fevereiro 26, 2005

"X E Y: A ESTÓRIA"- CAPÍTULO 11

Dou continuação, com este post, à estória de X e Y cujos últimos capítulos foram editados no passado dia 13. Se eventualmente já esqueceram algo... vá lá... recuem uns dias para que seja retomado o "fio da meada". Se continua tudo fresco na vossa cabeça, é só continuar o acompanhamento... já... passando de imediato para o texto que se segue:


DESFRAGMENTAÇÃO DO ROSTO

Espero pelo troco enquanto me habituo à ideia de ter de sair dali. A minha cabeça está num caos absoluto. As ideias voam, desordenadas. Eu tento formar um puzzle, organizar os pensamentos e suposições numa sequência, na tentativa de encontrar uma solução, de achar a pista certa. Tudo o que eu precisava era de um pretexto para voltar a ti. Perder-te de vista, não voltar a ver-te nunca mais, era, agora, insuportável. E esta sensação pesada fazia-se acompanhar dessas ideias, dessas suposições, de caminhos labirínticos e sem saída.
De onde eras? Onde e como poderia eu encontrar-te? Estas eram a base de todas as outras perguntas que se seguiam, dentro da minha cabeça, numa correria incansável. E davam as mãos, puxando a seguinte e a seguinte e a seguinte. Dentro da minha cabeça. Uma maternidade de pensamentos grávidos em trabalho de parto. Progressivamente.
Abro a mão e aceito algumas moedas que caem, mortas e frias, de uma outra mão, delicadamente quente. E desta vez apresso-me em tirar os meus olhos do verde luminoso e atraente dos olhos da Ema, que me sorriam com imutável simpatia. Digo até logo e lanço-te um último olhar. Um olhar que talvez revelasse mais súplica que outra coisa. Um olhar que revelava urgência, desespero e saudades que não existiam. Mas tu sorrias, quem sabe se, troçando pela vitória de teres conseguido divertimento gratuito logo pela manhã. Quem sabe se sorrias apenas por estares feliz ou por seres feliz; se sorrias da situação pela sua graça mas sem maldade.
Quando voltei as costas à tua imagem, ainda consegui ver a expressão de alegria vincada no rosto da outra tua amiga, a morena de cabelo avermelhado tão comprido quanto encaracolado.
No regresso ao trabalho, em estado de efervescência, esforçava-me por decorar caras, expressões, sorrisos, gestos, olhares, posturas. A cada passo que dava, reconstruía toda a história, toda a acção forte e vaga que se enrolava e desenrolava dos meus olhos para a cabeça, e da cabeça para o resto do corpo. E eu pensava se tudo aquilo não passaria de um sonho, de uma visão; se não teria eu enlouquecido ou a minha imaginação estivesse momentaneamente avariada. Isto era injustificável.
Durante esse dia, o trabalho que tinha, em geral, a capacidade, o poder de me abstrair fosse do que fosse, não conseguiu, irremediavelmente, retirar-me daquele estado em que fiquei.
A minha intuição dizia-me que não eras de cá. Podia deixar-me enganar pelos meus olhos que conhecem todos os rostos de vista. Podia deixar-me levar por outras suposições igualmente válidas. O facto de seres de outra localidade. De teres estado numa ausência demasiado longa para eu ter esquecido o teu rosto mesmo que só o tivesse visto uma vez e de relance. Mas nada disto me convencia a ficar de acordo com a hipótese de teres nascido e crescido na mesma terra que eu. Tu não eras daqui. A minha intuição raramente me induziu em erro. E eu confiava mais no meu instinto do noutra pessoa ou até, em coisas vistas pelos meus próprios olhos.
A continuação desse dia foi um verdadeiro inferno. O telefone não me dava descanso. Assuntos de última hora rompiam com a mesma urgência que eu tinha em reencontrar-te, e com necessidade semelhante de ficarem resolvidos no mesmo instante, à necessidade que eu tinha de resolver por onde começar a minha busca. Eu dividia, conforme podia, a minha concentração nos assuntos laborais de grande responsabilidade, com pensamentos confusos, ilusórios girando à tua volta. Por vezes, um dos meus colegas, com quem tinha maior confiança, perguntava se estava tudo bem comigo. E apesar de não fazer perguntas indiscretas, pois intrometer-se na vida dos outros não era o seu forte, o meu estado inconstante, de desinquietação, não lhe passou despercebido.
Por acaso, fomos almoçar juntos como era costume de vez em quando. E durante o almoço, que decorreu num restaurante não muito longe do local onde te descobri, empenhei-me ao máximo por manter uma postura normal, igual à de todos os outros dias. Comentar a minha vida pessoal, a minha vida privada com outras pessoas, era coisa que não se enquadrava no meu estilo de vida, e que destoava com a minha personalidade reservada. Por outro lado, eu fazia questão de separar as águas. Trabalho é trabalho e tudo o que a ele diga respeito, tudo o que a ele esteja ligado é tido por mim como uma questão sagrada, religiosa e, portanto, independente do restante.
Falamos sobre temas diversos da actualidade de um mundo que nos fazia girar à nossa volta; à volta dos outros, e de um todo interligado com outros todos que nos faziam girar à volta deles. As palavras quase saíam com a mesma velocidade que entravam pelos meus ouvidos, enquanto levava o garfo à boca, ou degustava o vinho que caía melhor do que a comida. Creio que estava sem apetite e sem assunto de conversa. Por isso, limitava-me a concordar ou discordar com aquilo que ele ia dizendo.
Já no final do almoço, calhou ele ter perguntado como estavam a correr as mudanças. Eu já nem me lembrava dessa questão que nos últimos tempos havia trazido algum entusiasmo extra à minha vida fechada.
Quando resolvi ir viver sozinho, deixar finalmente, a casa dos meus pais, comentei com o meu colega que andava à procura de casa no centro da cidade mas que me interessava um espaço não muito grande. Uma casa suficiente para uma só pessoa. E foi ele quem me deu uma mãozinha a encontrar aquela que correspondia às minhas expectativas.
Terminámos a refeição com esta conversa que, independentemente de pertencer à minha vida pessoal, não era nenhum assunto secreto. Tomámos café e seguimos, com maior satisfação, para o local de trabalho que nos esperava, interminável e agitado.


(Texto de Alexandra Antunes. Fotografia de Christian Coigny)


O próximo capítulo será editado dia 05 de Março, Sábado.


Publicado por void em fevereiro 26, 2005 09:19 AM
Comentários

Não sei qd é que "isto" irá acalmar...sem tempo para nada...vim agora no silêncio da noite por a leitura em dia. Como sempre Sandra, as tuas escolhas são excelentes, excelentes. Beijinho grande e bom domingo.

Afixado por: Micas em fevereiro 26, 2005 10:57 PM