fevereiro 24, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE- 4)

Tal como foi registado no post anterior, apresento hoje um excerto de um capítulo de "Vagabundos de Nós", de Daniel Sampaio, em que a protagonista é a mãe. A mãe do Diogo, o jovem que de si nos fala, relatando aquele que foi o seu desenvolvimento como criança e jovem, conjugando-se a este nível, a evolução da própria sexualidade, com tudo o que teve inerente. A mãe, uma mãe, que fez os seus acompanhamentos, que foi tirando as suas conclusões... ou nem tanto... ou tardiamente... e que nos vai revelando os seus estados de espírito. Por outro lado, sempre com uma grande força, o tipo de relação tida com este filho.
São, pois estes, alguns dos seus pensamentos:

Podes ter a certeza. Gosto do Francisco desde o primeiro momento, encantou-me a tranquilidade do seu sorriso, o modo educado como cumprimenta, sobretudo a ternura com que te olha.
Foi preciso vencer muitos medos. Por estranho que pareça, Diogo, era mais simples não saber com quem andavas do que te ver amar uma pessoa concreta. Quase me envergonha dizer isto, mas continuo a pensar que ninguém te pode dar mais carinho do que eu. Egoísmos de mãe! Quando chegavas a casa de madrugada e na manhã seguinte tentava em vão tirar-te da cama, vinham-me à cabeça os riscos que corrias, doenças, vinganças, problemas com a polícia, mas tinha a certeza de que uma parte de ti continuava a ser minha, como não amavas ninguém eu continuaria em primeiro lugar. Foi por isso que tive medo quando disseste que finalmente tinhas uma relação importante. Parecias feliz mas a princípio não me alegrei, só apareciam o ciúme e o abandono, receios de que partisses de vez daquela casa e eu ficasse só no mundo, a ver adoecer a avó Xinha e a sentir o teu pai cada vez mais longe.
O tempo ajudou, duas ou três semanas obrigaram-me a reflectir. A pouco e pouco esqueci estes pensamentos egoístas e mesquinhos, compreendi que nada poderia ser melhor do que ter alguém para amar. Sei agora que o acontecimento decisivo foi o jantar a três no restaurante de Campo de Ourique. Aquele sorriso fez desaparecer todas as dúvidas, o modo tranquilo como o Francisco te respondia deu-me a paz há muito pretendida.
Prefiro deixar as coisas assim, não falarei do Francisco a ninguém. Quando as minhas amigas perguntarem pelas tuas namoradas continuarei a dizer que não as conheço e que me pareces um rapaz que não se quer prender. Ao teu pai nada direi, vou limitar-me a responder que tudo vai bem, entraste na Faculdade no curso de Sociologia escolhido em primeira opção, não era isso o mais importante para ele? (...)
A culpa, no entanto, não me deixava sossegar. Onde tinha falhado? Por que motivo não tinha interpretado os sinais que observava desde a tua infância? Não tinha sido cobardia jamais ter interrogado o teu destino, ou questionado aquilo que era evidente no teu percurso?
Dormia mal. Sonhava que a avó Xinha te descobria um dia com o Francisco, ou que o teu pai voltava ao passado, os dois descontrolados batiam-se à minha frente (...). Noutras ocasiões não conseguia adormecer, as minhas amigas tinham-te vsto de mão dada com o teu namorado à entrada de um bar gay, a Alice dizia finalmente perceber por que razão eu não gostava de falar das tuas namoradas.


(Daniel Sampaio- VAGABUNDOS DE NÓS. Pintura de Raphael Perez)

Publicado por void em fevereiro 24, 2005 07:12 AM
Comentários

Um óptimo livro que me foi oferecido no natal de há dois anos. Boa escolha. Beijos

Afixado por: Contador de Histórias em fevereiro 24, 2005 08:25 PM

Texto interessante e a imagem (como aliás as antecedentes) de grande qualidade estética! Um beijo.

Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 24, 2005 10:48 PM