Porque este fim-de-semana é dela, deixo-vos com outro texto da Paula. Mais um texto. Um outro. Uma outra temática. Relações interpessoais. Relações entre casais. Relações para além das supostamente "oficiais". Legitimidades? Fidelidades? Infidelidades? O que é isso? E face a quê ou a quem? Enfim... Uma proposta de análise e interpretativa. Algo mais, com um cunho muito pessoal. Ora leiam.

Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos, dos pintores amargos, mergulhados no vício e no mal, num ambiente cinzento e torpe, onde nunca brilha a luz da esperança e da bondade.
Este é o mundo dos que padecem da doença de terem sido alvo da infidelidade. Um homem e uma mulher, sem nomes, esquecidos, perdidos no vácuo de serem ambos subreptíciamente traídos por aqueles a quem amam. Um homem, sorvedor dos caprichos de uma mulher que o engana tanto quanto pode; uma mulher, incapaz de se libertar das cadeias de vício que a une a um homem que a trai com cada mulher que encontra. Um homem e uma mulher... O café, encenado numa praça londrina no centro de L., concentra nele a delícia de se purificar e realizar o bem. Neste pântano sem céu, onde o cheiro a grãos de café se mistura com a névoa de fumo que enrola o ar que cada ser sente. O homem e a mulher estão sentados em mesas paradoxalmente opostas, como se mundos paralelos e interligados se confrontem com estranhos paradigmas. Em cada uma das suas mesas esconde-se um livro, uma chávena de café suja e vazia, um cinzeiro e beatas.
Fumam e absorvem o fumo, numa última tentativa de recuperarem as lágrimas amargas despejadas pelo sentimento do engano. Reconhecem-se ambos, como dois siameses que, depois de tantos anos separados, se juntam finalmente. Reconhecem a expressão da traição, da faca cravada nas costas. Estão em silêncio, pois nenhum deles quer assumir a responsabilidade de encorajar o outro a deixar de o olhar. O homem e a mulher observam-se como marca do seu triunfo. Os olhos vítreos pousam e descaem-se mutuamente como sinal de que ambos preparam uma dura vingança. A vingança é sempre um atributo do prazer, e os dois sabem que, este sinal dos seus olhares não representa a tristeza de estarem a ser traídos, mas a grandiosidade de serem eles mesmos os traidores. Porém, a pouco e pouco, olhar de ambos vai-se desvanecendo na bruma e nos sons irritantes das máquinas de café. A pouco e pouco, o homem e a mulher vão-se tornando cada vez mais infelizes na sua infelicidade.
A pouco e pouco, a consciência de que continuam ambos a ser traídos, vai sendo retomada e obstinadamente concentrada. Reconhecem que, nunca os seus olhares indefesos poderão colmatar a lacuna da infidelidade alheia. O homem levanta-se e aproxima-se, com passos lentos e vagarosos, da mesa da mulher. O movimentar de rins faz balouçar o corpo ligeiramente para a esquerda, atribuindo-lhe um ar arqueado e desmesuradamente torto. A mulher não se surpreende, mas baixa os olhos sobre a mesa e sobre as beatas perdidas. Conta-as, num estranho exercício de futilidade, mas não as consegue somar, não as reconhece no seu todo. O homem crava os dedos no antebraço da mulher e impulsiona-a a levantar-se. O momento em que a mulher se decide a abandonar a cadeira é atravessado por um casulo de devaneios, como o reconhecimento de uma aventura visível, efectuada no mundo dos homens e das coisas. Os corpos de ambos são movidos por uma verdadeira suspeição, como o tuberculoso que sente subir à boca o gosto do sangue misturado com a saliva.
