Harry Mulisch, escritor holandês contemporâneo nascido no ano de 1972, é o autor da obra a que faço recurso. "Duas mulheres" consubstancia-se nas retrospectivas que Laura, a narradora, faz dos últimos tempos da sua vida, no contexto da morte da mãe. Nesse âmbito, o relato do envolvimento com uma mulher- Sílvia.
É, pois, da forma como se verifica o primeiro contacto e o início da relação entre ambas, que aqui apresento excerto:

Silêncio.
- Devo dizer-te - disse-lhe eu, talvez uns dez minutos depois de lhe ter dirigido a palavra pela primeira vez, - que não sou uma pessoa muito faladora-
- Eu também não - disse ela.
O que é que se passava comigo? Era uma espécie de declaração que alguém faz num restaurante de estação, onde se encontra com um outro infeliz que respondeu ao anúncio para fins matrimoniais que tinha posto no jornal, quando desde o princípio se tem a intenção de ficar junto para a vida toda. Pelos vistos ela também achava que não era um encontro qualquer - senti isso de imediato quando olhei para as costas dela.
Eu tinha ido comprar pão. Era um sábado à tarde, o sol de Fevereiro brilhava palidamente sobre a cidade. Vi-a do outro lado da rua, ao pé da montra de uma joalharia. Fiquei parada. Olhei para as costas dela e para a nuca, e para a barriga das pernas, metidas numas botas de um vermelho vivo, e ao mesmo tempo interrogava-me porque é que eu estava parada a olhar para ela. Era como se tudo na rua se tivesse deformado e desfocado, como numa determinada espécie de fotografias, enquanto apenas aquela rapariga tinha permanecido bem nítida, no meio da imagem. Não que a vista de trás fosse particularmente bonita: ficava-lhe muito bem o cabelo apanhado de forma solta, mas as costas dela eram um pouco compridas demais, as ancas demasiado estreitas e as pernas não eram tão direitas como geralmente dá gosto ver. Mas tudo se desviava do ideal num sentido que de uma maneira ou de outra se ajustava exactamente a mim. O corpo humano é um sistema de comunicações: acerca dos olhos e da boca todos estão de acordo, e acerca das mãos, mas também os pés e o pescoço e as barrigas das pernas falam uma língua que não pode mentir. Mesmo cortando-lhe a cabeça e os braços, ela continua a ser uma mensagem ideal que merece um lugar no Louvre.
Atravessei a rua. De repente arfava um pouco. Nunca antes tinha sentido tão claramente a sensação, de um segundo para outro, de que estava a fazer algo que iria alterar a minha vida por completo. Nunca tinha tido nada com uma mulher e naquele momento mal me apercebi do que estava prestes a acontecer. Provavelmente, naquele momento ainda pensei que me estava a deixar arrastar por um qualquer sentimento platónico, oriundo da história da arte, resultante das minhas leituras.
(...)
Tinha-me posto ao lado dela. O meu coração batia com força. Ela lançou-me um olhar surpreendido e assustado, e naquele exacto momento desapareceram da cara dela os indícios de angústia e aflição, de modo que pude ver como é que ela era.
(...)
Fazia frio. Caminhávamos ao lado uma da outra através de ruas onde não tínhamos nada para fazer. Ainda não estava claro para mim o que é que eu queria propriamente, apenas que queria continuar a andar ao lado dela, como um cão ao lado do dono - quer dizer, como um cão de um cego, porque o dono não tomava qualquer iniciativa.
- Onde é que havemos de ir? - perguntei.
- Onde quiseres.
- Tens alguma coisa especial para fazer hoje?
- Eu nada. Hoje tirei um dia de folga.
Será que eu própria tinha alguma coisa que fazer? Eu tinha estado casada durante sete anos e já há cinco anos que me tinha divorciado. Fazia o meu trabalho no museu, e as visitas à minha mãe eram ao mesmo tempo as minhas férias. De vez em quando lá ia para a cama com um homem que tinha conhecido por aí. Na maioria das vezes isso passava-se em minha casa. Eu não tinha interesse nenhum em ter uma relação permanente; aliás, os homens que mo propuseram tinham na maior parte dos casos uma família, e nos fins-de-semana, infelizmente, - tens que compreender isso, querida, eu também quereria que as coisas fossem diferentes - não estavam disponíveis.
(...)
Sempre estivera convencida que de repente algo aconteceria, num determinado dia - mas só se eu não procurasse. Tudo aquilo em que concentramos a nossa vontade e a nossa atenção torna-se invisível, inacessível, esta é pelo menos a minha experiência. Só reparamos bem nas coisas quando as vemos pelo canto do olho, num momento em que outro assunto ocupa a nossa atenção. Então, é como se a realidade se sentisse ignorada e, não conseguindo aceitar isso, se impõe a nós.
- Vamos até minha casa beber qualquer coisa?- perguntei.
- Acho uma ideia óptima.
(Harry Mulisch- DUAS MULHERES. Pintura de Raphael Perez)
Com este post dou por encerrada a semana temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura" (2ª Série). Desejando que esta série vos tenha agradado tanto como a primeira ou simplesmente agradado, sem se fazerem comparações, dado que cada conjunto de textos vale por si, despeço-me agradecendo todas as participações e apoios demonstrados. Beijo grande para todos :)
bom fim de semana.
Afixado por: Ofeliazinha em fevereiro 25, 2005 01:35 PMInteressante excerto de uma obra que fiquei com vontade de ler ... Um beijo!
Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 27, 2005 01:54 AM