fevereiro 21, 2005

DAS RELAÇÕES HOMOSSEXUAIS E LÉSBICAS NA LITERATURA (2ª SÉRIE-1)

A semana que hoje se inicia vai lançar a 2ª série da edição de textos que se enquadram na temática "Das relações homossexuais e lésbicas na literatura". E nesta nova série, outros autores, outras formas de abordar as realidades, outros estilos para fazer pensar. Para fazer pensar e para fazer apreciar ainda mais a Literatura, naquela que pode ser a sua riqueza, em particular, em termos de apresentação das realidades, das complexidades e variedades que tem inerentes.
Esta semana arranca com um excerto de uma das obras da escritora Marguerite Yourcenar- "Alexis". E Alexis é um homem, um músico que decide pôr término a três anos de casamento por querer assumir por completo aquela que é a sua sexualidade. Esta obra é, pois, a confissão de Alexis a Monique, sua mulher. Mas é uma confissão contida, não explícita... é uma confissão que se deve subentender. É um dizer, não dizendo directamente. Mas é. E basta estarmos atentos para o perceber.
A propósito desta obra destaco que foi escrita em 1929 com tudo o que isso reflecte de "teorizações" ou explicações sobre a questão da homossexualidade. Seja como for tal não invalida os grandes problemas que são colocados, nomeadamente, aqueles resultantes da (não) aceitação e (não) compreensão social (muito mais dilatados nos inícios do século XX no que concerne a exclusão e marginalização). Ou seja, as questões do preconceito, da imposição de uma moral e de determinado tipo de condutas/posturas/preferências, continuam com uma presença bastante real.
Quanto ao excerto... passemos a ele:

Fui educado pelas mulheres. Era o último filho de uma família muito numerosa; era de compleição doentia; a minha mãe e as minhas irmãs não eram muito felizes; razões de sobra para que eu fosse amado. Existe tanta bondade na ternura das mulheres que durante muito tempo julguei poder dar graças a Deus. A nossa vida, tão austera, era aparentemente fria; tínhamos medo de meu pai; mais tarde, dos meus irmãos mais velhos; nada aproxima tanto as pessoas, como terem medo juntas. Nem a minha mãe nem as minhas irmãs eram muito expansivas; a sua presença era como a dessas lâmpadas frouxas, muito suaves, que mal iluminam, mas cujo clarão uniforme impede que faça demasiado escuro e se fique realmente só. Não se imagina quanto há de tranquilizador, para uma criança inquieta como eu era então, na afeição sossegada das mulheres. (...)
Encontro-me pela segunda vez à beira de uma confissão; melhor será fazê-la de imediato e com toda a simplicidade. As minhas irmãs, bem o sei, também tinham companheiras, que viviam familiarmente connosco, e das quais acabava por julgar-me quase irmão. Contudo, nada parecia impedir que eu amasse alguma dessas raparigas e talvez vós própria achareis singular que o não tenha feito. Precisamente, era impossível. Uma intimidade tão familiar, tão tranquila, arredava as próprias curiosidades, as próprias inquietações do desejo, supondo que a tal me abalançasse junto delas. Não creio excessiva a palavra veneração, que há pouco empregava, aplicada a uma mulher de grande bondade; cada vez menos o creio. Suspeitava já (exagerava, até) quanto há de brutal nos gestos físicos do amor; ter-me-ia repugnado aliar essas imagens da vida doméstica, sensata, perfeitamente austera e pura, a outras imagens, mais apaixonadas. Não nos enamoramos daquilo que respeitamos, nem porventura daquilo que amamos; não nos enamoramos sobretudo daquilo com que nos parecemos; e aquilo de que eu mais me diferençava não era das mulheres. (...)
Dir-se-ia que eu quis explicar há pouco as minhas inclinações por influências exteriores; contribuíram por certo para as fixar; mas vejo perfeitamente que devemos atentar em razões muito mais íntimas, muito mais obscuras, que não compreendemos bem porque se escondem dentro de nós. Não basta ter determinados instintos para se esclarecerem as suas causas, nem ninguém pode, afinal, explicá-las por inteiro; por isso não insistirei. Queria simplesmente mostrar que esses instintos, justamente porque eram naturais em mim, podiam desenvolver-se durante muito tempo sem que eu desse por eles. As pessoas que falam só pelo que ouviram enganam-se quase sempre, porque estão a ver de fora, e vêem grosseiramente. Não imaginam que certos actos que consideram repreensíveis possam ser ao mesmo tempo fáceis e espontâneos, tal como a maior parte dos actos humanos, aliás. Acusam o exemplo, o contágio moral e adiam apenas a dificuldade de explicar. Não sabem que a natureza é mais diversa do que se julga; nem querem saber, porque lhes é mais fácil indignarem-se do que pensar. Fazem o elogio da pureza; não sabem quanto pode haver de turvo na pureza; ignoram sobretudo a candura do erro.


(Marguerite Yourcenar- ALEXIS. Pintura de Raphael Perez)

Publicado por void em fevereiro 21, 2005 06:58 AM
Comentários

O que dizer?? Parabéns, invejo este teu blog e admiro o teu tamanho bom gosto quer na selecção das temáticas, quer nos autores e seus textos. Beijos

Afixado por: Contador de Histórias em fevereiro 21, 2005 03:36 PM

Continuas imparável.
Belíssimas selecções as que tens feito. E esta também não foge à regra.
Obrigado e um beijo mais repenicado por isso...

Afixado por: NILSON em fevereiro 21, 2005 07:21 PM

Gostei da primeira série e estou a gostar da segunda. Fazes aqui um excelente trabalho sempre. De louvar!!
Beijinhos
*A

Afixado por: Alexandre em fevereiro 22, 2005 01:58 PM