Thomas Mann (1875-1955) é o escritor que vos trago hoje. E dele a obra "A Morte em Veneza" (escrita entre Julho de 1911 e Julho de 1912). Uma obra que apresenta um interesse... uma paixão, com cunho altamente platónico, de um escritor por um jovem de beleza singular. O cenário: Veneza. Veneza: a cidade que vai "presenciar" todos os acontecimentos, "sentir" todas as emoções, assim como a morte do escritor.
Estamos, de facto, perante um livro onde o Belo é altamente considerado, sendo o conceito feito desenvolver, naquela que é a relação com os sentimentos e emoções vividos. Um livro que, sublinho, tem um forte cunho auto-biográfico.
Deixo-vos com um excerto:

Um grupo de adolescentes e jovens adultos, confiados a uma perceptora ou dama de companhia, estavam reunidos à volta de uma mesinha de bambú: três jovens raparigas, aparentemente de quinze a dezassete anos e um rapaz de cabelos longos, de aproximadamente catorze anos. Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. O seu rosto pálido e graciosamente circunspecto, emoldurado de caracóis cor-de-mel, com um nariz direito, uma boca aprazível e a expressão de uma afeiçoada e divinal seriedade, lembrava esculturas gregas nos tempos mais nobres. No mais puro acabamento da forma era tal o encanto pessoal, que o observador julgava nunca ter encontrado quer na natureza quer nas artes plásticas algo de semelhante perfeição.
(...)
Um sentimento de delicadeza ou de susto, uma espécie de consideração ou de pudor levou Aschenbach a desviar o olhar, como se nada tivesse visto; pois ao contrário do sério observador ocasional de uma reacção passional não agrada de modo nenhum tirar proveito das suas observações, nem que seja para si próprio. Mas sentia-se alegre e ao mesmo tempo abalado: sentia-se feliz. Este fanatismo infantil dirigido contra um pedaço de vida tão inofensivo deu à inexpressividade divina um toque de humano, transformou a preciosa obra-de-arte da natureza, que apenas servirá para deleite do olhar, numa entidade digna de mais profunda compreensão. Concedia àquele adolescente, cujo corpo se destacava pela beleza, uma dignidade que ultrapassa a sua idade.
(...)
A visão daquela figura viva com caracóis gotejantes, originalmente pura e austera, bela como um deus vindo das profundezas do céu e do mar, emergindo e escapando-se aos elementos, despertava imagens míticas, era como poesia de tempos primordiais, tempos de origem da forma e do nascimento dos deuses. Com os olhos fechados, Aschenbach escutava este canto que soava no seu interior e novamente pensou que se sentia bem aqui e que queria ficar.

Aschenbach não amava o prazer. Sempre e onde quer que estivesse a divertir-se, a descansar ou a gozar uns dias agradáveis, era impelido por uma inquietante e obstinada força de regresso à enorme fadiga, à tarefa sagrada e sóbria do seu dia-a-dia. Só este lugar o enfeitiçava, descontraia a sua vontade, o fazia feliz.
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Estátua e espelho! Os seus olhos estreitavam aquela nobre figura à beira do azul e, enlevado neste delírio, julgava envolver com o seu olhar a própria beleza, a forma enquanto pensamento divino, a perfeição una e pura, que vive no espírito e da qual uma cópia, uma parábola humana aqui estava erigida para ser idolatrada. Era este o seu êxtase; e o envelhecimento do artista recebeu-o sem hesitações, com avidez até.
(...)
Alguma relação e um conhecimento tinha de nascer forçosamente entre Aschenbach e o jovem Tadzio, e era com uma alegria penetrante que o mais velho percebia que a sua atenção e participação não ficavam completamente incorrespondidas.
(Thomas Mann- A MORTE EM VENEZA. Pinturas de Raphael Perez)
Mais uma das escolhas fantasticas da grande senhora ;)*
Afixado por: Monica em fevereiro 22, 2005 10:24 PMThomas Mann é, na verdade, o meu escritor favorito. Desde o Dr. Fausto, passando por essa enciclopédia de vida que é a Montanha Mágica, até à decadência dos Budenbrook, todas as obras a que tive acesso de Mann deixaram-me completamente extasiada.
A Morte em Veneza é um livro que não pode e não deve ser categorizado. Neste livro é retratado o amor na sua forma mais pura, na sua forma mais pungente, como ligada ao conceito de Belo. Mas o caminho para lá chegar é tortuoso, e Veneza, a fétida e a epidémica Veneza, é palco mais que suficiente para agregar ao Amor, um cheiro a morte...
Disseste que este livro tem um cunho muito auto-biográfico. Muita gente considera ser este o exemplo de uma viagem de Mann a Veneza. Porém, e mesmo conhecendo a bissexualidade de Mann, este livro foi inspirado numa outra grande pessoa do mundo da Arte - o compositor Gustav Mahler. Aliás, Luchino Visconti, que travou conhecimento com Mann, sabia-o e não foi ao acaso, que o filme do mesmo título tem como pano de fundo, o Adagietto da 5ª Sinfonia de Mahler!
Afixado por: Paula em fevereiro 22, 2005 10:29 PMeste conhecia. já se vão conhecento os gostos. bons! continuas estonteante na produção de posts. um bj
Afixado por: TCA em fevereiro 22, 2005 10:41 PMEste teu post provocou-me uma nostalgia imensa dos tempos em que investiguei e li milhentas coisas acreca de Thomas Mann para produzir um trabalho na faculdade, do qual resultou uma apresentação de 2 horas dedicadas ao autor. Este era, a par de Kafka, um dos meus favoritos da literatura alemã. Com este post, este texto belíssimo que evoca outros na minha mente, fizeste-me reparar quão afastada ando destes autores que tanto apreciava ... Obrigada pela parte que me toca. Um beijo.
Afixado por: Pink, the Lady em fevereiro 23, 2005 12:10 AM