove horas, a música religiosa, a uma leitura de versículos do Corão e a orações.
(...)
Onze horas. A Rádio Charia retoma o serviço para anunciar que o primeiro-ministro do governo interino, composto por seis mullahs, decretou:
"Doravante, o país será regido por um sistema totalmente islâmico. Todos os embaixadores no estrangeiro estão suspensos. Os novos decretos são os seguintes, segundo a charia:

- Toda a pessoa, possuidora de uma arma, deve entregá-la no posto militar ou mesquita mais próximos.
- As raparigas e as mulheres não têm o direito de trabalhar no exterior da casa.
- Todas as mulheres que sejam obrigadas a sair de casa devem ir acompanhadas por um marham (pai, irmão ou marido).
- Os transportes públicos reservarão um autocarro para as mulheres e um autocarro para os homens.
- Os homens devem deixar crescer a barba e aparar o bigode segundo a charia.
- Os homens devem usar um turbante, ou um gorro branco na cabeça.
- Proibição de usar fato e gravata. Obrigação de usar o traje tradicional afegão.
- As mulheres e as raparigas usarão o chadri.
- Interdição de usar verniz nas unhas ou carmim nos lábios e maquilhar o rosto.
- Todo o indivíduo muçulmano deve cumprir as suas orações precisas e no local onde se encontra."

Nos dias seguintes, os decretos chovem, sempre à mesma hora, sobre a Rádio Charia, ditos pausadamente pela mesma voz ameaçadora, em nome da charia:

- É interdito afixar fotografias de seres humanos e de animais.
- Uma mulher não tem o direito de apanhar um taxi sem ser acompanhada por um mahram.
- Nenhum médico homem tem o direito de tocar no corpo de uma mulher sob o pretexto de uma consulta.
- Uma mulher não tem o direito de ir a casa de um alfaiate de homens.
- Uma jovem não tem o direito de ter uma conversação com um jovem. Os transgressores serão casados imediatamente após esta falta.
- As famílias muçulmanas não têm o direito de ouvir música, mesmo que seja por ocasião da cerimónia de um casamento.
- É interdito às famílias tirar fotografias e imagens vídeo, mesmo durante um casamento.
- É interdito às noivas frequentar os salões de beleza, mesmo durante as preparações para o casamento.
- É interdito às famílias muçulmanas dar nomes não islâmicos aos seus filhos.
- Todos os não muçulmanos, hindus e judeus, devem usar vestuário amarelo ou um pano amarelo. Devem assinalar as suas casas com um pano amarelo, a fim de poderem ser reconhecidos.
- É interdita a todos os comerciantes a venda de bebidas alcoólicas.
- É interdita aos comerciantes a venda de roupa interior feminina.
- Quando a polícia pune um infractor, ninguém tem o direito de fazer perguntas ou criticar.
- Todo o infractor aos decretos da charia será punido em praça pública.

Desta vez, eles matam-nos, a nós, raparigas e mulheres. Matam-nos em silêncio, sorrateiramente. As piores interdições, já aplicadas na grande maioria do território, aniquilam-nos e colocam-nos, por completo, à margem da sociedade.Todas as mulheres são abrangidas, das mais jovens às mais velhas. A interdição do trabalho às mulheres implica a derrocada dos serviços de saúde e administração. Deixa de haver escola para as raparigas, cuidados às mulheres e ar fresco. Para casa, as mulheres! Ou então, para debaixo do chadri. Fora da vista dos homens! É a negação total da liberdade individual, um verdadeiro racismo sexual.


(Latifa- FACE NEGADA. TER VINTE ANOS EM CABUL. Fotografias de Thomas Dworzak: 1ª e 2 ª: de talibãs; 3ª: talibãs prisioneiros com soldados da Aliança do Norte- 2001.)

[Nota: "Charia- conjunto de regras saídas dos textos sagrados do Islão, que regem a vida religiosa, política, social e individual dos muçulmanos."]


Quanto ao post de amanhã: e se Cristo for, ele próprio, autor da "transgressão"? Será possível falar desta forma quando o que está em causa é a sua humanização total? O que quererá isto dizer? Qual o alcance? ... Pois... o post de amanhã...


Publicado por void em março 1, 2005 06:48 AM
Comentários

Mais uma vez, como sempre, a Mulher continua a ser o alvo preferido do ego masculino, do preconceito generalizado, do racismo sem fronteiras (sim, racismo). Estou-me a lembrar daquele caso que está a acontecer na Nigéria com Amina, e que já tinha acontecido anteriormente. É intolerável a Mulher continuar a deixar-se subjugar pelas Leis do Homem! E tudo em nome de Deus...o "Deus" dos Homens. Até quando vamos nós (as mulheres deste mundo) continuar a viver nesta subjugação masculina?! Até quando?

Afixado por: whitesatin em março 1, 2005 08:26 PM

Já li alguns livros deste género e fico sempre perturbada acima de tudo com a forma como a mulher é tratada nestas sociedades. Admiro a diversidade de culturas, mas há coisas que são barbárie. Beijo e parabéns pelos textos e imagens excelentes que seleccionas.

Afixado por: Monalisa em março 1, 2005 09:51 PM

É um assunto delicado. Conheço várias mulheres muçulmanas umas falam outras não. Não se resume só a religião, mas a tradições, honra, história etc. Já tentei perceber e saber um pouco mais sobre este problema, mas acredita que não é tão fácil como parece. É delicado e acima de tudo complicado. Gostei que tivesses abordado este tema. Desculpa o ter-me repetido imensas vezes lá em baixo nos comentarios, mas tenho sempre problemas em comentar aqui:( Beijinhos

Afixado por: Micas em março 1, 2005 09:53 PM

É quase inacreditável que aquilo que se lê neste post corresponda a uma realidade dos nossos tempos! O livro deve ser interessantíssimo e fiquei com imensa vontade de o ler. Um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em março 1, 2005 10:52 PM