Presos na gravidade da atmosfera, a mulher segue o homem como uma sombra. Não se falam, não se perguntam, não se compadecem. Deixam-se arrastar por essa força de ar que é o sentimento de vingança. Este é o mundo dos traídos... Na porta de um dos prédios lê-se a palavra "Devoluto", um estranho significado para a mente do homem e da mulher. Empurram a porta pesada e ruidosa e, sem a mínima atenção, sobrem o lance das escadas. No patamar, um ruído mal sufocado de alguma colónia de ratos irrompe sobre os ladrilhos poeirentos, juntamente com um murmúrio confuso e íntimo dos seus pés. Empurram uma das portas e vislumbram o apartamento, palco dos seus delírios. No vestíbulo, vasto e negro, o homem e a mulher tiram o casaco. Abrem-se nele três portas; defronte da entrada há uma grande janela escura, rectangular, que deve, sem dúvida, deitar para um pátio interior. Passam para a sala. - Instalemo-nos aqui. - Diz o homem, apontando para um grande sofá de pele, velho e traçado. Nesse momento despem-se, ficam totalmente nus. A mulher deixa descobrir, em primeiro lugar, os seios, pequenos e flácidos, para depois, em movimentos serpenteantes, deixar sair o resto do corpo. Estranho que o corpo, aquando nu, assume sempre uma natureza indefesa e vertiginosa, como uma verdade cálida e sofredora. Nesse instante, o homem, hábil nos seus movimentos, destapa o corpo, deixando transparecer a verdadeira virilidade masculina, o exercício de poder de que, durante tantos anos, os homens impuseram. Estão ambos nus, frente a frente, mas não ousam sequer imprimir qualquer som, e muito menos a tendência geral dos seres humanos, de usar o toque como reconhecimento.

De facto, no exercício de se quererem vingar daqueles que amam e que os torturam, depositam nos olhos o sabor da boca. Naquele antro de traição, sentem-se felizes por saber que, de qualquer modo, estão a vingar-se deles. A infidelidade coloca-lhes à disposição uma ideia de resposta e não uma necessidade de interrogação. Observam-se até cansarem os olhos. Nenhum deles ousa mexer-se... Durante dias, voltaram ao prédio devoluto. Despiam-se, observavam-se, vestiam-se, e voltavam às vidas inertes e tristes que os fazia querer voltar àquele lugar. Porém, à medida que esta estranha rotina se transformava num dogma, o sentimento de vingança ia-se tornando cada vez mais simplificado e inútil. Demovia-os cada vez mais do seu propósito. Num dos dias, quando o homem desabotoava a braguilha, os seus dedos tiveram a certeza de aprisionar um tesouro. A mulher apercebeu-se de tal dilema, e experimentava com isso um sentimento de humildade tranquila perante a serena e incomparável potência do membro para o qual dirigia o olhar.
Naquele dia, o sexo do homem afigurava-se como uma muralha com uma brandura extremamente provocante. A mulher deixou a mão baixar ao ventre e mergulhar-se no seu mais secreto domínio. Novamente o sentimento de vingança, a consciência de que respondia ao facto de ter sido alvo de infidelidade, voltava à mente. O rosto da mulher, tornava-se, com o balançar do corpo, cada vez mais pueril e beatificado. Os seus olhos, não se depositavam no membro do homem, mas no seu olhar, na consciência de estar ela mesma a ser observada. O homem sabia-o, e agarrava com os dedos o membro sólido e palpitante, nu e quente, todo preparado e desambaraçado da roupa, em brasa, e, ao mesmo tempo, gelado, para lançar na espessura do quarto, o registo final do seu prazer. O homem e a mulher acariciavam-se sozinhos e observados um pelo outro. Com dois esgares, deixaram transparecer um sentimento de vitória...
Um novo alento pousava na mente do homem e da mulher. Não se vestiram, antes deixaram-se estar nus, inocentes e incoerentes. A mulher levantou-se e vagueou pelo vestíbulo e pelos outros quartos. A casa não tinha qualquer outro objecto que não aquele sofá. Para qualquer pessoa, tal facto representaria um sentimento de desconforto, mas, para aqueles dois seres, representava a sensação de, também a casa participar naquele acto de vingança. O homem também se levantou e aproximou-se da mulher, que olhava pela janela. Subitamente, um grito surdo e oco produziu-se nas vozes de ambos. Quando aproximaram os olhos da dor, verificaram que, no chão de madeira, todo ele repleto de vidros, provenientes da janela partida, espelhava-se um líquido vermelho negro. O homem e a mulher, munidos de instintos animalescos, tornaram o chão e sugaram o sangue que escorria. Lambiam cada gota, cada vidro, quais vampiros da verdade. Não compreendiam a razão de estranha necessidade, mas sentiam-se saciados em deixar escorrer pela boca o sangue do outro. Nesse instante determinaram o destino. O mundo havia morrido, as trevas ecoavam pela casa...
