Inicio a semana temática "Em nome de Deus"- que objectiva deixar registado um conjunto de situações ou casos em que a acção humana, tendo como móbil ou pretexto a divindade/Deus/entidade omnipotente e omnipresente, os profetas, os messias... ou a religião em geral, se direcciona em termos de práxis por caminhos tortuosos ou pouco reveladores de tolerância ou clarividência (racional)- com o excerto de um romance que aborda um conjunto de acontecimentos que tiveram lugar no século XVII na Colónia da Baía de Massachusetts, em Salem, povoada na época por uma comunidade puritana.
Ann Rinaldi, a autora, dá-nos então a conhecer aquela que foi a onda de histerismo colectivo e de intolerância que originou uma significativa caça às bruxas, em que um número razoável de pessoas foi acusado em tribunal de fazer pactos com o Demónio. Como a autora diz, em nota própria, "Os próceres da cidade, magistrados e ministros acreditavam piamente que o Demónio errava pelos campos tentando encontrar maneira de minar o reino de Deus na Terra. Os anciãos de Salem precisavam de um bode expiatório para os problemas, em 1692. Houvera recentemente uma epidemia de varíola, incursões de índios nos arrabaldes da cidada e muita inimizade entre vizinhos que não davam tréguas a rixas antigas."
Estavamos, pois, perante um clima de grande tensão e medo, altamente favorável às acusações e às perseguições. E assim foi. E em nome de Deus, havia que fazer "limpezas". E os resultados ficaram para a História.

1706
Esta tarde, vim cedo para me sentar no silêncio do Templo de Salem, antes (...) que alguém mais chegasse. Aqui, está fresco, embora ao fim do dia, o sol de Agosto bata sobre o trigo que cresce nos campos e sobre as árvores de fruto já carregadas do que vai ser a colheita de Outono.
Sou uma estranha nesta igreja. Na realidade, já aqui não vinha desde a Primavera de 1692, e entretanto decorreu tanto tempo que tudo parece uma recordação vaga e a rapariga que eu então era parece certamente outra pessoa. Essa rapariga sou eu e, no entanto, não o sou. Porque ela ignorava todos os perigos que a rodeavam tal como acontece com a minha filha que agora dorme tranquilamente nos meus braços.
O mundo de então era outro, ainda que, na sua maioria, os que vivem por aqui apresentem ainda mais marca dos acontecimentos que tiveram lugar nessa altura.
Quanto a mim, falo pouco, se é que alguma vez falo, daqueles terríveis meses de 1692. Aliás, o meu marido também não fala. De facto, julgava que tudo isso ficara para trás até entrar hoje nesta igreja. Quando o fiz, assim que atravessei os seus portais, tudo voltou de repente.
(...)
Contudo, no templo reina a paz. E vejo que não mudou desde os tempos da minha infância. Nessa altura, era a igreja do Reverendo Parris. Mas há muito que ele partiu. (...) Foi o Reverendo Joseph Green que o substituiu. (...) Dizem que trabalhou arduamente durante muito tempo para curar a comunidade dos efeitos daquilo a que muitas pessoas chamam "a recente tragédia".
É nestes termos que se referem à loucura da bruxaria de 1692. E a todos os enforcamentos. Como se não conseguissem suportar mencionar de novo a palavra feitiçaria.
Naquela altura, pronunciavam tal palavra com a maior facilidade. E fizeram-no vezes sem conta. Até que se tornou insuportável ouvi-la. E até que dezanove inocentes foram enforcados, uma pessoa foi empurrada para a morte e muitas outras foram para a prisão, onde ainda se encontram. Oh, não tinham o menor problema em dizer as palavras Diabo e feitiçaria nesse ano de 1692, pois não?
(...)
Meditando sobre toda esta questão, enquanto me encontro sentada na igreja à espera do aparecimento de Ann Putnam, apercebo-me de quão doloroso é rememoriar os acontecimentos dessa época. (...)
