fevereiro 19, 2005

A FELICIDADE NEM SEMPRE É DIVERTIDA

No contexto de acolher aqui no Abismo textos de companheiros da blogosfera, chegou hoje a vez de vos apresentar alguém cujo trabalho aprecio e cujo blog tenho linkado entre aqueles que visito. Falo-vos da Paula, blogger do "Divine Decadence Darling!"
O texto que a seguir edito é um exemplo daquele que é o seu estilo, do formato de apresentação privilegiado, assim como dos temas sobre os quais se debruça. Mas este texto é, em termos de conteúdo, também uma referência. Uma referência do que é ou pode ser o Homem. Uma referência de até onde pode ir o seu cinismo, a sua hipocrisia, o seu julgamento impiedoso.
Estamos, inequivocamente, perante um texto que nos faz parar. Parar para pensar, em particular, na dimensão do exercício... ou não... da nossa humanidade: connosco próprios e com ou em relação aos outros.
Espero que gostem!

O nosso Portugal está cheio de histórias, de medos, de alegorias, de assombrações.

E a aldeia dos S., situada onde as Beiras se cruzam, não é excepção. Contam-se muitas histórias, reflectem-se muitas sentenças, mas naquela aldeia, onde o pão ainda se come a cheirar a lenha, onde os lobos ainda aterrorizam as galinhas, onde os candeeiros a petróleo ainda substituem o Sol, só existe uma história, que é contada vezes e vezes sem conta, como sinal, como presságio para os mais novos, e como lição de vida para os mais velhos...

Nos tempos, em que o Salazar era Rei e em que a Fome era Rainha, aquela aldeia, pequena e insignificante, vivia presa a uma comunidade mesquinha e fechada. Sempre as mesmas caras, sempre os mesmos corações, sempre as mesmas frases feitas, que se desdobravam no medo da Guerra, com aqueles pretos de raça branca e os bons dias da vizinhança e as conversas malfadadas dos restantes. Nessa aldeia, vivia a pobre e bela Sara, oscilante entre a infância e a juventude, cujo pai, sapateiro na aldeia, envenenado pelo cheiro da graxa, morrera pobre, só deixando seis galinhas a sua filha.

No entanto, deixara-lhe mais - a promessa de um casamento, com um pequeno proprietário, que, todas as Segundas partia para a cidade, em busca de lucro e sustentação. Voltava todas as Quartas, depois de se satisfazer em sete bordéis, oito casas de jogo, e uma partida de futebol. Casado com Sara, a sua vida não mudou muito, excepto aos Domingos, em que descia com a jovem mulher pela aldeia até à Igreja e aí assistia à Missa, engalfinhado num fato gordo, preto e sujo, e às Quintas, em que montava a esposa, como um Boi monta a sua Vaca. Ele grunhia como os animais e mordia com tesão os peitos de Sara, enquanto lágrimas da mesma lhe molhavam a boca. Com todas estas sessões, a jovem engravidou.

A aldeia congratulou o homem, fizeram-no detentor de um título de bom pai de família, enquanto a jovem se debatia em dores com aquela gravidez entabulada em medos e desgraças. Quis o destino servir de lição, e a ordem chegou a casa destes. A necessidade de mais homens naquela Guerra de Colónias e Colonatos, e o homem, viu-se obrigado a partir sem demora, e sem tempo de ver o filho nascer. Conta-se que terá sido morto, lentamente, por ferros em brasa, nas mãos de algum galo justiceiro.

Na véspera de dar à luz, a mulher pediu ajuda a duas curandeiras, que, com quatro rezas e seis mezinhas, trouxeram aquela criança pura à luz do dia. Qual o espanto das mulheres que, quando fizeram a criança chorar, a sua cor era mais negra que o carvão. Aquele pequeno ser, representava a mais estirpe linha africana, de uma tez negra e pesada, com um corpo vivo e imponente, fruto de algum Rei de uma cidade perdida no sul de África. A mãe amou-o e não se perguntou sobre as razões de tal mistério de Deus.

No entanto, as bruxas curandeiras, afastaram-se e escarraram perjúrios aos Infernos - "Filho de um Corno, Irmão do Diabo. É o Demo que te manda à terra. Matem-no". Não levou muito tempo, em que a aldeia, virtuosa na sua fúria, roubasse a pobre criança, e a queimasse viva, entre doze rezas, ao lado da Igreja. Acusavam-na de amantizada de algum negro escravo e perdido "Que desgraça para o marido! Que desonra terá o pobre de suportar quando voltar dos nossos triunfos." A realidade, era que nunca ninguém, nem mesmo a Ciência, matreira em todas as respostas, conseguiu descobrir tal razão.

A Mãe não se recompôs de tal crime, e deixou a casa, os bens, e vagueou enlouquecida pelas margens da aldeia. Quando recuperou a sanidade, já era tarde de mais, pois a povoação já a tinha em conta, já lhe dera nome, e já lhe havia feito uma canção.. . As crianças no percurso para a escola, os homens à saída da taberna, as mulheres à saída da Sacristia, todos lhe cantavam a seguinte canção: Atirem Pedras à Puta Puxem-lhe bem esse cabelo De um homem Branco que foi prá luta Teve um filho que nasceu Preto. Todos os dias, enquanto ela passava por alguma casa, mais pobre que os pobres, mais esfomeada que os esfomeados, todos lhe atiravam a canção.