O homem e a mulher fecharam-se naquela casa durante dias, sem água, sem luz, sem comida. Nesse exercício de prazer corrosivo, sentiam-se famigerados pela vida e pela morte. Não ousavam, no entanto, tocar-se. Ao fim de noites, os corpos, magros, cegos, desidratados e esfomeados, já não tinham qualquer autonomia. A palidez das suas expressões contrastava com a determinação de ambos. Nesse exercício de deturpação da condição humana, os olhares encontraram-se uma vez mais e, nesse instante, o Eros desafiou as convenções. A vingança transformara-se em ternura. O homem e a mulher já não viviam num mundo obscuro. A presença de ambos, o entrelaçar dos seus odores acres e sedentos, fê-los voltar ao mundo da virtude e do bem, ao mundo da esperança e da bondade, ao mundo dos apaixonados. Amavam-se... As suas bocas foram impelidas a tocar-se, mas, à medida que as peles se grudavam, um sentimento repelente tombava sobre as suas mentes. Era a voz da consciência que os chamava. O homem e a mulher estavam perto de se tornarem eles mesmos, naquilo que os trouxera - a infidelidade. No entanto, ao contrário dos seus passivos, eles não estavam prestes a tornarem-se infiéis aos seus companheiros, mas à sua situação de traídos. O seu mundo era o mundo dos traídos e dos desapaixonados, uma condição que os tinha constituído da qual não deviam, nem podia abdicar. Ao entregarem-se ao Eros, estariam a ser infiéis à própria infidelidade.
Não, o seu mundo não era aquele a que agora se propunham, nem nunca o poderia ser... O homem e a mulher, famintos e suados, separados, não ousaram sequer olhar-se. Sentiam-se como o criminoso punido e votado a uma liberdade condicional, em que qualquer acto suspeito seu, o poderia fazer voltar ao calabouço. Vestiram-se e arrastaram-se por esse prédio devoluto e moribundo com cheiro a podre. Chegados à Rua, depararam-se com a luz como se tivessem sido eles os escravos propostos por Platão, na Alegoria da Caverna. O homem e a mulher tornam a suas casas e voltam a esse estranho mundo da traição e do abandono. Sentados, deitados, em pé, nunca abdicarão dessa posição que os companheiros contratualmente os hão submetido. O homem espera a mulher que o engana tanto como pode; a mulher espera o homem que a trai com cada mulher que encontra.
Este é o mundo dos desapaixonados.
Este é o mundo, não dos que traem, mas dos que são traídos.
Enfim, estão sós.
(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING! Fotografias de José Marafona)
Vim por a escrita em dia, parece que agora só aos fins de semana :(
Gostei imenso deste tema. Um bom tema de reflexão...e são tantas as vezes que as coisas acontecem desta maneira...e será necessário que assim seja??? um bom tema de reflexão, sem dúvida. Beijinho grande e bom domingo.
Sentimentos antagónicos trespassam as personagens destas histórias de traidores, traídos e vingadores! Excelente texto!
Afixado por: jotakapa em fevereiro 20, 2005 07:18 PMComplexa esta questão...e por isso mesmo apixonante. "este é o mundo dos que são traídos." E esse desejo de vingança...existe mesmo! Essa dor, essa angústia, esse desejo...que aginal, o não é...
Mas...e porquê a traição? Porque trai a mulher o seu marido? Porque trai o marido sua esposa? O que os faz procurar noutros aquilo que deveriam ser os seua companheiros "oficiais"a dar-lhes??? Um meso desafio? Apenas o provar do "fruto proibido"? O prazer de experimentar algo diferente? O QUÊ??? O que é que gera essa traição??? Carência? Falta de diálogo? Falta de um toque de carinho, um passar a mão pelos cabelos [tão fácil], um simples olhar a dizer "desejo-te"...Afinal, o que falta aos casais para que um ou outro traia o companheiro?
E os que traiem?...como se sentem na sua condição de traidores? de adúlteros?...satisfação? remorso? indignidade?...
...eu não sei[nada sei, afinal]...
Quem sabe?...
Jinho e carinho, BShell
Afixado por: blueshell em fevereiro 20, 2005 08:52 PMMuito forte este texto, assim como o seu tema. Gostei bastante do modo como a autora descreveu este tão frequente acidente amoroso... Infidelidade... o terror de quem ama!
Afixado por: missantipatia em fevereiro 27, 2005 12:26 PMComo encontrar alguem que na serenidade aceoie as insatisfacoes e incoerencias do mundo... tenho medo da sinceridade das pessoas...
Afixado por: Clapp em março 10, 2005 04:30 AME por que que quando bem tratados, alguns de nos pioram intensamente de conduta? por que alguns se "penduram" em outros, sugando sua vida? e por que o amor deixa agente deixar isso acontecer? 'e melhor ser frio e aproveitar as paixoes sexuais mais calorosas, nao se importando com o futuro??? fiatlux...
Afixado por: Clapp em março 10, 2005 04:34 AM