Esquecer? Penso que nunca o farei. Nem os outros que aqui se encontram hoje reunidos. Como poderemos esquecer a forma como a comunidade foi devastada, como as casas destruídas e arruinadas de alguns dos acusados foram deixadas ao vento e aos lobos. Como os negócios foram maus porque, durante muitos anos subsequentes, os de fora se recusavam a transaccionar com as pessoas de Salem.
(...)
Pergunto-me se, ao fim ao cabo, será uma boa ideia vermo-nos uns aos outros, uma vez mais, nesta sala de reunião.
Agora, todos temos de nos levantar. Ann Putnam sobe a nave lateral e vira-se para nos encarar. E lá está o Reverendo Green, no púlpito.
Como a Ann envelheceu! Meu Deus, não pode ter mais de vinte e seis anos! (...) A voz é fraca. Mal a consigo ouvir.
- Posso dizer, com verdade e verticalidade, perante Deus e os homens, que não agi movida por raiva, maldade ou má vontade contra qualquer pessoa, porque não tinha nada disso contra nenhuma delas; mas o que fiz foi feito com ignorância, porque fui iludida por Satanás.
A sua voz eleva-se, ganhando força.
- Desejo jazer no pó e pedir honestamente o perdão de Deus e de todos aqueles a quem dei justo motivo de pena e agravo.
Ela continua, mas não a oiço. O meu espírito fecha-se para a não escutar.
(...)
Agora, está a falar o Reverendo Green. A sua voz é forte e límpida e simples as palavras que usa.
- Nenhum de nós está totalmente inocente nesta tragédia. Parece ter[mos] esquecido o que os nossos pais vieram procurar nesta terra selvagem. Os preceitos que selavam o pacto de perdão e comunhão da igreja foram desleixados e menosprezados por tudo o que aconteceu. E tudo isso ainda se encontra suspenso sobre a nossa comunidade. Sim, a fúria da tempestade levantada por Satanás durante esse ano trágico abateu-se muito pesadamente sobre muitos dos que aqui viviam. Alguns dizem que o Senhor enviou anjos do mal para nos acordarem e punirem a nossa negligência.
Os olhos de todos estavam voltados para ele.
- Vamos reduzir agora o poder desses anjos do mal. Vamos enviá-los, de uma vez por todas, para o lugar donde vieram. Não fareis isso comigo, aqui, neste dia? Não amolecereis agora os vossos corações em relação a esta jovem mulher que se entregou à vossa misericórdia? Não sarareis vós as feridas desta comunidade, para sempre, por vós e pelos vossos filhos, perdoando-lhe o seu pecado?
(Ann Rinaldi- O PROCESSO DAS BRUXAS DE SALEM. Fotografia de José Marafona)
No post de amanhã darei um salto até ao futuro. Ao futuro em relação a Salem. Amanhã viajaremos até ao Afeganistão do século XX. Ao Afeganistão dominado pelos Talibãs.
Não conhecia a autora, nem o texto e muito menos a história.
Cada vez que aqui venho tudo o que leio é quse sempre novo para mim. O que vem confirmar que sou um grande ignorante...
Invocar o nome de Deus e, apoiado nisso, desencadear as maiores atrocidades é uma coisa frequente ao longo da História. E ainda hoje se faz isso, desde as coisas mais simples (do tipo, graças a Deus que correu tudo bem...) até actos terroristas.
Beijo grande.
{ ... [copy and paste]: venho aqui em silêncio [quase sempre; descalço] e grito … e leio em voz alta … e profundo [realço] que gosto e aqui me sinto © de[mente] ... }{ beijos* }
Afixado por: de[mente] em fevereiro 28, 2005 09:18 PMNaquela época, como ainda hoje, se usa o nome de Deus sempre para justificar motivos mundanos. Aliás, torna-se pertinente pensar se não terá sido a própria ideia de "Deus" uma criação humana para servir como um escape para justificar esses comportamentos. Se substituirmos as bruxas pelos terroristas, a "receita" é a mesma. Inquietante. Preocupante. Uma leitora atenta deste blog.
Afixado por: whitesatin em fevereiro 28, 2005 10:05 PMA crueldade humana e a perseguição como modo de expurgar males da sociedade ... texto bem escolhido! Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em março 1, 2005 10:42 PM