Alguns juntavam as fezes da semana e atiravam-nas à sua cara, outrora tão pura e gélida. Outros procuravam pedras, e atiravam-nas à sua barriga. Com o passar dos tempos, foi obrigada a vender o corpo, aos soldados, aos médicos das aldeias vizinhas, e ao próprio Padre que, julgando-a já excomungada, montava-se sobre ela, fazendo disso uma necessidade para a sua compra celestial e a sua extrema unção.

Um dia, enquanto a jovem Sara, ainda vagueava pelos terrenos, descobriu um vendedor, que vendia lotarias. Incumbido por essa Santa Casa, e, vendo a jovem Sara, rodeada de pestilência, nauseabunda, e encurvada, ofereceu-lhe uma cautela. Sara, já tão pouco habituada a gestos caridosos, aceitou-o de bom modo. Descobriu ela, que ganhara uma fortuna, e, escondeu-a nos pedaços de tecido que ainda trazia agarrado ao corpo. A pouco e pouco a aldeia foi percebendo tal dote da jovem Sara. Recusaram admitir, por resquícios de orgulho, que lhe deviam algum cuidado, mas, mais uma vez o destino lhes foi traiçoeiro. Uma ordem emanada pelo serviço central da União Nacional determinava a expropriação daquela aldeia, sem qualquer indemnização, devido à falta de verba do Município para fazer frente a um Investimento Hoteleiro megalómano por parte do país vizinho.

O terror instalou-se.
Foram feitas Assembleias de Freguesia, discutiram-se múltiplas teorias, mas o possível, tornara-se impossível. A aldeia não tinha verba para fazer face a tal empreendimento. Num futuro próximo, todos os habitantes, ficariam sem as casas, o Padre ficaria sem a Igreja e os donativos das beatas, o Banqueiro ficaria sem o Banco e o dinheiro depositado pelos habitantes, o Presidente da Junta ficaria sem o edifício da Junta e a fama alcançada. Só existia uma solução - o dinheiro da jovem moribunda Sara. Como ela o trazia escondido no ventre, roubar-lhe soaria a acto despropositado. E nisto a Aldeia reconheceu que só ela os poderia salvar.
A aldeia passou a idolatrar a jovem Sara.

Ofereceram-lhe uma casa, deram-lhe banho, adocicaram-na, perfumaram-na.

Pediram-lhe o dinheiro.

Era ver todos os habitantes a implorarem por esse conjunto de notas.

O Padre chorava e pedia-lhe compaixão, o Banqueiro pedia-lhe uma Satisfação, as mulheres pediam-lhe perdão, os homens elogiavam-na até mais não. E, nesse ponto, toda a aldeia descobriu que a amava, de todo o coração. Sara, sofrera muito, e a sua decisão, poderia ser a causa de novos males da povoação.
Ela sabia, que, pela primeira vez, tinha o destino de todos eles, preso e assente na sua mão. O Poder pertencia-lhe, e de certa forma, glorificava-a. Poderia certamente vingar-se de todos eles, de todas as maleitas que a haviam submetido. Contudo, os seus olhares desesperados, os seus medos, as suas angústias, repugnavam a sua cabeça e sua suposta vontade.

Sara confrontava-se com a mente e o coração. Aquela aldeia, um dia já a tratara bem, e certamente o voltaria a fazer. Neste confronto de decisões, a jovem entregou todo o dinheiro ao Presidente da Junta, que rapidamente o fez chegar à Capital, e impedir esta tempestade pelo Irmão mais Velho que é o nosso país vizinho. Agradeceram-lhe e fizeram uma festa em sua honra. Era, de se ver, a jovem, carregada ao colo, sobrestimada, acariciada, mimada. Dançou, bebeu, e deitou-se cansada e confiante. No dia seguinte acordou, repleta em suspiros aliviados, virando-se de lado e observando o nascer do Sol, que um dia julgara extinto. Quando abriu a porta, a aldeia, ainda em festejos de tal gratidão, já lhe cantava:
Atirem Pedras à Puta
Puxem-lhe bem esse cabelo
De um Branco que foi prá luta
Teve um filho que nasceu Preto.


(Paula- DIVINE DECADENCE DARLING!. Fotografia de José Marafona)

Publicado por void em fevereiro 19, 2005 08:30 AM
Comentários

Que delícia de texto! Vou descobrir os outros textos no blog.

Afixado por: jotakapa em fevereiro 19, 2005 12:18 PM

O Zecatelhado deseja a todos os companheiros blogonautas um santíssimo fim de semana.
Aproveita ainda para desejar a melhor das sortes ao partido ou coligação das vossas preferências.

Um abração
Zecatelhado

Afixado por: zecatelhado em fevereiro 19, 2005 02:46 PM

posso dizer q este teu blog e divino sandra?*

Afixado por: Ana em fevereiro 19, 2005 07:05 PM

Adorei este lenda, por tudo o que encerra...

Afixado por: Micas em fevereiro 20, 2005 01:15 PM